O FASCÍNIO PELOS VILÕES
Olá leitor do blog Saber Jung, muito bom dia!
A postagem de hoje será sobre o universo dos vilões, resolvi de última hora dar uma misturada no universo da TV e do cinema, acredito que irá ficar uma boa postagem.
Na foto acima temos as imagens das personagens de Odete Roitman, Coringa, Nazaré Tedesco e Hannibal Lecter, digo logo de antemão que as escolhas não foram à toa.
Os vilões sempre despertaram um grande fascínio, mas porque isso acontece? Porque toda essa histeria com o mais recém-lançado filme do Coringa, por exemplo?
Será que existe alguma explicação para isso? Na realidade escolhi essa postagem de hoje sobre os vilões mais para preparar terreno para a próxima postagem sobre os contos de fada. Acredito que irei postar na próxima semana se tudo der certo.
Parte dessa atração por vilões pode ser explicada através da psicanálise.
Para Sigmund Freud, a personalidade humana seria dividida em três partes diferentes:
O id seria o lado dos impulsos primitivos, as paixões, a libido, a agressividade, etc;
O ego, que surgiria a partir da interação com a realidade, adequando os instintos ao ambiente em que se está inserido;
O superego, que seria formado a partir dos valores da sociedade, atuando de forma repressora para que o indivíduo aja sempre de maneira moral, mesmo que irracional.
Resumindo: os instintos primitivos são o id, o ego tenta equilibrar esses ímpetos e superego é o conflito com o id, criando uma culpa pelas ações impulsivas.
Os vilões da ficção representam a ausência do superego. Caras como o Coringa agem sem o menor sentimento de auto inibição por causa de amarras sociais. O id comanda e o ego tentaria harmonizar os desejos mais viscerais, com a supervisão repressora do superego… mas este não existe.
Mas não é somente Freud que explica... O nosso velho amigo de todas as horas Jung também tem sua parcela de explicação no quesito vilania...
De acordo com o inconsciente coletivo que não estão ligadas a experiências pessoais, mas principalmente coletiva, contém uma série de arquétipos.
Mas o que isso quer dizer?
Quanto mais o vilão entrar nesse ínterim de consciência coletiva, mais consegue se conectar com o público de forma mais profunda, e antes que você possa indagar os heróis também entram nesse inconsciente coletivo.
Como bem disse Jung: não somos ou anjos nem demônios, somos os dois.
E digo mais, os antagonistas tendem a despertar uma motivação natural no espectador, pois são eles que fomentam a narrativa, que fazem despertar o desejo de vitória no protagonista.
Outro vilão do cinema que destaquei na imagem foi Hannibal Lecter de O silêncio dos Inocentes. Um vilão pra ninguém botar defeito.
Sinceramente acredito que por trás de toda essa admiração pelo lado negro da força há uma espécie de complexo de inferioridade. É como se nos identificássemos com a superioridade de fazer maldade, com a maledicência alheia.
Outra situação que gostaria de mencionar é que os séculos XX e XXI podem ser considerados também como os séculos sangrentos e a era dos extremos, acredito piamente que o modo como nos comportamos representam um fator preponderante para nossas ações e consequentemente gostar dos vilões.
Assassinatos em massa, grandes crimes e escândalos, desastres, tragédias naturais, avanços tecnológicos e instauração da era digital, expressivos movimentos de contracultura, consolidação do capitalismo, diferenças ideológicas, guerras e notáveis eventos são alguns acontecimentos que permearam a trajetória do homem até aqui. Testemunhamos o mundo virar de cabeça pra baixo, num intenso processo de drásticas transformações.
A partir desse momento banalizamos a privacidade e exaltamos o individualismo, o que configura na minha humilde opinião outro fator crucial para defendermos a maledicência. O individualismo é realmente uma mácula que corrói a sociedade, onde todos ou quase todos são vistos como meu inimigo.
A ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos – Rodolfo Viana.
Ou seja, se o herói é a certeza, o vilão é a dúvida. É aí o ponto-chave da identificação. O romantismo foi estraçalhado sem dó nem piedade e agora o que está em pauta é o relativismo entre bem e mal. Tudo com cinismo e com uma dose cavalar de falta de vergonha na cara o mal se tornou uma chaga adaptável em tempos pós-modernos.
Falei um pouco dos vilões do cinema, agora será das telenovelas.
Na imagem acima temos as fotos de Odete Roitman e Nazaré Tedesco, interpretadas por Beatriz Segall e Renata Sorrah respectivamente.
Sendo bem sincero, como você está acostumado a ler meus textos, não vou ficar aqui tecendo elogios ou impropérios em relação à produção televisiva, mas tecer comentários pertinentes da novela em si.
Acredito que a telenovela é um produto antropológico, e se você não concordar comigo vou respeitar sua opinião.
E porque estou dizendo isso?
Porque de acordo com o que percebo, ela, a telenovela é capaz de moldar mesmo que sejam por um curto ou longo período de tempo algumas diretrizes de uma sociedade.
Até hoje Beatriz Segall é lembrada pela icônica vilã que interpretou.
Renata Sorrah também, que deu vida a desequilibrada Nazaré Tedesco.
Vale Tudo que foi ao ar originalmente em 1988 foi uma telenovela política, na qual tive o prazer de assistir em 2011 no canal por assinatura Viva. E no final saber quem matou Odete Roitman.
A telenovela tem uma vantagem que sua história se arrasta por meses a fio, o que possibilita uma identificação ainda maior com o público.
E por ter essa capacidade de identificação, ela molda de certa forma alguns hábitos e costumes como, por exemplo, no modo de falar, de se vestir, no modo de agir. Até a taxa de natalidade é influenciada pelo material televisivo, de certa forma.
Pode observar que hoje na sociedade os casais quase não têm mais filhos, ou se tem têm somente um e olhe lá. Isso de certa forma é influenciado pela telenovela.
Alguns hábitos como, por exemplo, fumar e beber, caíram em descrédito nas produções. Antigamente era muito fácil ver algum personagem fumando ou bebendo. Hoje já é mais difícil.
Desequilibrada, louca e muito perigosa... Nazaré Tedesco também foi uma personagem que arrancou raiva e também gargalhadas na novela Senhora do Destino de 2004.
Era uma personagem que tinha muito bom humor.
E por falar em bom humor o que percebo também é uma humanização dos vilões, o que faz com que a identificação seja ainda maior. Técnica hoje muito utilizada, muito mesmo. O que é muito perigoso, pois transforma a maldade num parque de diversões e a coloca no senso comum.
Então para não me alongar ainda mais com essa postagem, encerro por aqui, com a conclusão de que a vilania pode até exercer fascínio em tempos cada vez mais sombrios, mas cabe a cada um de nós desenvolvermos o antídoto capaz de neutralizar o mal que insiste em nos persuadir.
Até a próxima.


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