SOB OS CUIDADOS DE UMA PSICANÁLISE INFANTIL – CUIDAR NÃO É EDUCAR, OBRA DE JULIO CESAR WALZ | RESENHA

dezembro 05, 2025 Randerson Figueiredo 0 Comments

A temática que me traz hoje aqui na nossa plataforma Jung para Leigos é tecer alguns comentários sobre a obra CUIDAR NÃO É EDUCAR do professor de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): Júlio Walz.

 

Eu e professor Júlio nos conhecemos de uma forma bem interessante quando ainda nem tinha esta plataforma sobre diversos assuntos, principalmente sobre Jung.

 

Eu era administrador da plataforma Pistas da História, um blog que nem existe mais devido à alta demanda em pesquisa e direcionamento que ficava sob minha custódia.

 

O blog inclusive foi premiado pelo selo Top Blog, como um dos mais prestigiados blogs de história da internet à época, isso lá pelos idos de 2010, pois muito bem, certa feita realizei uma pesquisa sobre Judas Iscariotes e o sentimento de culpa, uma flechada histórica e psicanalítica surgiram naquelas linhas traçadas por mim naquele momento.

 

Pois muito bem, o texto foi devidamente escrito, quando menos espero recebo um correio eletrônico e é ninguém mais ninguém menos que o professor Walz a escrever em conjunto com seu parceiro de pesquisa Professor Doutor Paulo Sérgio Rosa Guedes.

 

Fiquei muito feliz, o texto sobre a traição de um dos discípulos de Jesus numa mescla com tom psicanalítico havia deveras chegado num bom contexto e nas palavras do próprio Julio, havia ficado bastante satisfeito com as analogias empregadas por mim.

 

Professor Julio Walz e o professor Paulo Sérgio Rosa Guedes quando do lançamento da obra O Sentimento de Culpa, edição própria, foram entrevistados por ninguém mais ninguém menos que Jô Soares no concorrido e famoso Programa do Jô.

 

Eu estava assistindo ao programa e no dia seguinte tratei de adquirir a obra e traçar os paralelos e meridianos que só a escrita pode ofertar como mencionei nas linhas anteriores.

 

E deste período pra cá passei a estreitar laços com o professor Júlio nas diversas redes sociais, um senhor muito distinto e com ideias e debates bem coerentes de acordo com sua expertise pode revelar.

 

Hoje cá estou para dialogarmos a respeito de sua mais nova obra: CUIDAR NÃO É EDUCAR, também edição do autor, a minha é a primeira. E ainda com registro de autógrafo, com desejo que eu tenha bons momentos nas páginas que se seguirão.

 

A partir de agora, as linhas que irei tecer de agora em diante cobrirão argumentos sobre a obra do professor Walz, uma obra que adianto desde já consistente e fundamentada na pedra angular da psicanálise.

 

Sendo bem sincero, psicanálise nunca foi minha praia, e principalmente na abordagem no que diz respeito à infância. Tentarei segundo minhas pesquisas em psicologia profunda ou junguiana, pesquiso desde 2009 essa abordagem, então é um pouco mais a minha vibe, a minha praia por assim dizer.

 

A meu ver a síntese da obra do professor Júlio Walz é a máxima: se você não tiver uma boa infância, consequentemente não terá uma boa idade adulta.

 

Seremos adultos frustrados, cheios de culpa, remorso, ressentimentos e rancor. Um adulto que tenderá a podar todos os galhos de florescimento da criança. Muitas vezes da sua criança interior.

 

Irá procurar educar e não cuidar.

 

Puxando nosso diálogo para a filosofia, se pegarmos o mito platônico do homem original, o homem original era redondo e tinha o formato de uma mandala, na obra O Banquete de Platão ele afirma que o homem agia no seu estado inflado, no estado de inflação do EGO.

 

Ser redondo no período inicial na existência equivale a ser um Deus.

 

Há um estudo de Rhoda Kellog sobre o homem original e sobre a arte na pré-escola. Ela observou que a mandala ou o círculo era a imagem predominante em crianças que estão aprendendo a desenhar.

 

Quando a criança tenta desenhar figuras humanas, estas surgem como círculos. Estes estudos sugerem que de acordo com a sua natureza empírica, a criança experimenta o ser humano como uma estrutura redonda, semelhante à mandala.

 

Os terapeutas também descobriram que a mandala funciona como cura para as criancinhas.

 

O professor Júlio na sua obra aborda alguns questionamentos essenciais e muito importantes, um deles é de que algumas pessoas lidam com crianças e simplesmente não gostam de crianças.

 

Não é possível estabelecer a partir daí uma identificação com a mesma.

A ideia arquetípica que abordo aqui é que há uma aproximação contundente entre infância e estado divino, ou seja, o estreito vínculo entre o Ego da criança e a divindade constitui um estado de inflação.

 

Até onde sei, o Freud descreveu o estágio da infância como um quadro de perversão polimorfa. O nosso amigo Freud pegava pesado, mas apesar de uma descrição brutal não deixa de ser verdade.

 

A infância é inocente, mas é também irresponsável.

 

Aí vem outro ponto dentro da psicologia analítica que desejo relacionar com o livro CUIDAR NÃO É EDUCAR do professor Walz, sobre a educação dos nossos infantes.

 

O principal tema do livro diga-se de passagem.

 

A criança tem naturalmente uma experiência de ser o centro do universo, mas até que ponto podemos manter a integridade do eixo Ego-Si-mesmo e dissolver essa identificação do eixo Ego-Si-mesmo?

 

É como diz aquela música: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

 

Vem sempre em mente as disputas entre indulgência e disciplina rigorosa no âmbito da educação infantil. A meu ver não há escolha entre essas duas formas, são os famosos pares de opostos e devem operar em conjunto.

 

Sobre essa questão de ser o centro do universo, a mãe normalmente encoraja tal situação, tendemos a pensar que seus desejos constituem uma ordem universal que deve ser acatada a todo custo.

 

Eu posso dizer uma coisa: é necessário que seja assim.

 

Se a demanda mãe-filho não for atendida, a criança não se desenvolve psicologicamente. Isso o professor Júlio explica de forma mais bem desenvolvida na sua obra.

 

Depois desse processo de inflação vem a alienação do ego, que consiste em se deparar com a dura realidade de que a criança não é esse Deus do panteão grego.

 

O eixo ego-Si-mesmo é duramente danificado. É nesse momento quando a criança é expulsa do paraíso, como bem citou Melanie Klein: quando se come do fruto do conhecimento é sempre expulso de algum paraíso.

 

O mundo passa a confrontar o ego, e é nesse momento que o ego cresce e se separa da sua identidade inconsciente com o Si-mesmo. Agora sendo bem sincero, se uma ruptura violenta acontecer e romper o vínculo vital que liga o eixo ego-Si-mesmo estaremos alienados do nosso próprio íntimo.

 

Aí o terreno estará adubado para o surgimento de enfermidades de caráter psicológico. Acredito que é essa a mensagem que o professor Júlio Walz deseja passar no que concerne a cuidar de uma criança ao invés de educa-la.

 

O educar está ligado a conceitos rígidos, morais e bem duros.

 

O educar segundo o que a obra deseja passar, isso sob minha ótica, diz respeito a uma identificação unilateral com o Si-mesmo, pois muitas psicoses ilustram a criança se achar o centro do universo numa íntima relação de identificação do ego ao Si-mesmo.

 

O cuidar é o oposto disso, pois tenta manter o equilíbrio da dança de opostos. Não ser coberto pela sombra do puer aeternus, é uma das imagens do Si-mesmo, mas estar identificado com ele significa não deixar nascer a realidade.

 

Educar pressupõe orgulho, prepotência e onipotência. Sintomas de todo tipo, negativos, diga-se de passagem, explosões de ira, de vingança e poder são exemplos de estados inflados.

 

O educar está intimamente ligado a rigidez e onipotência, o que lembra Deus, pois onipotência está ligado à divindade, ou seja, o educar em poucas palavras diz respeito a um estado de inflação do ego, para moldar ao nosso bel prazer aqueles que um dia poderão fazer a mesma coisa com os seus rebentos ou com qualquer outra criança.

 

O educar é um excesso de cuidado desnecessário e prejudicial.

 

O cuidar, o sublime cuidar, para que a criança não seja tolhida e nem ferida nas suas maiores circunstâncias em que ela está inserida, aí sim, é o melhor processo para que mais adiante ela não seja flechada pela arrogância, pelo autoritarismo e nem pelo sentimento de onipotência que muitos adultos trazem da sua infância mal vividas.

 

Como bem disse Donald Winnicott: toda mãe se torna necessária quando se faz plenamente desnecessária. O renomado pediatra e depois alçado a categoria de psicanalista inglês acertou em cheio, Winnicott é citado também na obra do professor Walz, mas com outro pensamento, não vou revelar qual é para que você possa ter prazer em adquirir a obra.

 

Winnicott tinha plena razão. Esse é um exemplo de cuidar, um cuidado sem ser enviesado e preso a conceitos morais, sem ferir a dignidade e principalmente, sem transgredir os limites da estrutura da psique da criança.

 

Cuidar é uma sublime apreciação de não desejar ser Deus. Para resumir a narrativa que já estamos prestes a encerrar por aqui nestas linhas, quando presenciamos adultos cheios de neuroses e psicoses pode ter certeza que as raízes estão cheias de ervas daninhas advindas de uma infância problemática.

 

E assim, todo excesso esconde uma falta.

 

Excesso de altruísmo, de amor, de bondade... Xiiii, isso também é inflação do ego, mostra que fomos uma criança que possivelmente necessitou muito destes itens e hoje procura suprir uma demanda que não teve lá atrás.

 

Quanto mais luz, mais sombra, não esqueçamos disso.

 

É na infância que se esconde nossas dificuldades, nossas mazelas de hoje, nossos medos e angústias mais sutis, e não é procurando educar aos moldes de Pinochett que tudo será resolvido, mas cuidando como Piaget.

 

Aí sim, quando nossa criança se afogar jogaremos boias e não procuraremos ensiná-las naquele momento a nadar de forma hostil e com rigidez sem precedentes.

 

Lembremos sempre: CUIDAR NÃO É EDUCAR!

 

Estas foram as minhas impressões sobre essa excelente obra do professor de psicologia da UFRGS, Júlio Walz: CUIDAR NÃO É EDUCAR. Espero que tenha gostado, como disse, tentei relacionar segundo meus conhecimentos em psi complexa ou junguiana. Recomendo a obra de olhos fechados.

 

Randerson Figueiredo.

Escritor e pesquisador em filosofia e psi profunda.

 

OBSERVAÇÃO: O PROFESSOR WALZ TEM UMA SÉRIE NO YOUTUBE SOBRE ESSA EXCELENTE OBRA, EU SEMPRE ACOMPANHO, UM PODCAST MARAVILHOSO E BEM DESCONTRAÍDO, NÃO É CHATO NEM MONÓTONO, ACONSELHO VOCÊ CASO POSSA, ACOMPANHAR AS INSERÇÕES DO PROFESSOR COM O MEDIADOR, VALE MUITO A PENA.

<<< EPISÓDIO 1 - PODCAST CUIDAR NÃO É EDUCAR >>>

 

SERVIÇO:

DESCRIÇÃO: Cuidar não é educar é um livro realista. Mostra que o convívio familiar é um enorme desafio.  Brincadeiras, desenvolvimento, limites, tecnologias, ser bom pai e ser boa mãe e a diferenciação entre cuidar e educar, são temas apresentados no livro com o propósito de colaborar com a qualidade de vida da família e, especialmente, na relação entre pais e mães e os seus filhos.


CARACTERÍSTICAS DO PRODUTO:

Autor: Julio Cesar Walz

112 páginas

12,8 x 19,5 cm

ISBN: 978-65-00-73295-5

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