JESUS CRISTO E A DIALÉTICA DA COMPAIXÃO – PEDAGOGIA DE DEUS
Quando escrevi sobre o arquétipo pai e a psicologia analítica estava a preparar você leitor para o que viria aqui no blog, para você compreender um pouco melhor o texto de hoje sobre Jesus e a dialética da compaixão terá que ler o referido texto, isso claro se você achar conveniente, caso contrário prossiga.
Lá falo um pouco sobre as questões anima x animus e patriarcado. Uma sociedade patriarcal que marca a nossa sociedade até hoje.
Após milhares de anos de dominação patriarcal, durante os quais nações e impérios foram formados, escravizados e destruídos, classes sociais foram firmemente estabelecidas. A rígida mentalidade de tradição, família e propriedade – e desigualdade – foi incorporada à consciência coletiva.
O patriarcado e a figura do herói estavam se mostrando cada vez mais fortes. E uma série de situações começou a ameaçar a nossa sobrevivência. Guerras, fome, pobreza, crime organizado...
O arquétipo patriarcal messiânico no misticismo judeu foi ativado com base na tradição patriarcal gloriosa, estruturada desde o êxodo do Egito, da revelação dos Dez Mandamentos e da longa jornada para a Terra Prometida. A glória militar veio das monarquias brilhantes de Saul, Davi e Salomão. Em muitas profecias messiânicas patriarcais, o messias patriarcal é o retorno do próprio Rei Davi.
Essa forte tradição patriarcal dominou o Sinédrio, o governo da comunidade israelita. Dessa forma, a maioria do povo seguiu a tradição patriarcal identificada com a rebelião armada contra Roma. Ela ansiava pelo arquétipo do herói messiânico patriarcal que inclui a conotação gloriosa da morte do sacrifício na batalha.
Só que nessa perspectiva surgiu um herói messiânico que atingiu profundamente o Self cultural judeu. Ele pertencia à tradição judaica, mas ao invés de resolver os problemas pelo poder e pela agressão era extremamente pacífico e simbolizava com a dialética da compaixão.
Era uma verdadeira revolução, pois Ele (Jesus Cristo) substituía o poder pelo amor.
Acredito que essa oposição de antigos conceitos patriarcais representou uma verdadeira ruptura com velhos padrões, ou seja, o ego-outro patriarcal deu lugar ao ego-outro da alteridade.
E esse arquétipo da alteridade representa o que há de melhor, pois une o ego-outro matriarcal e o ego-outro patriarcal, marcado pelo poder, pela agressão e hierarquia.
O arquétipo da alteridade é composto pela compaixão e pela igualdade das diferenças, ou seja, ele é completo pois reúne os arquétipos da anima e do animus descritos por Jung que são os arquétipos condutores, que fazem com que possa haver uma transcendência da dominação patriarcal do Self individual e do Self cultural.
O mito que coordenou predominantemente a implantação do arquétipo patriarcal na cultura ocidental foi ilustrado, de forma exuberante, pelo Antigo Testamento. Sua transformação com a implantação do arquétipo da alteridade foi ilustrada pelo Novo Testamento e por Cristo.
A história de Cristo e o de Buda mostraram o desenvolvimento histórico da consciência no Ocidente e no Oriente para transcender a dominação patriarcal.
O mito de Buda expressou a implantação cultural da posição dialética ego-outro do arquétipo da alteridade na Índia e no Oriente, por intermédio das funções de compaixão e desapego do desejo, 500 anos antes da história de Cristo.
Agora o que não quer calar é, porque a implantação da alteridade no Oriente foi menos repressiva do que no Ocidente?
Ora, porque a concepção de arquétipo matriarcal no Oriente é menos reprimida do que no Ocidente, que é extremamente patriarcal, repressora e violenta.
O conflito Israel-Roma, em seu confronto mais intenso, incluiu a crucificação de Jesus, herói da alteridade.
Aquilo que havia sido perdido para o poder patriarcal na crucificação foi recuperado pelo milagre da fé da alteridade, na Ressurreição. Esse milagre expressa a função arquetípica transcendente do Self (JUNG, 1916).
O fato de a Igreja ter como modelo a tradição imperial romana influenciou, decisivamente, na patriarcalização defensiva do cristianismo. Eu a considero defensiva porque a essência da alteridade dialética da mensagem cristã foi fixada, deformada e dominada regressivamente em muitas dimensões pela posição patriarcal polarizada. Pessoas foram presas, torturadas e mortas durante muitos séculos em nome do Cristo (BYINGTON, 1991).
Por exemplo, a inquisição institucionalizou a perseguição aos hereges, ou seja, aqueles que se opunham aos ditames doutrinários cristãos. Isto faz com que o homicídio orientado pela Inquisição, dentro da Igreja, em nome de Cristo, tenha durado 1.432 anos.
A inquisição e o Santo Ofício representam a instalação do patriarcado defensivo, e põe defensivo nisso, na história durante muitos séculos.
A meu ver Jesus se deixou crucificar como sinal de denúncia, para repudiar e transcender a repressão patriarcal. A crucificação de Jesus representou uma ruptura de antigos conceitos e ações patriarcais no Antigo Testamento, de um Deus voltado a repressão, para um Deus marcado pela compaixão, pela misericórdia.
Para transformá-lo na Trindade: com seu sacrifício, sua morte e sua ressurreição.
Quando Jesus no ato da crucificação diz: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Na realidade ele estava recitando um salmo davídico, o salmo 22, portanto estava se fazendo cumprir a sua missão, uma transição.
Tudo isso aconteceu para que Jesus pudesse se unir ao antigo Deus patriarcal e formar uma união dentro de uma relação dialética do arquétipo da alteridade.
Com o passar dos anos a implantação cultural do mito cristão teve continuidade com a extroversão e o exame de consciência na Igreja começou ver a sombra como instrumento de pecado e sua recidiva incluíam confissão e penitência. O arrependimento.
Com o passar dos séculos podemos perceber a participação dos cientistas e dos monges nos monastérios, uma prática extrovertida e introvertida respectivamente.
Os monges estavam protegidos pela introversão secreta dos monastérios; os cientistas, não, porque publicavam suas ideias abertamente, para a consciência coletiva.
Vide Nicolau Copérnico!
O que eu sei é que esse embate entre ciência e religião durou por baixo uns 246 anos. Infelizmente, até hoje, a maior parte dos historiadores da ciência e da religião vê o conflito entre ciência e religião como um conflito entre fé e razão.
Nada disso!
O conflito foi uma batalha mitológica dentro da fé, entre a essência do mito cristão, que era a posição dialética da alteridade, e sua patriarcalização defensiva, expressa pelo direito canônico criado pelo Santo Ofício na Inquisição.
A ciência a meu ver é o maior exemplo de arquétipo da alteridade. Humildemente se coloca a disposição de ser refutada e não faz disso um sinal de vitimização, mas sim de crescimento científico e moral que marca sua trajetória.
A Igreja deformou a essência do mito e patriarcalizou a seu bel prazer. De acordo com suas prerrogativas.
Agora algo que deve ser dito aqui neste espaço é que infelizmente a ciência não conseguiu unir a sua objetividade com a subjetividade de forma mais coerente como fé, humanismo e mediunidade.
Será que se tivesse essa união, a ciência deixaria de ser ciência? Deixaria de possuir sua verdadeira formação?
Sei que em todas as disciplinas (como medicina, sociologia, antropologia, arqueologia, economia, educação e política), encontramos a disputa pelo controle entre a posição patriarcal, geralmente fixada e defensiva, e a posição dialética quaternária do arquétipo da alteridade, frequentemente também fixada e defensiva.
Geralmente, a alteridade dialética apresenta-se defensiva na economia, no sindicalismo defensivo, na demagogia e no populismo que formam a maior deformação social, econômica e política da modernidade. Ela é subutilizada.
Fazendo uma análise do texto de hoje, podemos identificar que o arquétipo da alteridade extremamente disseminado por Jesus está intimamente ligado à expansão da consciência, pois é o caminho simbólico que afasta a humanidade da miséria e da destrutividade individual e coletiva, em direção ao amor, à liberdade, ao bem-estar social, à sustentabilidade, à igualdade, à compaixão e à autorrealização.
Até a próxima se Deus quiser!
Referência bibliográfica
BYINGTON, C. A. B. Uma teoria simbólica da história. O mito cristão como principal símbolo estruturante do padrão de alteridade na cultura ocidental. Junguiana, Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica. Petrópolis, n.1, p. 120-177, 1983.
JUNG, C. G. (1916). A função transcendente. Petrópolis: Vozes, 1983. (Obras completas, v. 8, p. 131-193).
NEUMANN, E. (1949). História e origem da consciência. São Paulo: Cultrix, 1995.


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