A BUSCA PELA QUATERNIDADE, ALQUIMIA E A DIALÉTICA DE HEGEL – POSTAGEM ESPECIAL
Olá, mais uma vez cá estamos
para mais um encontro salutar a envolver psicologia, filosofia e
espiritualidade num só momento, tudo ao mesmo tempo agora.
Estava a pesquisar sobre os
assuntos acima e resolvi entrelaçar os temas, tudo no seu devido lugar.
Acredito que nosso encontro hoje será muito especial.
Quando me deparei com um dos
volumes das Obras Completas de Jung, mais precisamente A Interpretação
Psicológica do Dogma da Trindade (OC – 11/2) considerei de bom tom trazer
esse tema aqui pra plataforma, haja vista religião ser um assunto consoante às
perspectivas da psi profunda.
E entrelaçar os pormenores
destes ou daqueles assuntos torna tudo muito interessante e maravilhoso. Do
ponto de vista natural, a religiosidade é uma função natural, inerente à
psique.
A religião é um instinto.
E dentro do conceito da psi
analítica, a religião é tida como um processo terapêutico que assim como a
psicoterapia tem a função de aliviar o sofrimento intrínseco a natureza humana.
As religiões originam-se de
conceitos e fatores dinâmicos do inconsciente, e esses fatores se apresentam em
formas de imagens dos mais variados tipos: deuses, demônios, espíritos...
William James, disse certa
feita, que apesar dos cientistas darem uma importância maior aos fatos
objetivos, a ciência funciona como uma espécie de sentimento religioso: “Essa
importância em si mesma é quase religiosa. Nosso temperamento científico é
devoto.”
A linguagem das religiões é
elaborada a partir de símbolos.
E esses símbolos têm uma
importância significativa na psique da gente, Jung ocupou-se mais
especificamente dos símbolos cristãos, pois há mais de dois mil anos sob a
custódia da cristandade ocidental.
O ponto de partida de Jung é a
de que a Trindade cristã é um significado psicológico vivo. Se não fosse dessa
forma, já teria caído no esquecimento.
Essa concepção trinitária do
cristianismo vem de tempos remotos.
Babilônios, egípcios e gregos
já esboçavam de forma bastante proeminente características bem peculiares em
relação à trindade. O que se pode inferir que a trindade é um arquétipo que vem
evoluindo ao longo dos séculos.
E o desenvolvimento da imagem
de Deus de um para três é importantíssimo dentro da evolução da psique como um
todo, esse desenvolvimento corresponde as três etapas evolutivas da psique.
Mas aí vem a pergunta que não
quer calar...
A totalidade exprime-se em
símbolos quaternários, a mandala é um exemplo que exprime a totalidade da
psique, dividida em quatro. E o que falta para completar a trindade?
Já que as três pessoas divinas
são perfeitas?
Bem, nesse ponto em 1950 a
Igreja Católica resolveu dar o ar da graça e promulgar o Dogma da Assunção de
Maria, segundo Jung esse acontecimento significa que a quaternidade poderia
estar completa.
Isso segundo a Igreja.
Poderia... Jung foi bem claro.
Para a quaternidade figurar
completa seria necessário juntar aos aspectos numinosos da trindade a sombra, o
lado obscuro, o lado sombrio para que a união de opostos possa sim fazer jus à
totalidade.
À medida que as minhas
pesquisas iam avançando mais eu percebia que a temática é mais profunda do que
parece. É importante salientar quando Jung fala de religião, ele não fala de
qualquer credo ou religião em particular.
O que interessa é a atitude
religiosa como função psíquica.
É a experiência religiosa como
processo psíquico, é isso.
Jung não só aborda sobre esse
tema da trindade no OC – 11/2, mas também em Aion (OC – 9/2) e Resposta a Jó
(OC – 11/4), este último não utilizado por mim, a não ser para citações.
Acredito que essa questão da
trindade e do quatérnio é um ponto muito significativo a despeito do
inconsciente coletivo, pois fica claro que a trindade é um arquétipo que sempre
aparece ao longo dos séculos.
E nem precisa falar sobre a
questão dos números: o uno – o outro – o terceiro. O três é um número perfeito,
representa Deus, pois significa início, meio e fim.
O número um não inicia a
contagem, mas sim com o dois, o outro.
Iremos nos deparar com essa
questão da numerologia com Platão e Pitágoras (indico a obra Psique na
Antiguidade – Volume I de Edward F. Edinger, capítulo sobre Pitágoras página 31
e capítulo sobre Platão página 81).
Para Jung, a trindade é uma representação
incompleta da divindade.
Tanto é que as imagens das
mandalas exprimem um sentimento de estabilidade e repouso, um sentimento de
equilíbrio. Normalmente quando se está em perigo a mandala surge como um
propósito estabilizador.
Todo evento que se desenrola
no tempo tem um início, um meio e um fim. Passado, presente e futuro. É bem por
aí que se desenrola nossa conversa, nobre leitor.
Então em relação a todo esse
processo, pode-se dizer que o número 3 representado pelo Espírito Santo é uma
união de contrários, segundo Jung.
Agora ao traçar um paralelo
com o filósofo alemão Hegel é possível perceber um paralelo para esse
simbolismo dos números, para a compreensão do processo histórico.
De acordo com Hegel, todos os
movimentos e acontecimentos da história humana se enquadram num padrão cíclico
ternário:
- Tese – uma oposição original;
- Antítese – a oposição se
forma, cresce e supera a primeira;
- Síntese – a unilateralidade
e a inadequação da antítese são reconhecidas, e a síntese dos dois opostos a
substitui.
A
fórmula é: TESE – ANTÍTESE – SÍNTESE.
Só que muita gente não se dá
conta que a síntese pode se tornar uma nova tese, aí o ciclo se repete. Essa
fórmula é aplicada até hoje, principalmente em formulações científicas.
Essa foi uma percepção de
primeira grandeza, é ou não é uma evidente expressão do arquétipo trinitário?
Acredito que sim, tenho a mais plena certeza.
Até mesmo porque, através de
mais um exemplo, o desenvolvimento da consciência se desenvolve através de três
fases, olha aí mais uma perspectiva da trindade:
1 – O ego identificado ao Si-mesmo;
2 – O ego alienado do Si-mesmo;
3 – O ego unido de novo ao
Si-mesmo – O eixo ego-Si-mesmo.
Por isso é muito importante
compreender essa questão da trindade cristã analogamente ao desenvolvimento da
consciência da nossa psique:
- A idade do Pai (Si-mesmo);
- A idade do Filho (ego);
- A idade do Espírito Santo
(eixo ego-Si-mesmo).
A ideia medieval de CORPO –
ALMA – ESPÍRITO, também é outra representação trinitária da totalidade. A
questão da teoria alquímica com o uso de MERCÚRIO – ENXOFRE – SAL.
O próprio Freud com o Id – Ego
– Superego.
Agora me lembrei de Lao Tsé
que diz: O um gera o dois, o dois gera o três e o três gera todas as coisas
(Tao Te King, 42).
Percebo que essa questão do
três e do quatro funciona mais ou menos assim, que três é a tese e o quatro é a
antítese, que devem ser resolvidos numa nova síntese.
Sendo mais preciso, a
quaternidade só não deu o ar da graça, pois o quatro é tido simbolicamente com
traços da personalidade feminina, os números pares têm essa representação, o
três por ser um número ímpar representa fidedignamente a sociedade patriarcal
em que vivemos.
Esse é um dos motivos do
quatérnio não ser o protagonista em toda essa história que envolve o três e o
quatro: a trindade e a quaternidade.
A quaternidade não representa
um símbolo completamente adequado para a totalidade, segundo Jung, é necessário
haver uma síntese entre a quaternidade e a trindade.
Mais especificamente falando,
o símbolo da trindade representa um processo dinâmico, de constante mudança, de
melhorias numa expansão consciente, ou seja, ao processo de individuação.
A missa por exemplo, para
Jung, é um rito do processo de individuação, interessante não é? Em todas essas
pesquisas, e não foi pouca pesquisa, pude perceber a extensão de todos esses
questionamentos.
É tudo muito ramificado. Tudo
interligado. É maravilhoso.
Para concluir o texto de hoje,
chego à conclusão que a quaternidade não deu o ar da graça ao marcar a nossa
civilização por mais do que questões psicológicas, mas políticas e
antropológicas de organização tribal e patriarcal.
Ficou claro que a presença do
feminino não era bem vista numa sociedade marcada profundamente por presença
masculina. E a trindade é a representação máxima do patriarcado.
Apesar da busca pela
quaternidade ser uma constante e temos vários exemplos:
- Os 4 evangelistas (Matheus –
Marcos – Lucas – João);
- As localizações cardeais
(Norte – Sul – Leste – Oeste);
- As estações da natureza (Primavera
– Verão – Outono – Inverno);
- Os estados da matéria
(Quente – Frio – Seco – Molhado).
Deixo bem claro no nosso
diálogo hoje que deveria haver uma combinação, um diálogo do trino com o
quatérnio. Essa relação com a dialética Hegeliana acende ainda mais o debate,
de ter sempre o trino como completude no pleno desenvolvimento da consciência
como um todo, numa rota para o processo de individuação.
Como indicação vou deixar mais
uma obra: A doença que somos nós – A crítica de Jung ao cristianismo, de
John P. Dourley. Aborda sobre toda essa questão de forma bem concisa e
didática, o livro foi editado pela Paulus, principalmente o capítulo 5 página
72.
Essa obra é muito boa, fora as
que vou deixar nas referências.
Então já vou finalizar o texto
de hoje com uma frase do Oráculo de Delfos, na qual Jung fez gravar em pedra, e
colocou no alto da sua porta da sua casa em Küsnacht: Invocado ou não
invocado, Deus estará presente.
E eu completo: a trindade
também!
Até a próxima, se Deus
permitir.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
DA SILVEIRA, Nise – JUNG, vida
e obra. Editora Paz & Terra, Ano: 2023.
DOURLEY, John P. – A doença
que somos nós - A crítica de Jung ao Cristianismo. Editora Paulus, Ano: 1987.
EDINGER, Edward F. – A psique
na Antiguidade – Volume I (Filosofia Grega Antiga). Editora Pensamento (Selo
Cultrix), Ano: 2005.
EDINGER, Edward F. – Ego e
Arquétipo, uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de
Jung. Editora Pensamento (Selo Cultrix), Ano: 2020.
HEGEL, G. W. F. – Hegel –
conceitos fundamentais. Editora Vozes, Ano: 2021.
JUNG, Carl Gustav –
Interpretação psicológica do dogma da trindade (OC – 11/2). Editora Vozes, Ano:
2013.
JUNG, Carl Gustav – AION,
estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo (OC – 9/2). Editora Vozes, Ano: 2013.
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