FEMINISMO, SORORIDADE, MISOGINIA E PATRIARCADO – UMA QUESTÃO ANTROPOLÓGICA | POSTAGEM ESPECIAL
Não se nasce mulher, torna-se mulher. – Simone de Beauvoir
Olá, nobre leitor do blog Saber Jung... Antes de mais nada desejo esclarecer que não seria essa postagem com esse tema, mas uma postagem sobre a série Filosofando, a qual estou muitíssimo atrasado com as postagens aqui no blog.
Mas, devido aos últimos acontecimentos no cenário social resolvi de última hora modificar os planos e escrever um post sobre o assunto acima: FEMINISMO, SORORIDADE, MISOGINIA E PATRIARCADO – UMA QUESTÃO ANTROPOLÓGICA.
Vou tentar estabelecer conexões sobre estes diversos assuntos.
A começar com uma frase de Simone de Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se mulher. Uma frase puramente existencialista e que diz muito sobre o que iremos abordar.
Assim como posso dizer não se nasce humano, torna-se humano...
Essa semana veio à tona o caso da modelo e influencer digital Mariana Ferrer, ela foi estuprada por André de Camargo Aranha em dezembro de 2018 num camarim privado, durante uma festa em um beach club em Jurerê Internacional, em Florianópolis. Ela tinha 21 anos e era virgem.
O inquérito policial concluiu que o empresário havia cometido estupro de vulnerável, quando a vítima não tem condições de oferecer resistência. O Ministério Público denunciou o empresário à Justiça.
Durante o processo, o promotor do caso foi transferido para uma outra promotoria e o entendimento do novo promotor foi o de que o empresário não teria como saber que Mariana não estava em condições de dar consentimento à relação sexual, não existindo, assim, o dolo, a intenção de estuprar. Essa conclusão do promotor está sendo chamada de "estupro culposo". André de Camargo Aranha foi absolvido.
Durante a sessão do julgamento ela foi várias vezes humilhada pelo advogado do empresário, que através de ações bruscas e desumanas a tratou de forma leviana e impiedosa.
As perguntas que não querem calar: porque a vítima foi tratada dessa maneira? Porque a mulher tem que ser tratada sempre assim? Como a sordidez consegue nos entorpecer dessa forma? Será que algum dia a mulher terá o devido tratamento que merece?
Basicamente falando por mim, fui criado no meio de muitas mulheres, somente três homens fazem parte da família: eu, meu tio e meu avô. Somente. E mais 8 mulheres na família. Então desde cedo fui acostumado a respeitar o papel da mulher na sociedade e a perceber o quão importante são para todos nós.
Não estou falando somente pelo aspecto biológico, vai muito além.
Numa linguagem metafórica costumo dizer que a sociedade modificou o software e não o hardware, ou seja, ainda vivemos na idade da pedra só com uma nova roupagem, mais estilizada. Deu para entender?
O computador social é o mesmo, a mesma porcaria de sempre. O que mudou foi o programa com algumas atualizações, péssimas atualizações, diga-se de passagem. E programas esses com vírus.
Esse caso da modelo me fez pensar em um monte de outras mulheres que passam por essa mesma situação e não possuem condições de fazer uma denúncia, de ir atrás do que realmente importa, são importunadas a todo o momento...
Sinceramente, eu como homem me sinto envergonhado de estar escrevendo sobre esse tema. Já era para termos superado essa fase ridícula faz tempo. Há muitos séculos.
Mas é muito importante abrir espaço pro debate, para esclarecer.
Por isso que acredito que o feminismo é necessário. É fundamental.
Feminismo é:
Defesa dos direitos das mulheres com base na igualdade dos sexos.
Teoria da igualdade política, econômica e social dos sexos.
Crença de que homens e mulheres devem ter direitos e oportunidades iguais.
Movimento que defende os direitos sociais, políticos e todos os outros direitos das mulheres iguais aos dos homens.
Fim do patriarcado, o sistema social em que homens mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades. No domínio da família, o pai mantém a autoridade sobre as mulheres e as crianças.
Existem ideias equivocadas sobre o feminismo, vejamos algumas delas:
1 – Toda feminista odeia os homens
Ideia errada! As mulheres feministas adotam a questão do fim do patriarcado, não contra os homens, essa é uma questão fundamental a ser debatida. Muitas feministas são casadas, mães, avós de homens. Um exemplo sou eu mesmo, eu sou um aliado do movimento! Também prego pelo fim do patriarcado e pela igualdade de gênero, tento ajudar a promover a equidade.
2 – Feministas não são femininas
Outra ideia errada a respeito das mulheres. As mulheres têm o direito de se vestirem do jeito que quiserem e ser do jeito que quiserem.
Podem não querer seguir os padrões de beleza impostos pela sociedade.
3 – São mal amadas
Tudo errado quanto a essa questão também. É um direito da mulher em ser reconhecida como pessoa completa e independente. Ou seja, ter alguém ao seu lado não a faz mais ou menos mulher. Então esse papo de “mal amadas”, pode ser considerado muito equivocado.
4 – Todas são lésbicas
O feminismo é um posicionamento político e assim como qualquer outro, os seus adeptos tem todas as orientações sexuais possíveis. Então sim, existem mulheres lésbicas no movimento, assim como, héteros, e bis que lutam em diferentes frentes contra os machismos diários que atingem a todas, ainda que de formas específicas. E acalmem os corações, apesar dessa afirmação ser feita na tentativa de xingar, não há nada de pejorativo em ser lésbica.
5 – Feministas odeiam mães e crianças
O movimento entende que nem todas as mulheres nasceram para serem mães, como a sociedade impõe. Mães são mulheres, então não só são acolhidas pela luta, quanto são defendidas. Mas, ainda vale lembrar que uma mulher não se torna inferior simplesmente por não querer construir o que chamam de “família tradicional”. E tudo bem se outras quiserem desde que seja uma decisão consciente e não por uma pressão social. Escolher cuidar do lar também não faz da pessoa menos feminista, assim como querer construir uma carreira.
6 – Sem “mimimi”
É importante saber que o movimento feminista – é na verdade, um grande grupo cheio de ideias divergentes e vertentes de luta. E questões específicas de mulheres negras, lésbicas, periféricas, prostitutas, indígenas e transexuais, também são levadas em consideração.
O que o feminismo defende?
O feminismo defende a igualdade jurídica, política e social entre homens e mulheres. Essa igualdade deve ocorrer no campo dos direitos e das oportunidades, envolvendo direitos políticos, liberdades civis, direito à educação, direitos reprodutivos (dentre eles, o que mais causa controvérsia é o direito ao aborto), direitos trabalhistas, equiparação salarial e divisão do trabalho doméstico.
Além de atuar em pautas propositivas, o feminismo também faz o contraponto, o combate às diversas formas de opressão que se manifestam cultural e socialmente, tais como o assédio moral, psicológico, físico, a violência física e sexual, bem como a imposição de padrões de beleza e comportamento.
E dentro de toda essa questão que envolve o papel da mulher temos sobre o que chamamos de sororidade. E o que vem a ser sororidade?
Sororidade diz respeito a um comportamento de não julgar outras mulheres e, ainda, ouvir com respeito suas reivindicações.
Muitas vezes, o termo sororidade é erroneamente interpretado como se, por obrigação, as mulheres devessem gostar de todas as outras mulheres.
Mas essa não é a questão, o termo refere-se, sobretudo a ter empatia e sobre o exercício de cada mulher se colocar no lugar umas das outras, respeitando seus respectivos contextos.
Portanto, a sororidade é um movimento importante pois é preciso desconstruir a rivalidade que foi colocada para as mulheres e, no lugar de tal rivalidade, pautar um sentimento de união.
E como colocar isso na prática?
Como está sendo abordado no texto a mulher vivencia uma opressão de gênero, para por freios em relação a essa prática algumas atitudes são mais que necessárias.
As mulheres devem se apoiar mutuamente:
Compartilhar informações e ensinamentos umas com as outras, contribuindo para um crescimento mútuo;
Respeitar e tratar outras mulheres como gostaria de ser tratada, independente do contexto;
Criar um ambiente seguro para trocas de experiências e desabafos;
Encorajar e indicar oportunidades para outras mulheres;
Oferecer ajuda para mulheres que se encontram sobrecarregadas;
Consumir e indicar trabalhos de outras mulheres.
Além disso, a mulher, quando sozinha, ainda encontra-se em uma posição na sociedade em que possui grande dificuldade de ser ouvida, fazendo com que suas reivindicações e denúncias nem sempre sejam validadas.
O ato de união e solidariedade umas com as outras trará mais força para o movimento, possibilitando uma transformação das estruturas sociais.
E no que tange às questões de gênero, outro termo que se apresenta a todos nós é MISOGINIA. É um termo oriundo da Grécia antiga que voltou à luz para conceituar as relações nocivas que ocorrem entre homens e mulheres.
As bases misóginas desse pensamento ocidental geram a banalização da violência ao feminino que se estende pelos vários pontos da vida da mulher: social, psicológico, econômico e político.
Desse modo há uma reprodução quase que inconsciente, eu diria inconsciente mesmo, de ações machistas entre homens e mulheres.
Ou seja, a mulher um ser servil e o homem um ser ativo...
Mas essa atitude da mulher muitas vezes é um mecanismo de defesa e não de subserviência ao homem. Ferindo por completo a sua dignidade.
A misoginia no Brasil é um caso sério, o mapa da violência de 2015 colocou o país na quinta posição em casos de assassinatos de mulheres, com uma média de 4,8 mortes a cada 100 mil.
Já os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados em 2017, revelam outro fato chocante: a cada onze minutos uma mulher é estuprada no país.
Com intuito de enfrentar a violência de gênero, em 2006 surgiu a Lei Maria da Penha, para combater a violência doméstica. Em 2009, a Lei 12.015 alterou o Título VI do Código Penal para Crimes contra a dignidade sexual, unificando o estupro e o atentado violento ao pudor, com a aplicação de uma única pena.
E em 2015, foi sancionada a Lei 15.104 que define o feminicídio como um crime hediondo – crimes de extrema gravidade, cujas penalidades são mais rigorosas.
Em 2018, foi sancionada a Lei 13.718 que trata do crime de importunação sexual: “realização de ato libidinoso na presença de alguém de forma não consensual, com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro”, assim como tornou crime a divulgação de cenas de estupro, nudez, sexo, pornografia sem o consentimento da outra parte envolvida.
Ainda que essas leis possam representar grandes vitórias para a causa das mulheres, a desconstrução do papel social feminino é um trabalho contínuo, que requer a aplicação de programas sócio-educativos para instigar a sociedade a assumir o papel de protagonista na desnaturalização da vigente hierarquia social entre os gêneros.
Mas é importante que se diga que nem sempre a sociedade foi ancorada pelo patriarcado...
Em tempos de uma organização social primitiva, as pessoas se arranjavam em torno da figura da mãe, a partir da descendência feminina, uma vez que desconheciam a participação masculina na reprodução.
Eram matrilineares.
Os papéis sexuais e sociais de homens e de mulheres não eram definidos de forma rígida e as relações sexuais não eram monogâmicas, tendo sido encontradas tribos nas quais as relações entre homens e mulheres eram bastante igualitárias.
Todos os membros envolviam-se com a coleta de frutas e de raízes, alimentos dos quais sobreviviam, bem como a todos cabia o cuidado com as crianças do grupo.
Muito tempo depois, com a descoberta da agricultura, da caça e do fogo, as comunidades passaram a se fixar em um território.
Aos homens, predominantemente cabia a caça, e às mulheres, também de forma geral, embora não exclusiva, cabia o cultivo da terra e o cuidado das crianças.
A defesa dessa estrutura patriarcal é o que desorganiza a sociedade como um todo. Sabe leitor, falando um pouco de psicologia profunda, se o patriarcado fosse igualmente igualado ao matriarcado tudo poderia ser diferente.
O sistema patriarcal sustenta o capitalismo, manifesta-se nas diversas esferas da vida pública e privada, na família, na religião e na cultura, ou seja: na sociedade como um todo.
Ele revela-se no cotidiano, desde comportamentos explicitamente violentos, até frases sutis, que parecem inofensivas. Aparece em relacionamentos abusivos, quando a mulher é proibida pelo homem de usar determinadas roupas ou maquiagens. Ou quando ele impede que ela tenha amizades e se relacione com familiares.
O patriarcado e o machismo guiam nossas relações sociais.
Como já mencionei, nós nem nos damos conta de que muitas vezes estamos sendo machistas, por isso é preciso fazer uma desconstrução de práticas opressoras.
Diante de tudo que foi mencionado, é importante mais do que tudo, identificarmos o nosso verdadeiro papel na sociedade, homens e mulheres.
O meu, por exemplo, já que tenho esse canal na internet tenho uma obrigação, um dever de expor esse assunto a todos os leitores do blog.
Tudo que foi exposto aqui hoje foi com o intuito de alertar para todo esse imbróglio que permeia a sociedade como um todo. Devemos nos conscientizar, reitero.
Mais do que nunca devemos nos tornar melhores seres humanos.
Espero sinceramente ter colaborado com estes esclarecimentos sobre a mulher e sobre nós homens de uma forma geral e ter disseminado de certa forma um novo olhar para essas questões.
O meu muito obrigado por ter lido até aqui.
Até a próxima.
Referências:
Mapa da violência – VEJA – O Valor do Feminino – Café com sociologia – QG Feminista – Universa – UOL – UFES – FEATA – Scielo – UOL – Unifesp – CNJ – JUS
0 Comments: