CORRUPÇÃO E PSICOLOGIA ANALÍTICA – O QUE A PSICOLOGIA TEM A NOS REVELAR?

setembro 01, 2018 Randerson Figueiredo 0 Comments



Olá caro leitor!

Ontem trouxe até você a análise de um filme muito interessante chamado “O show de Truman, o show da vida” estrelado há quase vinte anos por Jim Carrey.

Hoje apresento um tema coerente com a situação política no país: corrupção e psicologia analítica – o que a psicologia tem a nos revelar? Já que estamos em época de eleição nada mais coerente...

Muitos dizem que a corrupção é um câncer e que o “paciente” no caso o Brasil está em estado terminal, metástase. Não vejo essa denominação como uma boa saída, mas de qualquer forma essa análise servirá como passo inicial para debatermos de forma proeminente sobre esse assunto.

Sinceramente acredito que a corrupção é um construto social e algo que está relacionado à própria natureza humana como veremos mais adiante.

Pois podemos analisar a corrupção em três complementares níveis: individual, cultural e coletivo.

Ela pode ser entendida como um fenômeno global, como problema número 1 a ser combatido, ultrapassa até assuntos como mudança climática, pobreza, fome, desemprego e energia.

A corrupção custa vidas, sabemos bem disso, não é necessário exemplificar aqui neste espaço.

Mas a pergunta que fica no ar é a seguinte: além de um problema político, a corrupção também seria um problema do inconsciente?

A descoberta do inconsciente trouxe uma grande revolução de valores.

Erich Neumann propôs um amplo debate depois de despontar a segunda guerra mundial entre velha ética e nova ética, a primeira se classifica como dualista (bem e mal / luz e escuridão) e busca uma perfeição ilusória, reprimindo o lado obscuro do ser.

Neumann propôs um novo patamar, pois a velha ética acabaria por sucumbir e daria lugar a totalidade, o ser humano não estaria em busca da perfeição, mas da totalidade. A totalidade abarca a imperfeição da sombra.

Jung afirmou ainda que:

[...] a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. (1982, v. 9/2, par. 14)

*Nível individual da corrupção

A corrupção pode ser descrita como um "comportamento desviante" das normas legais e valores morais, "que se manifesta sob a forma de um abuso de função na política, sociedade ou economia em favor de outra pessoa ou instituição" (RABL, 2008, p. 25).

Nessa situação o indivíduo pode tomar como decisão evitar lidar com a própria incompetência ou sentimento de inferioridade, uma fuga de algo que o desagrada inconscientemente.

Do ponto de vista da psicologia analítica pode ser compreendida como um mecanismo de defesa contra os efeitos nocivos da sombra, ou seja, seria uma maneira mais fácil e prática de resolver as situações.

Nessa análise individual a corrupção está intimamente relacionada a um ato egoísta do indivíduo.

E quem está envolvido nisso tudo? Se respondeu Ego acertou!

O ego está relacionado de forma intrínseca com a transgressão dos interesses sociais em detrimento do interesse coletivo. E identificado com o SELF o indivíduo corrupto praticamente não tem limites. Põe as suas necessidades acima de toda a sociedade.

O que podemos concluir a respeito desse primeiro ponto?

Corrupção é um ato hedonista, ou seja, o ter está sempre acima do ser.
O político corrupto parece se considerar como um deus. Ele rouba, pois se acha superior às outras pessoas.

O que dá para perceber é que os adeptos da nova ética não fazem nenhum esforço para se adequar aos novos rumos traçados, é uma espécie de corrupção suicida, onde não parece haver limites para a ganância, muito menos para a sombra.

E o mais curioso de tudo isso é que os indivíduos corruptos tendem a não ser ver como corruptos. Eles tendem a valorizar a justiça, a integridade e a honestidade mesmo quando se envolvem em atos ilícitos (corrupção).

Essa é uma dissociação neurótica, pois está relacionada a uma "discrepância entre a atitude consciente e a tendência inconsciente" (JUNG, 1988, v. 16, par. 26).

Resumindo: uma pessoa que age de forma incoerente dentro de fatores sociais pré-estabelecidos pode ser um pai amoroso, um vizinho atencioso ou um religioso fervoroso.

Como Jung bem argumentou em seus postulados, precisamos exercitar a individuação:

Individuação significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; é a consideração adequada e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator determinante de um melhor rendimento social. (JUNG, 1981, v. 7, par. 267).

A sociedade usa seus políticos para reafirmar sua própria integridade e honestidade, isso a meu ver é dar um tiro no próprio pé. Você não acha?

Indivíduos corruptos estão sim distanciados de seu processo de individuação, e como estão! Pois eles estão identificados com a sombra coletiva do mal projetado sobre eles.

E é aí que entra o antídoto capaz de sanar e fazer com que esses indivíduos entrem e descubram de uma vez por todas seu processo de individuação, a culpa, a vergonha serão capazes de transformá-los em seres em busca da iluminação interior. Isso claro se for vivenciado com a busca da verdade.

Ela (a corrupção) tem como consequência a atrofia da personalidade individual. Pois os políticos passam a viver um processo de projeção coletiva e não vivem o seu próprio processo de individuação.

Metaforicamente, eles morderam a maçã podre da corrupção e foram expulsos do paraíso fiscal.

**Nível cultural da corrupção

Agora depois que abordamos o nível individual da corrupção, agora será a vez de explicitar sobre o nível cultural da corrupção.

Para falar de características subjetivas de um grupo, tem-se que considerar um terceiro nível de inconsciente – na verdade, uma faixa de elementos intermediária entre o inconsciente pessoal e o coletivo –, que seria o inconsciente cultural.

Entretanto foi um brasileiro, chamado Arthur Ramos, que lançou esse conceito na década de 1930, influenciado pelas ideias de Jung. Só que ele o chamou de inconsciente folclórico.

Partindo desses pressupostos podemos sim analisar a luz da psicologia analítica a corrupção com um viés subjetivo.

Como disse no início do texto: a corrupção é um construto social.

Quando falamos em jeitinho brasileiro logo nos vem a mente muitos questionamentos e situação vexatória que possivelmente podemos recorrer a tirar vantagem, mas acredito que o jeitinho brasileiro é mais do que isso, é o jeito de sobreviver do brasileiro, de ser resiliente, e antes que você pense que estou dizendo isso para legitimar a corrupção vamos a alguma explicações.

Alguns analistas junguianos referem-se a fenômenos sociais como complexos culturais.

Nós poderíamos, então, dizer que as causas da corrupção na nossa cultura estão ligadas à constelação de complexos culturais. Como Jung afirma que na origem de um complexo está um trauma (1991, v. 8, par. 204), outra causa da corrupção estaria, então, nos traumas coletivos sofridos pelos brasileiros ao longo da história. E uma terceira causa estaria no tipo psicológico do Brasil, como veremos adiante.

Segundo Boechat (2014, p. 72), somos "um país em busca de identidade", pois "a alma brasileira está em processo dinâmico de formação, não é um todo acabado". Segundo Briza (2006), "nosso ego cultural ainda está frágil, está em desenvolvimento".

O complexo brasileiro de identidade pode ser representado por uma figura conhecida como gigante adormecido, extraída do nosso hino nacional: "Gigante pela própria natureza [...]. Deitado eternamente em berço esplêndido" (DAMATTA, 1991, p. 3).

Essa figura é popularmente associada aos cidadãos brasileiros que permanecem "dormindo", alienados às questões políticas do país. Com dimensões continentais, o Brasil é o quinto país em tamanho e o sétimo em riqueza, mas não se encontra nem perto de alcançar suas potencialidades.

O ego coletivo parece muitas vezes se encontrar em um estado letárgico, em contraposição à imagem de força e potencialidade da águia americana ou do tigre asiático, por exemplo.

Os brasileiros possuem um complexo de inferioridade bastante expressivo. Esse complexo foi primeiramente "diagnosticado" por Nelson Rodrigues:

Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos "os maiores" é uma cínica inverdade. (RODRIGUES, 1993, p. 62).

No meio junguiano, esse complexo foi descrito também por Denise Ramos (2004), Byington (2013) e Câmara (2013), que ratificaram a denominação dada por Nelson Rodrigues.

Essa denominação atinge a questão racial aqui no país, pois o brasileiro ele não se considera racista, pois é um preconceito disfarçado, velado.

Num país onde os empregados domésticos dormem ainda na casa do patrão, algo que é resquício da escravidão!

A gente não faz, contrata alguém para fazer, pois a mão de obra é barata, apesar de desqualificada. As disparidades sociais ainda são muito grandes no Brasil.

O Brasil é um país imaturo!

Onde a figura do malandro tem vez e voz ativa como por exemplo: Zé Carioca, Macunaíma, Boto-cor-de-rosa, Zé pilintra e Didi Mocó para citar alguns.

Recentemente foi eleito literalmente um palhaço chamado Tiririca. Você acha leitor que realmente teremos alguém à altura para sanar as questões sociais que tanto afligem nosso país?

Só que apenas para esclarecer a figura do malando não é do corrupto, ele age por pura inconsciência. Só que no Brasil o malandro amador se tornou profissional: o de colarinho branco.

Tratei aqui no blog deste tema de forma menos formal com a postagem sobre o livro de Honoré de Balzac e seu código dos homens honestos.

E para completar esse ponto temos 4 feridas na psique brasileira:

a colonização (ou melhor, sua invasão pelos portugueses),
a escravidão,
a ditadura,  
a opressão da pobreza e da fome.

Traumas culturais são como narrativas-fantasmas, que ecoam negativamente nas gerações seguintes.

Outra questão diz respeito à tipologia junguiana, enquanto que os alemães e suíços são predominantemente introvertidos os brasileiros são extrovertidos.

Sergio Buarque de Holanda já havia afirmado isso quando disse que o brasileiro é cordial.

O brasileiro não gosta de seguir regras. Age com o coração. O nepotismo lembra algo a você?

Embora amigável, o brasileiro pode ser extremamente frio. Assim ele consegue fechar os olhos para as diferenças sociais. Segundo Von Franz (2007), o indivíduo que tem o pensamento introvertido como função inferior não gosta de pensar, especialmente filosofar, e é depreciativo: seu pensamento é negativo e rude.

***Nível coletivo da corrupção

As características coletivas da corrupção apontam para tendências arquetípicas. Nesse nível de análise, a corrupção política está ligada à corrupção da própria natureza humana. Focaremos aqui na relação da corrupção com o bem e o mal, opostos absolutos que não podem ser relativizados culturalmente.

Sobre essa questão de bem ou mal, só nós podemos reconhecê-los abstratamente. Mas é importante que se diga aqui neste espaço que o bem e o mal não são relativos.

A corrupção, portanto é uma expressão particular do mal.

Os brasileiros pensam estar falando mal deste ou daquele partido, quando na verdade estão falando do mal que existe dentro deles mesmos, dentro de cada ser humano.

A corrupção está, então, relacionada à sucumbência às fraquezas humanas naturais.

A consciência moral não pode ser entendida apenas em seu aspecto psicológico, mas também teológico. A consciência moral pode ser entendida como a voz de Deus, um imperativo numinoso.

De acordo com Jung (1993, v. 10, par. 835), se considerarmos que existe uma consciência moral "correta", existiria também "[...] uma 'falsa' consciência, que exagera, deturpa e transforma o bem em mal e vice-versa [...]".

A corrupção é então o que acontece quando não se ouve a voz da consciência, a voz de Deus, mas a voz do diabo.

Acredito caro leitor, que esse foi um dos maiores artigos que já escrevi aqui no blog. Acredito que a corrupção, mais do que um aspecto que é nocivo à sociedade, representa também uma etapa necessária a ser avançada, uma grave crise moral que precisa ser superada.

Agora sendo bem sincero, sejamos realistas na hora de votar e buscar o que de melhor o candidato pode oferecer. Afinal há um longo caminho pela frente de encontros e descobertas.

Referências bibliográficas

BOECHAT, W. A alma brasileira: luzes e sombra. Petrópolis: Vozes, 2014.
BYINGTON, C. A. B. A identidade brasileira e o complexo de vira-lata. Junguiana, São Paulo, v. 31, n. 1, p. 71-80, jan-jun 2013.
JUNG, C. G. Estudos sobre psicologia analítica. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1981. (Obras completas, v. 7).
JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 1982. (Obras completas, v. 9/2).
JUNG, C. G. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 1988. (Obras completas, v. 16).
JUNG, C. G. A dinâmica do inconsciente. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. (Obras completas, v. 8).
JUNG, C. G. Psicologia em transição. Petrópolis: Vozes, 1993. (Obras completas, v. 10).
JUNG, C. G. A vida simbólica. Petrópolis: Vozes, 2000. (Obras completas, v. 18/2).
VON FRANZ, M.-L. A função inferior. In: VON FRANZ, M.-L.; HILLMAN, J. A tipologia de Jung. 6. ed. São Paulo: Cultrix, 2007.

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