A BUSCA POR UMA VIDA SIMBÓLICA
Muito bem nobre leitor deste simples, não simplório, blog de filosofia, espiritualidade e psicologia profunda desta imensidão chamada internet.
Hoje é nossa última postagem do ano, em dezembro estarei em férias.
E o nosso assunto de hoje será sobre: a busca por uma vida simbólica. E por falar em busca, nossa vida é uma busca constante por tantas situações não é verdade? Buscamos tantas coisas em nossas humildes vidas. Muitas mesmo.
Mais do que simplesmente almejar, nossa vida é uma corrida contra o tempo por muitas situações, uma busca incessante, uma corrida frenética...
Até mesmo às vezes nem sabemos o que estamos buscando.
Um belo dia aqui em casa fui reler um livro maravilhoso do analista junguiano Edward Edinger chamado Ego e Arquétipo e um dos capítulos aborda exatamente sobre o ponto de hoje: vida simbólica.
Sabe quando você lê uma obra e depois é que você presta atenção nos pormenores? Pois esse livro trata exatamente sobre o Ego e a sua relação com o Si-mesmo(Self), uma obra ímpar.
Eu vou indicar esse livro na série Psicologia para Leigos, em breve.
Mas enquanto não indico o Edinger, um dos maiores analistas junguianos do mundo, ao lado da professora Verena Kast, James Hillman, John Sanford e Marie Von Franz.
E não se preocupe, vou deixar como referência bibliográfica no final.
Vamos adentrar o nosso assunto de hoje. O que vem a ser vida simbólica?
Quando fui procurar a leitura desta riquíssima obra, estava um tanto quanto borocoxô, para não dizer triste. Estava à procura de algo que me animasse, que levantasse meu astral...
Que através da minha consciência pudesse me mostrar algo diferente e que eu pudesse compreender melhor as minhas dificuldades.
Encontra-se exatamente na segunda parte (a individuação como modo de existência), no capítulo 4, no terceiro ponto: A VIDA SIMBÓLICA.
Esse capítulo 4 da segunda parte é sensacional, aliás, o livro todo é maravilhoso. Fala-nos sobre diferença entre signo e símbolo, a função do símbolo... Dentre outras coisas.
A diferença entre signo e símbolo de forma bem rápida é bem simples: o signo é uma unidade de significado que representa uma entidade conhecida. Portanto, a nossa língua é um sistema de signos e não de símbolos.
O símbolo é uma imagem ou representação que indica algo desconhecido, é um mistério.
O signo veicula um significado abstrato e objetivo. É morto.
O símbolo veicula um significado vivo e subjetivo. É vivo!
Resumindo: os símbolos são um produto espontâneo da psique arquetípica. Não é possível fabricar um símbolo, só é possível descobri-lo.
Os símbolos têm a capacidade de penetrar no ego e a relação que mantêm com ele é extremamente importante, são três as relações que podem manter com ele:
1 – O ego pode identificar-se com o símbolo.
2 – O ego pode estar alienado do símbolo – o símbolo será reduzido a signo.
3 – O desejável. O ego embora separado da psique arquetípica, é receptivo aos efeitos das imagens simbólicas.
Essas diferentes formas de relação entre o ego e o símbolo dão origem a duas possíveis falácias: concretista e redutivista.
Na falácia concretista está a ação dos religiosos que compreendem erroneamente as imagens simbólicas religiosas, acreditam ser fatos concretos em termos literais, para dar um exemplo.
É importante mencionar que os símbolos só têm efeito válido e legítimo quando servem para modificar nosso estado psíquico ou nosso estado consciente.
Seus efeitos são ilegítimos quando aplicados de forma mágica à realidade física.
A falácia redutivista comete o erro oposto.
Nessa concepção não há símbolos verdadeiros, ou seja, símbolos capazes de traduzir um verdadeiro mistério, nenhum elemento essencial desconhecido que transcenda a capacidade de compreensão do ego.
O simbolismo religioso não passa de sinal de ignorância e superstição primitiva.
Deu pra perceber o que desejo mostrar?
O cerne do conflito contemporâneo entre a visão religiosa tradicional do homem e a chamada visão científica moderna. E como esse é um conflito coletivo, todos nós carregamos um pouco desse conflito dentro de nós.
Na página 138/139 da minha edição de Ego e Arquétipo, 2ª edição de 2020 da Editora Cultrix, tem um longo depoimento de Carl Gustav Jung sobre esse assunto, bem pertinente.
Tudo que estou a falar aqui resume num ponto culminante: o objetivo básico da psicoterapia junguiana é tornar consciente o processo simbólico.
O que devemos notar é a percepção de observar como se comporta um símbolo quando é inconsciente, por isso essa prosa toda com você caro leitor.
Porque um símbolo inconsciente é vivido, mas não é percebido.
Você tem noção do que isso significa?
Que devemos entender nosso ego não com o objetivo de viver concretamente o símbolo ou psique arquetípica, mas procurar entender de modo consciente sua representação simbólica.
Lembra quando disse no início que estava triste antes de ler?
Fiquei imensamente feliz depois de ter visualizado sobre esse assunto na obra de Edward Edinger, porque inconscientemente nós até podemos saber como nos comportar, mas só podemos agir da maneira correta quando nos identificarmos adequadamente com o simbólico ou com nossa psique arquetípica.
Isso é o que é verdadeiramente a busca por uma vida simbólica.
Na psicanálise, por exemplo, em Freud nós temos a figura do Id. E o que é o Id? O Id a meu ver é uma caricatura do espírito humano. É o inconsciente considerado instintivo.
A psicologia freudiana reduz e muito as imagens simbólicas, agora coloco a minha crítica, os psiquiatras não negam que as necessidades instintivas sejam vivas e efetivas, mas negam a vida, pois passam a negar a realidade das imagens simbólicas em si.
Salvos raras exceções, claro.
Essa atitude, principalmente dos psiquiatras de enxergar que a psique inconsciente é movida pelos instintos é no fundo no fundo antiespiritual, anticultural e destruidora da vida simbólica.
Enquanto for sustentada será impossível cultivar uma vida interior significativa.
A ausência de simbolismo sobrecarrega a esfera do instinto. É isso.
Por isso que nesse sentido é importante salientar que, ao tratar dos sintomas dentro principalmente das psicopatologias é necessário enxergar que todo sintoma deriva da origem de alguma ação arquetípica.
Muitos sintomas de decepção e ressentimento derivam, por exemplo, do diálogo de Jó com Deus. Por isso que nosso diálogo hoje requer uma dose de atenção extrema.
A busca por uma vida simbólica é a busca pelo sentido da existência.
Quando passamos a enxergar o arquétipo, de ver a imagem simbólica oculta no sintoma podemos transformar a experiência, que pode ser tão dolorosa quanto, mas que agora tem sentido.
A busca por um simbolismo na existência é crucial se quisermos vivenciá-la de forma coerente e honesta. Passaremos por uma evolução na consciência humana, que começou no pântano, mas terminará em algum lugar que não sabemos.
É por isso que o Santo Evangelho é tão importante.
Não só Ele, mas os mitos, os contos de fadas e outras tantas situações que nos remontam aos nossos antepassados, a quem de fato somos.
Eu citei o Evangelho porque ele é a representação máxima simbólica que se encontra encrustada na nossa psique arquetípica ou simbólica como estou a chamar.
Ao lermos cada passagem dos textos sagrados não é à toa que nos sentimos invadidos por um sentimento de êxtase, de amor, às vezes de melancolia e raiva, mas jamais sairemos ilesos ao ler tais textos.
Enquanto estivermos inconscientes da dimensão simbólica da existência, experimentaremos as situações da vida como sintomas. Os sintomas são símbolos degradados pela falácia redutivista do ego.
Por isso que para arrematar: a busca por uma vida simbólica diz respeito a trazer à tona um significado para o sintoma, ou seja, discernir um sentido para a nossa existência.
Então é a descoberta da vida simbólica que nos liberta de uma vida banal e sufocante. Que não passa de uma sucessão de sintomas desprovidos de sentido.
A vida simbólica é um pré-requisito da saúde psíquica.
Sem ela o ego fica alienado, os sonhos tentam a todo custo curar o ego, através da veiculação de algum sentido para sua origem.
Então voltando a falar sobre mim, quando li os textos de Edinger me senti aliviado, pois pude perceber que a busca por uma vida simbólica é maravilhosa.
E isso não significa que será fácil.
Muito pelo contrário, pode até ser mais difícil, mas o mais importante é que será cheia de sentido, de significado. Acredito que a falta de sentido a nossa existência é o grande mal deste século.
E continuemos a buscar por uma vida com sentido, uma vida simbólica.
Até o ano que vem, se Deus quiser.
OBS.: É IMPORTANTE DESTACAR QUE NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E MUITO MENOS PSIQUIATRA. AS OBSERVAÇÕES QUE FAÇO EM RELAÇÃO À PSICOLOGIA PROFUNDA SÃO DE MINHA INTEIRA RESPONSABILIDADE, SOU AUTODIDATA NO ASSUNTO. É MUITO IMPORTANTE DIZER ISSO. SEMPRE PROCURANDO APRENDER.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
Autor: Edward F. Edinger
Editora: Pensamento (Selo – Cultrix)
Ano: 2020
Edição: 2ª
Páginas: 344








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