A INSUSTENTÁVEL FRAGILIDADE MASCULINA EM XEQUE – POSTAGEM ESPECIAL

maio 13, 2026 Randerson Figueiredo 0 Comments

“Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade.”

SIMONE DE BEAUVOIR

 

Olá, olha nós de novo por aqui no front de batalha nessa nossa guerra épica de não aniquilar os leões no campo de batalha, mas fazer amizade com eles e quem sabe até tomar um drink.

 

Muito bem, hoje vamos dialogar sobre a minha, a sua e a nossa fragilidade masculina, em relação a você que é homem obviamente. E você, mulher que me acompanha por aqui sinta-se à vontade para dar seus pitacos.

 

Hoje teremos como base de nossa discussão quatro obras bem polidas no que tange a essas questões sentimentais e arquetípicas, muitas vezes recalcadas e escondidas com vieses nada nada positivos.

 

São elas a saber:

- Sob a Sombra de Saturno – a ferida e a cura dos homens, do renomado analista Junguiano James Hollis.

- A Busca do Símbolo – conceitos básicos de psicologia analítica, de Edward C. Whitmont.

- Ego e Arquétipo – uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung, de Edward F. Edinger.

- O Segundo Sexo – da autora da epígrafe do nosso texto de hoje: Simone de Beauvoir.

 

Os principais livros trabalhados são os grifados.

 

Resolvi abrir o texto de hoje com uma frase da filósofa Simone de Beauvoir de forma bem proposital pelo contexto que iremos hoje tratar nesta plataforma.

 

Sua luta, digo sobre a agenda feminista, é justificável.

 

A luta pela igualdade de direitos, direitos esses cerceados e vilipendiados por uma gama de situações deste sistema opressor, por um respiro, pela liberdade e principalmente pelo direito de ter direitos é fundamental a qualquer ser humano, independente do gênero.

 

Agora o que não vejo como saudável é transformar uma pátria, no caso o Brasil, num processo efervescente de discussões ideológicas e pautas identitárias cujo antagonista é sempre o homem.

 

Não vejo isso como saudável, é adoecedor.

 

Dividir uma sociedade em um antagonismo unilateral é de uma baixeza sem precedentes, mais do que isso, é procurar varrer a sombra individual pra debaixo do tapete.

 

Não é que o homem é o grande vilão do horário nobre e a mulher a eterna donzela que luta ferozmente para não ser capturada pelo lobo mau, nada disso.

 

Acredito que esse viés tóxico masculino parte de pressupostos nada ortodoxos e de matriz fálica, um patriarcado que já chegou à exaustão e de uma sociedade que nunca discute verdadeiramente o que deve ser feito para melhorar, mas que só reclama e reclama.

 

Da mesma forma que o homem não deve ser apontado como dínamo desta força motriz negativa, a mulher também não deve ser vista como mero agente passivo do meio em que está inserida.

 

“Todo homem que é incapaz de reconhecer conscientemente suas fragilidades, agirá de forma inconsciente com força bruta a sempre atingir o sexo oposto.”

RANDERSON FIGUEIREDO

 

O que sei é que essa questão é muito mais profunda do que parece.

 

Habita a zona abissal de um comportamento infantil, baseado em complexos materno e por vezes paterno negativos, insegurança e uma busca incessante para provar algo a alguém cujo interesse não se sustenta.

 

É fato que as mulheres são bem mais desenvolvidas emocionalmente que nós homens, bem mais articuladas, mais empáticas (muitas vezes) e não só com sua feminilidade habitual, mas com seu aporte psicológico masculino bem sedimentado na sua grande maioria, o chamado ANIMUS.

 

O que estou a mencionar é uma constatação e não invencionice.

 

Tanto é que as meninas são apresentadas à sociedade aos 15 anos, o famoso baile de debutante, isso significa que é aos 15 e não aos 18 no caso de nós homens, que a maturidade funcional cerebral dá o seu start nestas respectivas idades (Fonte desta informação: O paradoxo da sabedoria – Elkonon Goldberg – Editora Melhoramentos).

 

As mulheres estão mais habituadas na sua convivência com a mãe, tias, avós, primas e por aí vai a lidar melhor com a sua vivência e aporte sexual, no caso a menstruação, ao marcar justamente um novo passo para a puberdade.

 

Nós homens somos diferentes, somos encapsulados numa traumatizante celeuma de ordens e virilidade de machos-alfa: homem não chora, não se chateia, esconde suas emoções e principalmente, sempre quando possível parte para a agressividade.

 

O resultado não poderia ser diferente: homens imaturos, infantis, inseguros e são os eternos bebês da mamãe. Na sua grande maioria, agem em grupo, o que mostra em grande parte sua predileção por estar junto de outros homens, um caráter fálico e homoafetivo diga-se de passagem.

 

Grande parte de nós homens usamos a mulher como mero objeto sexual, no qual ele se sente o detentor e provedor desta mulher. Esse domínio extenuante é algo aterrador e muito, mas muito cruel.

 

É aí que mora o perigo.

 

A sua relação altamente doentia com sua ANIMA, o seu aspecto psicológico feminino, faz com que este mesmo homem analise sua metodologia de macho-alfa com base na truculência da pior forma possível.

 

Justamente o que corrobora a minha citação logo acima.

 

Outro dado importante, as mulheres tendem a ser mais bem articuladas do que nós, são mais independentes e versáteis. A prova disso, é que muitas procuram logo casar e sair da casa dos pais, o homem não, muitos de nós protelam e adiam a saída o quanto podem.

 

Isso é um indicativo crucial de que do jeito que está, a sociedade tenderá a ruir cada vez mais, a colapsar se deixarmos as principais diretrizes diante dessa fragilidade que venho a elencar desde o início do texto.

 

Uma integralização com o matriarcado é urgente. E antigamente, muito antigamente, segundo o pesquisador em antropologia Mircea Eliade, a sociedade era puramente matriarcal.

 

Essa nossa atualização no software foi extremamente nociva para uma reação de adoecimento em cadeia, a gerar o surgimento de violência dos mais variados tipos, uma fuga da realidade, como no uso de substâncias entorpecentes e drogas no geral, o aparecimento de uma sombra individual e coletiva não integralizada para um melhor relacionamento com a nossa psique e um caos sem tamanho na humanidade com guerras, fome, ódio, maldade e muita violência.

 

Muitos destes fatores são causados justamente por um não saber lidar com a própria masculinidade, já que tivemos e ainda temos muitos estadistas homens a capitanear seus países.

 

Por falar em estadista, há muitos estadistas com masculinidade tóxica, e isso é um ponto altamente negativo na sua administração como um todo. Essas falas ruidosas são desconcertantes para nós homens.

 

O que leva a crer que todo homem é um assassino em potencial, o que não é verdade. É uma falácia das mais graves. Aliás, uma minoria chega a cometer crimes desta natureza.

 

Outro ponto que desejo abordar é a falta que nós homens temos de sensibilidade com o outro, uma intersubjetividade tacanha e medonha.

 

O grande referencial de nós homens é a figura do pai, se não tiver pai, que foi o meu caso, tem o avô, o tio, um primo, seja lá quem for, mas o importante é ter um referencial.

 

O homem que não tem esse referencial pode desenvolver traços, eu disse, traços mais sensíveis e menos másculos digamos. Não falo aqui numa questão puramente sexual, mas emocional e numa conjuntura global.

 

O que nós homens devemos notar diante de tudo isso é que essa aproximação com o papel do complexo paterno deve ser positiva e a do materno também. Uma identificação nos dois polos causará um ser humano sem espinha dorsal e nada saudável do ponto de vista psíquico.

 

Essa identificação dos complexos causa nuances aterradoras.

 

No caso, se você que é homem viu seu pai bebendo, batendo na sua mãe, dizendo palavrões e tendo um comportamento dito insalubre, você tenderá a replicar possivelmente com a sua parceira, pois ficou lá no inconsciente marcas de um verão que jamais foi esquecido.

 

Do mesmo jeito, que se você tiver uma ligação parental muito ligada ao papel da mãe, tenderá a ser um indivíduo tímido, introspecto (o que é diferente de introvertido segundo a tipologia junguiana), com disfunções emocionais das mais severas e tendo a sua mãe como eterna guardiã da sua vida. Um complexo materno negativo.

 

É justamente o que o complexo edipiano dito por Sigmund Freud tenta nos revelar. Uma ligação mais do que umbilical que o filho tem com a sua genitora e o ódio quase que Shakesperiano que o filho tem pela figura do pai.

 

Outra questão também bem incisiva no comportamento masculino é a falta de rituais. Como assim rituais? Em muitas tribos indígenas, principalmente as Sioux, havia para um melhor aproveitamento do guerreiro, a entrada do jovem iniciado se dava por meio de rituais.

 

É o chamado rito de iniciação, hoje nada mais se fala em relação a isso. Quando havia a presença do arquétipo do Velho Sábio, onde poderíamos tirar nossas dúvidas e pedir conselhos, no caso a figura do pajé contribui para esse amadurecer de ideias do homem-guerreiro.

 

O que percebo na nossa atual conjuntura, é um homem extremamente fragilizado porque não possui mais experiências para trocas saudáveis e para o fortalecimento de uma masculinidade salutar.

 

Isso é muito prejudicial, é o modus-operandi de um tormento coletivo.

 

Essa falta toda de empatia, de sensibilidade e de acolhimento de nossa parte, de nós homens, é o resultado justamente do enfraquecimento e de uma crescente onda do feminismo, e não do feminino.

 

É importante salientar que feminismo não é o contrário de machismo.

 

São pontos divergentes e nada atenuantes. A meu ver o patriarcado mais cedo ou mais tarde irá ruir, assim como esse sistema avassalador também.

 

Nós homens devemos perceber que ao ativar a consciência, sim, porque eu sempre defendi que o despertar da consciência é o que nos faz viver uma vida em plenitude e simbólica, pois o símbolo se manifesta através da psique, não nos faz menos homens, muito pelo contrário, fortalece nossa presença de forma sutil e despretensiosa.

 

Perceber isso, é libertador.

 

Nós homens, repetimos padrões, e muitos padrões tóxicos, é bom frisar. Padrões esses transmitidos pelo inconsciente coletivo como algo natural e válido. São esses padrões que merecem e devem ser quebrados.

 

Pedir ajuda não é feio ou vai diminuir a testosterona, muito pelo contrário, procurar alguém técnico que entenda psiquicamente o que acontece é vivificador.

 

Um terapeuta é uma saída para esse imbróglio emocional que muitos de nós se encontra.  

 

Procurar por terapia é uma atitude das mais nobres. Salva vidas. Não procurar meramente uma figura religiosa, como um padre ou pastor, mas um terapeuta, esse profissional sim é o mais indicado.

 

Como já mencionei, tendemos a nos fechar, a mascarar os acontecimentos frustrantes e a remediar o sintoma, daí o crescimento da depressão e risco de suicídios. Eu por exemplo, faço terapia há 16 anos.

 

Como o próprio Jung disse: deve-se focar na causa e não no sintoma.

 

E nada melhor a nos servir de lição como o sofrimento, ah sim, o sofrimento é o catalisador para o verdadeiro despertar da consciência, para o nosso processo de individuação.

 

É através dele que podemos conseguir um aperfeiçoamento moral e emocional da sociedade como um todo, não só de nós homens, mas uma reintegração com a ANIMA e um bom diálogo com o ANIMUS presente na mulher.

 

Essa integração não se dá da noite pro dia, óbvio que não.

 

Requer uma reeducação emocional e moral do indivíduo. Como mencionei, um despertar urgente da consciência. Do jeito que está, a sociedade apresenta um modelo insustentável, carente de boas ações e boas reflexões.

 

O ressurgimento de um matriarcado poderia ser um bom começo.


Reunir os dois, tanto a presença masculina quanto a feminina, e perceber que a junção dos dois é uma simbiose necessária para uma melhoria contínua e gradual de uma narrativa global e cuja sanidade coletiva deve ser preservada.

 

Não acredito que essa discrepância feminista possa salvaguardar os aspectos preponderantes do feminino, o feminismo é um movimento político e não atende às demandas da mulher, mas uma agenda política, também baseada em pressupostos nada ortodoxos ao praticar muitas vezes uma misandria vexatória e excludente, um contraponto ao que muitos de nós pratica com as mulheres: a misoginia.

 

Esse cabo-de-guerra é desumano e incoerente.

 

Lutar verdadeiramente por direitos não significa aterrar e soterrar os direitos de outrem só porque os meus não foram atendidos, isso aí tem outro nome: cancelamento social.

 

“Se você quer que digam algo, peça a um homem. Se você quer que façam algo, peça a uma mulher.”

MARGARET TATCHER

 

Como bem disse Freud: o ser humano ainda está engatinhando no campo das emoções.

 

E para arrematar o texto de hoje, não estou aqui para simplesmente apontar, mas para provocar reflexões e trazer sugestões sobre o pensar e sobre comportamento e uma forma geral.

 

Refiro-me ao ator global Juliano Cazarré, ele vem com uma proposta sobre masculinidade e o papel do homem na sociedade contemporânea, um congresso chamado: O Farol e a Forja.

 

O ator vem simplesmente sendo cancelado de forma orgânica.

 

Muitos nem viram a proposta dele, nem sequer leram o índice sobre os pontos do congresso e já foram sem base nenhuma achincalhando o idealizador da proposta.

 

Ele ontem (12/05) participou do programa da Globo News, com uma debatedora, uma psicanalista e um influencer sobre essas questões de gênero.

 

Assisti hoje pela internet. Algumas falas dele, principalmente sobre índices de violência de gênero foram equivocadas, mas é bem verdade que a psicanalista, senhora Vera Iaconelli, propositalmente o colocou contra a parede, quando disse: “nem todo homem, mas sempre um homem...”.

 

Revela uma fala problemática até da própria profissional psi, um preconceito velado e culpabilizante, transformando-nos como disse no início em grandes vilões.

 

Sinceramente não vi nada demais em relação a esse congresso ministrado pelo ator, acredito que deve ser uma tentativa de ressurgimento dos rituais que já citei.

 

Não tem nada a ver dele ensinar a ser homem, até mesmo porque isso se aprende com a vida, e não coçando o saco escrotal e depois cuspindo no chão feito um “macho de verdade” (tsc tsc).

 

Infelizmente o mal de muitos brasileiros é sofrer com a falta de habilidade em interpretar texto, de ter a sua própria mentalidade, sua autenticidade e coerência.

 

A grande maioria segue a boiada.

 

Eu, graças a Deus estou em constante busca para melhorar como cidadão, uma das formas é não só escrever estes textos aqui na plataforma, mas procurar me comportar de acordo com o que acredito.

 

Fui criado com os meus avós, tive um genitor ausente e graças a Deus, acredito que não teria sido metade do que sou hoje se tivesse com a presença do meu pai biológico, meu avô muito me ensinou e me ensina até hoje, tenho a presença de um tio também e padrinho que é muito presente, consegui suprir a demanda de referências masculinas na minha jornada. E uma saudável relação com a minha amada mãe, que já nos deixou vai fazer um ano, mês que vem.

 

Toda essa trama é o retrato revelador de uma sociedade que ainda padece de uma doença proveniente do “Homo Acha Que Sapiens Sapiens”.

 

Para mim há valores que são inegociáveis, principalmente sobre moralidade e ética, tecer valores diante do que realmente merecemos e podemos ir em busca é o que nos garante nossas melhorias.

 

É disso que temos que ir em busca. Tentar fazer. Tentar agir.

 

E ao cantar duas músicas da MPB que versam muito sobre o que falamos hoje, àquela do Gonzaguinha:

 

Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)

Gonzaguinha

 

Um homem também chora

Menina morena

Também deseja colo

Palavras amenas

 

Precisa de carinho

Precisa de ternura

Precisa de um abraço

Da própria candura

 

E a do grande guitarrista Pepeu Gomes: Masculino e Feminino.

 

Masculino e Feminino

Pepeu Gomes

 

Ôu! Ôu!

Ser um homem feminino

Não fere o meu lado masculino

Se Deus é menina e menino

Sou Masculino e Feminino...

 

Olhei tudo que aprendi

E um belo dia eu vi...


E é justamente o que Gonzaguinha e Pepeu Gomes cantaram com tanta precisão, um homem que chora, que deseja colo, que carrega o feminino sem perder o masculino. Não é fraqueza. É individuação. É o processo que Jung descreveu como o caminho do ser humano em direção à sua totalidade.

 

Aquela integração entre ANIMA e persona, entre sombra e consciência, que não se completa nunca de uma vez, mas que exige que a gente continue andando. A masculinidade salutar não está no silêncio da dor nem na brutalidade do macho-alfa, mas nessa disposição honesta de olhar para dentro e perguntar: quem sou eu além do que me ensinaram a ser?

 

Esse é o verdadeiro rito de iniciação disponível para nós hoje, não nas tribos Sioux, não nos rituais perdidos, mas no consultório, no livro aberto, na conversa difícil, no choro que a gente finalmente se permite. É um começo. E começos, como diria Jung, já são tudo.


E assim encerro o texto de hoje, tentei caprichar ao ter como base algumas obras de analistas junguianos e da Simone de Beauvoir, e claro, a opinião deste que vos fala permeou todo o texto.


Espero que tenha gostado, vou deixar as referências bibliográficas aqui embaixo, até a próxima, se Deus permitir.

 

É IMPORTANTE DIZER: NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E MUITO MENOS PSIQUIATRA, OS ESTUDOS AQUI NESTA PLATAFORMA SÃO DIRECIONADOS PARA UM MELHOR APROVEITAMENTO DA VIDA COMO UM TODO, SOU AUTODIDATA EM ALGUNS ASSUNTOS, PSICOLOGIA PROFUNDA É UM DELES, ESTUDO DESDE 2009. 

MUITO OBRIGADO PELA VISITA E PARTICIPAÇÃO.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

BEAUVOIR, Simone – O Segundo Sexo. Nova Fronteira. Ano: 2020.

EDINGER, Edward F. – Ego e Arquétipo. Editora Cultrix. Ano: 2020.

HOLLIS, James – Sob a Sombra de Saturno. Editora Paulus. Ano: 2019.

WHITMONT, Edward C. – A Busca do Símbolo. Editora Cultrix. Ano: 2002.

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