SOBRE FEMINICÍDIO, O FEMININO E A ANIMA – PERCEPÇÕES NA PSICOLOGIA PROFUNDA
Olá,
muito bom dia nobre leitor desta plataforma.
Hoje
iremos tratar de assuntos espinhosos: feminicídio e o lidar com a anima dentro
de cada um de nós. Faz tempo que desejava trabalhar com essa temática de
fundamental importância para todos nós.
Você
que já deve me acompanhar aqui no blog já deve tem em mente sobre algumas
especificidades da psicologia analítica como por exemplo: arquétipo.
Anima
e animus são arquétipos dentro da perspectiva da psi profunda. São
respectivamente o lado feminino e masculino que residem dentro do homem e da
mulher.
São
dimensões feminina e masculina da alma, mais precisamente as disposições
psicológicas do homem e da mulher. A anima é a mestra pelas más disposições no
homem e o animus na mulher, mas não só isso, cabe destacar.
Hoje
teremos no texto de hoje, percepções sobre a anima em relação às dificuldades
enfrentadas pelos homens no que diz respeito a prática do feminicídio, uma
mácula que mancha de forma irreparável a nossa sociedade como um todo.
E
o que o arquétipo anima tem com essa prática nefasta?
Tudo.
Vamos
a alguns esclarecimentos importantes primeiro sobre feminicídio, algo realmente
cruel e terrível que monta um verdadeiro cancro no seio do nosso meio em que vivemos.
Feminicídio
é o assassinato de uma mulher resultante de violência doméstica ou
discriminação de gênero. Em 2015, foi sancionada, no Brasil, a Lei do
Feminicídio.
Trata-se
da Lei nº 13.104/15, que altera o Código Penal brasileiro instituindo um novo
agravante específico de homicídio: o feminicídio, que é, basicamente, o
homicídio ocorrido contra uma mulher em decorrência de discriminação de gênero,
ou seja, por sua condição social de mulher, podendo também ser motivado ou
concomitante com violência doméstica.
A
violência contra a mulher, que nos casos mais graves acarreta o feminicídio, é
preocupante no Brasil. Dados levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) apontam que, a cada uma hora e meia, um feminicídio foi
cometido em território brasileiro, entre os anos de 2007 e 2011, logo após a
sanção da Lei 11.340/06, mais conhecida como Lei Maria da Penha, que visa a
coibir a violência doméstica cometida contra mulheres.
Por
isso, a necessidade de tratar o feminicídio com maior rigidez ainda existe hoje
em dia, justificando a implementação da lei.
Acredito
que essa prática está atrelada ao fato do papel da mulher, dela ser tratada não
como sujeito, mas como objeto. Essa noção, junto com a impunidade, resulta em
diversos crimes de natureza violenta e sexual contra as mulheres.
A
ideia misógina de que o homem é portador da liberdade social e sexual da mulher
ou a prática explícita da misoginia (ódio e discriminação contra a mulher e ao
que remete ao feminino), quando acompanhados de homicídio, podem ser
enquadrados no agravante feminicídio.
Algo
que também está ligado ao patriarcado, de forma bem intensa.
A
base da sociedade é justamente essa, a patriarcal, então uma coisa vai puxando
a outra. É como se fosse puxando o fio da meada, quanto mais se puxa, mais vai
aparecendo situações vexatórias.
Hoje
vou tomar por base a excelente obra de John Sanford: Os parceiros invisíveis. Que fala de forma explícita sobre o
arquétipo trabalhado no texto de hoje: a anima. E outras obras também, como a
do James Hollis por exemplo, mas essa será a fonte principal.
Outro
livro também muito bom é O Segredo da Flor de Ouro de Richard Wilhelm e do
próprio Jung, Richard é um sinólogo e trata de forma sutil e delicada sobre as
diversas facetas também desses arquétipos.
Mas
vou me ater especificamente no livro do John Sanford.
Uma
das grandes questões dos meus textos é de ser voltado não só aos estudiosos da
psi analítica, mas principalmente ao público leigo, que assim como eu tem
interesse nessa abordagem.
Todos
nós somos complexados, isso é uma constatação. Aprendi com a professora Verena Kast, professora da Universidade de Zurich, no seu excelente livro sobre introdução à psi analítica pelo grupo editorial pensamento.
E
dependendo de como tratamos esse complexo é o que vai determinar como
trabalharemos nossas vidas no decorrer da jornada.
No
caso da anima a chave está no relacionamento.
Nós
homens que não sabemos lidar bem com um relacionamento afetivo, evitamos
conversas profundas e discussões que levem a um melhor aprimoramento do nosso
eu interior tendemos a ser dominados pelo complexo da Mãe.
Comportamo-nos
como meninos mimados e evitamos o confronto.
Tendemos
a ser garotos mimados e reizinhos mandões dentro da perspectiva da afetividade.
Quando nós homens passamos a ter uma relação direta e dizer o que
verdadeiramente nos aborrece ou entristece aí sim, passamos a compreender
melhor quem somos e a dominar de alguma maneira as rédeas da nossa vida.
A
grande questão é que ao percebermos um avanço não só do progresso
antropológico, mas histórico do papel da mulher na sociedade, nós acabamos por
desenvolver um outro complexo: o de inferioridade.
O
homem diante dessa questão se sente inferiorizado diante de uma categoria que
ele, nós, nos sentimos deixados para trás que ocupamos essa posição por
milênios.
E
qual é a alternativa que o homem encontra? A agressão física.
Diante
de estudos antropológicos, o homem pratica feminicídio porque se sente
desafiado, inferiorizado e até mesmo desautorizado pela postura adotada pela
mulher.
A
relação entre complexo de inferioridade e a sua anima é o que definem de forma
crucial a relação que mantém com a mulher, a negação da anima é determinante,
reitero.
O
Complexo de Inferioridade foi um termo cunhado pelo médico e psicólogo Alfred
Adler. Segundo Adler, todos têm um sentimento de inferioridade e que não
necessariamente esse sentimento de inferioridade é negativo.
De
acordo com Adler, sempre que vemos pessoas com temperamentos e paixões fortes,
sempre podemos concluir que são pessoas com um grande sentimento de
inferioridade. Uma pessoa que sabe que pode superar suas dificuldades não serão
impacientes.
Pessoas,
por exemplo, arrogantes e impertinentes também indicam um grande sentimento de
inferioridade (ADLER, 1930, p. 72).
O
afastamento da anima pode revelar grandes questões negativas ao homem.
Impulsividade, raiva e desânimo são algumas das características nefastas
decorrentes desse afastamento.
Manter
a anima fora de ação tem uma relação importante com os atos de violência e
agressões do homem contra a mulher. Pode começar pela raiva e, depois,
espancamentos.
Consequentemente,
o feminicídio é o provável próximo passo. Isso pode ser explicado por conta de
existir um padrão de escalada e evolução dessa violência contra a mulher nos
crimes de feminicídio.
Nós
homens infelizmente temos muita dificuldade de lidar com o feminino, muita
mesmo. É como se não tolerássemos como dito no início, o progresso da mulher na
sociedade, o papel que ela tem direito, que a ela foi negado por milênios.
Nós
homens temos muitas feridas e medos, o que facilita o apartamento da nossa
anima. O nosso querido analista junguiano James Hollis disse certa feita: Os homens “associam sua vida de
sentimentos, seus instintos, sua capacidade de sentir ternura e carinho, à
natureza culturalmente definida da mulher e por conseguinte se afastam. Isto
também os afasta da própria anima”
Nós
não nos damos conta que apesar de termos uma severa dificuldade em lidar com o
feminino, não percebemos que temos o feminino dentro de nós.
A
maior tragédia de nós homens é perceber mais adiante que esse medo em lidar com
o feminino nos aparta do nosso próprio lado psíquico feminino.
E
a consequência disso é o trágico: o feminicídio.
James
Hollis continua: os
homens precisam se darem conta que estão traumatizados (o que dão origem aos
complexos) e cruelmente feridos. A inconsciência do trauma faz com que nós
possamos ferir tanto a nós mesmos como as mulheres.
Agora
também não posso ser tão cruel com nós mesmos.
Sobre
nós homens recaem uma forte opressão na sociedade: status, poder e tomada de
decisões. Isso tudo impele uma forte carga emocional diante das vicissitudes da
vida.
E
como esse imbróglio pode ser resolvido? Com a tomada de consciência.
Respeitar
a escuridão do outro é o melhor para caminho para iluminar pouco a pouco a sua
– Randerson Figueiredo.
Essa
violência que atinge níveis estratosféricos em todos os contextos sociais
revela-se de modo puramente agressiva principalmente nas mulheres e crianças.
O
que fere também pode destruir.
Todo
tormento coletivo começa a partir de um prazer individual – Randerson
Figueiredo
Agora
leitor lembrei dos assassinos em série, quase todos eles sofreram abusos
verbais e físicos na infância.
Quando
violamos a alma de um homem, uma parte dele se torna violenta – James Hollis
Os
homens precisam reconhecer sua raiva, raiva esta que se acumulou atingindo o
nível da ira e para muitos homens, essa ira pode se voltar contra as mulheres e
até crianças.
Nesse
caso o complexo de inferioridade se contrapõe ao domínio da vontade atacando a
personalidade consciente. Deu para perceber que a tomada de consciência é o
melhor caminho? Quando passamos a conversar com nosso eu interior.
Tornando-os
conscientes, podemos reduzir o impacto e a influência deles na nossa vida. Como
consequência, novas ações e comportamentos mais conscientes poderão surgir.
Segundo
Adler, a autoconfiança é o melhor caminho para tratarmos o complexo de
inferioridade, dessa maneira podemos compreender que somos capazes de enfrentar
e resolver problemas.
Ao
aceitar e respeitar o feminino dentro de si e nas mulheres de sua vida, o homem
poderá ter uma resposta emocional mais estruturada. Essa é uma das conclusões
que desejava chegar no texto de hoje.
Outro
ponto importante já para finalizar o texto de hoje é mencionar que...
O
maior medo do homem é não ser aquilo que o patriarcado exige que ele seja –
James Hollis
Desenvolver
um grau de consciência maior é permitir que essas questões que afligem a nossa
alma, alma do homem possam ser sanadas da melhor forma possível.
O
primeiro passo é impedir que esse gatilho, da violência do homem contra a
mulher seja acionado, gerando o feminicídio, abordagem trabalhada no texto de
hoje.
Outro
ponto também é que devemos trazer esses medos e material inconsciente para o
consciente.
E
de que forma essa conquista pode ser estabelecida?
Acredito
que a terapia é o melhor escopo, quando comecei a minha terapia há mais de 10
anos pude perceber que houve uma melhora significativa em relação aos meus
medos, traumas e complexos.
Quando
você estabelece uma linha de confiança com o terapeuta começa a partir daí uma
grande jornada rumo ao desconhecido, mas que pode se tornar conhecido, ou seja,
partir do inconsciente para o consciente.
No
nosso caso, homens, com a terapia não seremos marginalizado e nem humilhados
diante de diversas questões que nos atormentam, e passamos a enxergar o que
pode ser revelado face a uma vida mais ampla e cheia de significados.
Uma
das metas desse processo terapêutico é justamente buscar um processo de lidar
não só com o que foi mencionado acima, mas saber lidar com o feminino tão
vilipendiado por nós, ajudar nós que estamos feridos e estabelecer uma relação
equânime com nossa anima.
E,
principalmente, para que nós homens possamos conseguir ser mais acolhedores,
conectados e próximos das mulheres que fazem parte das nossas vidas.
Que
possamos sempre buscar o amor, sincero, cordial e sem amarras. Um amor que não
usa da violência para tecer suas conjecturas. Um amor que não faz uso do poder.
Para
finalizar como bem disse o mestre Jung: “Onde
impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí
falta o amor” (JUNG)
Com
esse pensamento de Carl Gustav Jung encerro as nossas percepções de hoje, sobre
feminicídio, feminino e anima. Espero que tenha gostado e até a próxima.
É
IMPORTANTE SALIENTAR QUE NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E NEM PSIQUIATRA.
ESTUDO A PSICOLOGIA PROFUNDA HÁ MUITOS ANOS, HÁ MAIS DE 10 ANOS DE FORMA
AUTODIDATA, MAS SEMPRE SUPERVISIONADO POR AMIGOS DA ÁREA PSI.
Agradeço
a participação e oportunidade de escrever mais um texto aqui nesta plataforma
que tenho tanto carinho.
Os
meus sinceros agradecimentos.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
HOLLIS, James. Sob a sombra
de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo: Paulus, 1997.
JUNG, Carl G. A natureza da
Psique. A Dinâmica do Inconsciente. 10ª edição. Petrópolis: Rio de Janeiro,
Vozes, 2019a.
______. Psicologia do
Inconsciente. 2ª edição. Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 1980.
SANFORD, John A. Os
parceiros invisíveis. São Paulo: Paulus, 1987.






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