A CRUZ E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO – PEDAGOGIA DE DEUS

maio 04, 2019 Randerson Figueiredo 1 Comments



Porque motivo – perguntará o leitor – falo aqui de Cristo e de sua parte contrária? Falamos necessariamente de Cristo porque Ele é o mito ainda vivo de nossa civilização. É o herói de nossa cultura, o qual, sem detrimento de sua existência histórica, encarna o mito do homem primordial, do Adão mítico. É Ele quem ocupa o centro da mandala cristão; é o senhor do Tetramorfo, isto é, dos símbolos dos quatro Evangelistas que significam as quatro colunas de seu templo. Ele está dentro de nós e nós estamos Nele. Seu reino é a pérola preciosa, o tesouro escondido no campo, o pequeno grão de mostarda que se transforma na grande árvore; é a Cidade celeste. Do mesmo modo que Cristo, assim também o seu reino está dentro de nós. Acho que estas poucas referencias universalmente conhecidas são suficientes para caracterizar a posição psicológica do símbolo de Cristo. Cristo elucida o arquétipo do Si-mesmo.

Cal Gustav Jung, em AION, estudos sobre o simbolismo do si-mesmo, parag 69.

Hoje iremos tratar sobre a cruz e o processo de individuação na série Pedagogia de Deus.

Jung, em suas diversas obras vê na cruz o processo de individuação, da autorrealização humana. Jung não escreve sobre a morte de Jesus na cruz, mas sobre a simbologia da cruz.

E esse símbolo representa um papel importante no processo de individuação do indivíduo.

É necessário que para se ter uma realização, digamos plena, temos que passar do Ego ao Self, que inclui simultaneamente o consciente e o inconsciente de um indivíduo.

E durante todo esse processo os símbolos têm uma missão especial, pois eles determinam arquetipicamente e desencadeiam o processo de individuação.

Para Jung, Cristo e a cruz podem transformar todo um processo de individuação do ser humano, pois Cristo é o símbolo mais desenvolvido do Self.

E a cruz, note, desempenhou um papel importante no caminho de transformação de Jesus, ou seja, nosso caminho de individuação passa pela cruz, pelo sofrimento.

Por um lado a cruz é o símbolo de sofrimento, mas por outro é também de redenção, de se redimir por tudo o que aconteceu.

O sacrifício na cruz não quer despedaçar o ser humano, mas promovê-lo em seu caminho interior. O sofrimento é o portão pelo qual o ser humano precisa passar quando quer se tornar consciente de si mesmo.

O rei não é o Self, mas a manifestação simbólica desse arquétipo. Isso é, o rei de nossa civilização é Cristo, ele é o símbolo do Self, ele é o aspecto específico do Self que domina a nossa civilização, o Rei dos Reis, o conteúdo dominante. Eu diria que Buda é o aspecto formulado do simbolismo do Self  nas civilizações budistas. Assim, o rei não é o arquétipo, mas o símbolo do Self que tornou a representação central dominante numa civilização.Marie-Louise von Fraz, em " A sombra e o mal nos contos de fadas".

Para Jung, o fato de sermos vamos assim dizer: humanamente humanos, diz respeito de como lidamos com o sofrimento. Quem se desvia do sofrimento que existe necessariamente junto a sua existência humana procura a neurose como sofrimento substituto.

Nesse sentido, carregar a cruz significa para Jung aceitar a própria cruz e não pensar que poderíamos carregar a cruz de Cristo.

O símbolo de Cristo” é da maior importância para a psicologia, porquanto constitui, ao lado da figura de Buda, talvez o símbolo mais desenvolvido e diferenciado do Si-mesmo. Isso pode ser avaliado pela amplitude e pelo conteúdo dos predicados atribuídos ao Cristo, que correspondem a fenomenologia psicológica do Si-mesmo de um modo incomum, apesar de não incluir todos os aspectos deste arquétipo.Carl Gustav JungEm “Espiritualidade e Transcendência”, Capítulo III, Psicologia e Religião, livro editado por Brigitte Dorst.

Nós, seres humanos somos um misto de contradições e opostos.

E nesse ínterim, representamos assim um conflito insolúvel.

E é exatamente nesse conflito que Deus é a união de todos os opostos.

Quando o ser humano está disposto a confrontar-se com esse conflito, então experimenta nisso Deus, então “realiza-se dentro dele a imago Dei, a encarnação de Deus”.

Resumindo: a cruz é para cada um de nós o fio condutor do processo de individuação, promovendo a transformação necessária para que possamos encontrar a completude que nos falta.

Partindo desse ponto de vista, a cruz tem um papel de ordenar, manter a ordem, pois é um dos símbolos mais antigos nesse sentido.

Para Jung, a cruz é uma imagem de reconciliação e não uma imagem de demonstrar poderio do império romano sobre a figura de Jesus Cristo. Vai muito além disso...

A imagem da cruz tem para Jung um efeito sanador. Ela nos protege de divisões interiores que sempre causam doenças, e nos estabiliza em meio à instabilidade de nosso tempo.

Não foi por acaso que o próprio Jung colocou uma cruz na parede de seu escritório para se lembrar constantemente de como o caminho da individuação humana pode dar certo.

Até a próxima.

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Um comentário:

  1. Obrigado Lino,
    Que bom que gostou. Eu também agradeço pela visita e leitura da postagem.
    A cada semana um novo post sobre psicologia, filosofia e espiritualidade, não necessariamente nessa ordem.
    Fraternal abraço e tudo de melhor.

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