PECADO E MEDO – A SOMBRA COLETIVA DA CRISTANDADE OCIDENTAL
Olá caro leitor deste blog.
Hoje o assunto será sobre “pecado e medo - a sombra coletiva da cristandade ocidental”. Antes de mais nada quero aqui dizer que tomarei como base o livro do historiador francês Jean Delumeau: “Pecado e medo”.
O livro aborda uma importante pesquisa histórica sobre a questão do pecado e do medo numa perspectiva bastante interessante, pois o autor aprofunda o tema.
Eu, obviamente, não poderia deixar de trazer a você, leitor do Saber Jung algumas conclusões que tirei a respeito dessa pesquisa, “puxando brasa pra minha sardinha” em relação a psicologia analítica.
Um dos maiores medos que até hoje se arregimentam no que diz respeito a cristandade ocidental é o pecado. Não há algo tão aterrador quanto julgar a si mesmo como um pecador.
Esse será o meu gatilho para desenvolver esse texto.
O jesuíta francês Bourdaloue escrevera no século XVII: “Não é de forma alguma um paradoxo, mas uma verdade certeira, que não temos maior inimigo a temer do que nós mesmos.
Como isso é possível? Eu sou mais… temível para mim do que todo o resto do mundo, já que só cabe a mim aniquilar a minha alma e excluí-la do reino de Deus”.
Essa afirmação refletia antigamente a opinião geral dos diretores espirituais da cristandade.
O mais interessante dessa obra de Delumeau é que ele não trata a questão com o intuito de ser um inquisidor, mas de mostrar os fatos concretos, o que realmente aconteceu.
E o autor consegue fazer isso com uma precisão cirúrgica.
Até mesmo porque ele trata do funcionamento e da difusão de um discurso culpabilizador, ou seja, ele vai mais para o plano da constatação do que do julgamento.
Nunca uma civilização concedeu tanto peso à culpa e valor ao arrependimento do que o cristianismo nos séculos XVIII-XIX.
Deus é sobretudo bom ou sobretudo justo? Uma civilização inteira se perguntou incansavelmente durante séculos sobre essa questão.
Freud e Jung que se opuseram, estavam de comum acordo em relação ao pecado. O lugar que todo estudo das sociedades deveria concede-lo.
Freud apresentava o problema do sentimento de culpa como problematização da civilização.
Jung a meu ver foi mais profundo, vejamos...
É o cristianismo que criou os termos peccator e peccatrix, que não existiam no latim clássico. Só que, “nada é mais claro”, escrevia Jung, “para provocar a consciência e o despertar do que um desacordo consigo mesmo”.
O homem cristão, intenso submisso a culpabilização teve que se reordenar constantemente, seja através da sua memória, seja através da prática da confissão.
A prática da confissão faz o crente ser liberto do peso da culpa que tanto o afligia. E que o perdão traz de volta alegria e liberdade. É como se nascesse uma nova pessoa.
É importante salientar que nem todo sentimento de culpa é mórbido.
Mas também é importante dizer que a culpa se tornou um excesso vicioso na sociedade ocidental.
O discurso religioso sobre o pecado no Ocidente cristão se desenvolveu, é verdade, a partir dos textos bíblicos. Mas ele funcionou mais ainda a partir de uma definição de Santo Agostinho cheia de implicações legalistas e jurídicas: “O pecado é toda ação, palavra ou cobiça contra a lei eterna”.
São Tomás de Aquino aprova e endossa o enunciado de Santo Agostinho, mas mostra que essa fórmula inclui também os erros por omissão, pois “é sempre para juntar dinheiro que o avarento… não paga suas dívidas”.
Sem contar com a questão do inferno e purgatório que fez meio mundo de gente perecer só em falar de tais situações.
E o que falar do pequeno número de eleitos que muitos teólogos católicos e protestantes falaram até certo tempo atrás?
São Boaventura escrevera: “Todos pertencendo à massa de condenação eterna deviam ser condenados. Há então mais reprovados do que eleitos para que seja manifesto que a salvação vem de uma graça especial, enquanto que a condenação eterna resulta da justiça ordinária”.
O jesuíta São Roberto Bellarmin (fim do XVI-começo do XVII), retomando uma comparação de São Jerônimo, afirmava: “O número dos reprovados será semelhante à quantidade de azeitonas que caem por terra quando se balança a oliveira; e o pequeno número dos eleitos será comparado a algumas azeitonas que tendo escorregado das mãos dos que sacudiram a árvore, ficaram no cimo dos galhos e serão retiradas à parte”.
No início do século XVIII, o pregador São Luis Grignion de Montfort assegurava quanto ao tema do pequeno número dos eleitos: “Ele é tão reduzido, tão reduzido, que, se nós o conhecêssemos, nós desfaleceríamos de dor. Ele é tão pequeno, que apenas, dentre dez mil, existe um, como foi revelado a vários santos”.
Nos séculos passados Deus era tido mais como um ser perverso e sádico do que misericordioso. Ele refletia sem parar sobre o rigor dos julgamentos, sobre o horror da morte, sobre a fúria dos condenados e as penas inconcebíveis das almas que estão nas chamas do purgatório.
Portanto diante de tudo o que foi dito aqui, o pecado e o medo formaram sim a simbiose da sombra coletiva da cristandade ocidental, durante muitos séculos a Igreja dominou pelo temor, pelo medo, pela culpa. E ainda domina, só que de forma mais suave.
Através de um Deus 2.0 que se comunica em bytes e não em orações e formas religiosas, principalmente através das redes sociais, onde as informações se espalham como rastilho de pólvora.
Surgem inúmeras perguntas eu sei depois de um texto como esse. Eu mesmo, como católico que sou, me fiz muitas...
Mas se quiser aprofundar sobre esse assunto, adquira este livro, acredito que vai gostar. É incrível como mal falamos no bem, falou-se muito no mal.
Que como diz a música do Raul Seixas, O Trem das 7: “vem de braços e abraços com o bem num romance astral”.
Até a próxima.
Indicação de leitura e referência bibliográfica










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