UMA VIOLÊNCIA ARQUETÍPICA E A SOMBRA DE UMA HUMANIDADE FERIDA

outubro 24, 2023 Randerson Figueiredo 0 Comments

 

A vida dos homens é violenta porque suas almas foram violadas. – James Hollis

 

Muito boa tarde, leitor...

 

Nossa, há quanto tempo não faço minhas saudações com o senhor ou a senhora, ou se me permite: você. Você que me acompanha nestes 11 anos de plataforma (dia 24 de setembro último).

 

Diante de tudo que está acontecendo, o mundo em chamas, acabamos por sair chamuscados com tamanhas labaredas a acender nosso incensos clamando pela paz.

 

Nestes últimos tempos que estive afastado, cheguei a pensar a limar de uma vez por todas este nosso humilde e singelo blog sobre a perspectiva junguiana, mas voltei atrás. Acredito que nossa interação merece um adendo, merece uma pausa, mas não um stop para sempre.

 

Hoje acordei com um imenso desejo de escrever aqui, como antes.

 

O tema de hoje é espinhoso, pra não dizer cabeludo: violência. E eu vou mais além, uma violência arquetípica, uma violência incrustada em todos nós.

 

E claro, gera uma humanidade ferida.

 

Eu já escrevi inúmeras vezes sobre esse tema, mas a “pegada” de hoje, vamos por assim dizer será mais embasada em conceitos da psicologia profunda mesmo.

 

Tomei por base algumas referências da psicologia analítica, de Carl Gustav Jung, e também de um grande analista junguiano estadunidense chamado James Hollis e o seu livro “Sob a sombra de saturno”.

 

Eu estava afastado, mas sempre a manter as leituras em dia, é importante dizer isso, sempre a buscar boas referências e a integrar sempre que possível os diversos assuntos.

 

Essa obra do James Hollis fala explicitamente sobre a temática de hoje, um tema que a cada dia se torna mais insustentável e difícil de lidar.

 

Quanto mais lidamos com uma sociedade patriarcalizada e machista, a sociedade irá padecer cada vez mais. Isso é uma constatação. Não tem para onde escapar, infelizmente.

 

Um patriarcado vivo e pulsante, nos torna padecidos de enfermidades e chagas letais: misoginia, racismo, estupro, feminicídio, homofobia e dentre outras máculas.

 

Eu vou me dar como exemplo.

 

Fui criado por avós maternos, e nesse período que estive sob os cuidados deles, aí se juntam tias e tios e bisavós, recebi uma criação graças a meu bom Deus excelente.

 

Na minha família, dominada pela presença de mulheres: mãe – tias – avó e bisavó – ajudante do lar – babá (sim, eu tive babá), eu contei com a presença de mulheres muito fortes como exemplo, todas elas.

 

Eu sempre me espelhei no meu avô, tio e bisavô, mas principalmente nas mulheres aguerridas da minha família. Acredito que isso foi de um impacto crucial na minha formação como ser humano.

 

Perceber essa manifestação do animus em todas elas foi de uma vitalidade e da mais importância que você, caro leitor, nem imagina como fui afetado positivamente diante de tudo isso.

 

Sabe porquê que digo isso? Por causa da opressão que sofremos.

 

Nós homens lidamos com muitos dirtúrbios emocionais: ansiedade, depressão, insônia, vício em pornografia, vícios em álcool, drogas, comida, apostas e jogos eletrônicos.

 

E sofremos calados, sozinhos, não falamos com ninguém pelo que passamos, e tudo isso por medo do não enfrentamento de uma realidade que mais oprime do que compreende.

 

Uma sociedade que já se habituou a conclamar que homem que é homem não chora, não demonstra sentimentos e que não se dobra de forma alguma seja por que intempéries passar.

 

Isso é de uma crueldade absurda, que impomos a nós mesmos.

 

Toda vez que o patriarcado grita com a sociedade, um tanto assim de violência sempre escapa pelas extremidades. – Randerson Figueiredo

 

É justamente sobre essa sensação de abandono que estou a falar no texto de hoje também, um assunto vai puxando o outro, sempre a tentar chegar ao fio da meada.


Quando estava a ler o texto do livro de Hollis, percebi muito que nós homens somos muito chegados a disputar, a competir e a sempre mostrar ao outro o quanto aguentamos os baques da vida.

 

E como sempre temos uma queda por estatísticas, aí vai algumas:

 

83% das mortes por homicídios e acidentes no Brasil são de homens; homens vivem 7 anos a menos que as mulheres; homens suicidam-se 4 vezes mais que as mulheres; 17% dos homens lidam com algum nível de dependência alcoólica; quando sofrem um abuso sexual, demoram em média 20 anos até contar isso para alguém; 30% enfrentam ejaculação precoce ou disfunção erétil; homens são 95% da população prisional no Brasil; a maior parte dos encarcerados são jovens, periféricos e com ausência de figura paterna. Desse grupo os homens negros e LGBT’s são mais atingidos.

 

E aí? O que será que essas estatísticas desejam revelar?

 

Para mim elas dizem tudo e mais alguma coisa. Estou a digitar este texto aqui do meu quarto na casa dos meus avós com a janela aberta e com um céu lindíssimo, de um azul-que-te-quero-azul, com meus 33 anos nos couros eu nunca vi tanto aparato de violência espalhados mundo afora, nunca.

 

Nós homens buscamos um ideal, e esse ideal é estereotipado.

 

É um ideal que já não se sustenta mais, ou melhor, nunca se sustentou. Essa obra do James Hollis focaliza justamente as feridas masculinas que regem nosso comportamento.

 

Para Hollis carregamos 8 segredos milenares em nossos corações.

 

1)   A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres. É algo que fica bem claro na obra.

 

Aqui pode-se mencionar que nós homens somos tão influenciados quanto às mulheres no que diz respeito às nossas participações sociais, nós temos que amputar nossas perspectivas e idealizações na realidade, para atender a uma demanda cada vez mais restritiva e cruel imposta por nós mesmos. Para corresponder a uma expectativa do machismo cultural.


2)   A vida dos homens é basicamente governada pelo medo.

 

Nós temos medo do outro, num sentido mais genérico, mas principalmente das mulheres em relação ao complexo materno, por isso procuramos dominá-las a qualquer custo. Outro homem é visto como material competitivo e não como irmão. E por fim, temos medo também do mundo como um todo: difícil, impenetrável e inconstante.

 

3)   O poder do feminino é imenso na organização psíquica do homem.


Já puxando pro nosso coleguinha, o papai Freud, na psicanálise, a mãe (complexo materno) exerce um poder preponderante na vida de um homem, e nas mulheres também.

Por ser uma presença psíquica inconsciente e confrontada pela estrutura social patriarcal, nós temos uma relação distorcida com o feminino.

Se por um lado pode ser um amor desenfreado, por outro pode ser um relacionamento tóxico; insegurança na identidade sexual e tratar o sexo, eu digo o ato sexual, como um ato não só de libertinagem, mas de libertação do complexo materno.


4)   Os homens conluiam-se numa conspiração de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional.


Esse a meu ver, é um dos pontos mais delicados do texto de hoje. Nós homens temos uma espécie de aliança com outros homens, uma espécie de pacto do silêncio, que se rompido pode gerar grandes transtornos. Aquela falácia de que homem que é homem não chora, de que é proibido demonstrar sentimentos, de que não pode ser frágil e vulnerável. Isso não é só corroborado por nós homens, mas principalmente pelas mulheres. Muitas mulheres estão embevecidas com a tragédia do patriarcado e estão extremamente contaminadas, por uma masculinidade tóxica. Pagamos um alto preço por demonstrar sentimentos.


5)   O ferimento é necessário porque os homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno.


Essa questão também é algo importante a ser abordado no texto de hoje, de que nós homens necessitamos deixar a mãe, para seguir a jornada.

Para amadurecer é necessário sofrimento.


6)   A vida dos homens é violenta porque suas almas foram violadas.


Essa obra do pesquisador Hollis é muito instigante justamente porque ele exemplifica que nós deixamos de buscar e de vivenciar uma vida simbólica, uma vida com significado e principalmente sem ritos significativos de passagem.

Ritos significativos de passagem?

Sim, veja bem, os ritos são atos simbólicos que atuam diretamente na nossa psique, são eles que podem ajudar a transformar simbolicamente uma vida monótona em cheia de significado.

Nós homens, como já foi mencionado, somos chamados a calar, independentemente do que sofremos.

Esses rituais, muitas das vezes elaborados em tribos refletem uma vida mais pautada em experiências vivificadoras e repletas de entusiasmo.


7)   Todo homem carrega consigo profundo anseio pelo seu pai e pelos seus pais tribais.

 

Quando pus o título do texto de hoje sobre a questão de violência arquetípica estava a falar também sobre raízes, histórias tribais e sobre a realidade transcendente. Resumindo tudo: estamos perdidos, infantilizados e utilizando nosso expediente para o uso de artifícios que fazem com que se tenha uma fuga da realidade, como o uso de drogas por exemplo.

 

8)   Para que os homens fiquem curados, precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior.


A cura está dentro e não fora de nós.

Santo Agostinho já questionava sobre esse assunto: passamos a vida inteira a admirar mares, oceanos, montanhas e não admiramos o que há dentro de nós.

Temos que perceber que devemos nos voltar para dentro, essa perspectiva é interior.

Há que ter uma tomada de consciência, aliás, é um assunto que sempre, diuturnamente escrevo por aqui na plataforma Saber Jung.

 

Todos esses pontos citados me faz chegar a algumas conclusões. Vamos a elas.

 

A violência (sombra coletiva) no seu mais amplo contexto me leva a crer que é um arquétipo, acredito que de tanto fomentar esse assunto, e ir as vias de fato, nossos antepassados incrustaram no nosso material genético marcas de violência.

 

Por isso o nome do meu texto: uma violência arquetípica.

 

Quando estaremos moralmente convictos de que uma mordaça colocada na boca de um será sempre o calar na voz de todos? – Randerson Figueiredo

 

Mas a violência pode e deve ser combatida, pela prática da gentileza, mas não é tão simples assim.

 

Há tantas formas de não se deixar levar pela violência, vide Mahatma Gandhi que pela sua luta e tantos outros pacifistas mostraram que é possível uma expansão de consciência na busca pela paz.

 

Já ficou claro e demonstrado por A + B que a nossa forma de organização social já faliu faz tempo, muito tempo mesmo. O que nos resta é nos organizarmos numa organização mais adequada e buscar, nada de receita pronta, suar a camisa mesmo.

 

Essa questão de, se você come do meu pirão prova do meu cinturão...

 

Isso aí já está mais ultrapassado que não sei nem o quê. O patriarcado e seus tentáculos já faliu faz tempo, já é algo ridiculamente em estado de putrefação, mas que renasce a cada golpe violento, como uma fênix sombria.

 

E por falar em atos violentos, o governo anterior foi o exemplo-mor a não ser seguido: violento, misógino, machista, preconceituoso e mais brochável que tudo nessa vida.


Graças a nosso bom e amado Deus que tem piedade de tudo e de todos o governo anterior perdeu e ainda está inelegível, uma desgraça a menos para nos preocuparmos. 


Ou será que não?

 

O mais incrível de tudo é que ele deixou ervas daninhas no jardim do Getsêmani, por incrível que possa parecer, não basta só ajudar a velhinha atravessar a avenida movimentada, não basta dar um pirulito a crianças, e muito menos segurar sacolas de supermercado e leva-las a casa de quem as comprou.

 

É preciso mais, muito mais.

 

Extirpar esses tentáculos que invadem nossos lares, as escolas, os cinemas e até nas igrejas requer doses cavalares de coragem e vitalidade meu caro leitor. Requer AMOR! E muito amor.

 

Nós sofremos de enfermidades na alma, e isso é muito perigoso.

 

O nosso olhar pode ter uma violência tão grande, mas tão grande que pode ser capaz de sufocar o irmão. Um olhar que condena muitas vezes é muito pior que uma língua que fere.

 

A questão é que nos acostumamos com ela, com nossa violência cotidiana, some-se a isso um desejo incontrolável e sanguinário por ver sangue.

 

Já abordamos o amigo, vizinho ou quem quer que seja com a notícia estampada nas capas de jornal, que normalmente não é algo bom, principalmente advindas de uma imprensa marrom.

 

Acredito que a violência se não entrou já era para ter entrado também como um transtorno psiquiátrico severo, grave mesmo no DSM-V. Ora! E porquê, não? Vamos colocar de uma vez por todas os pingos nos i’s.


Às vezes, é necessário mexer na estrutura do edifício para que ele não caia, mas com cuidado obviamente. Se algo está enraizado, nada mais justo que comecemos pela raiz do problema, pela nossa psique. Ou acha que não?

 

Somos e estamos extremamente feridos, numa busca desenfreada para quem dará o último tiro, quem jogará a última granada e quem atirará a última flecha.

 

Num verdadeiro jogo de gato e rato a não desertar das trincheiras, já que não podemos demonstrar nossas fragilidades e ditas fraquezas, sempre numa pomposa falsa superioridade.

 

Quem de nós sobreviverá?

 

Até a próxima, se Deus quiser.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

HOLLIS, James. Sob a Sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo: Paulus, 1997.

0 Comments: