A INSUSTENTÁVEL FRAGILIDADE MASCULINA EM XEQUE – POSTAGEM ESPECIAL
“Ninguém é mais arrogante em
relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de
sua virilidade.”
―
SIMONE DE BEAUVOIR
Olá, olha nós de novo por aqui
no front de batalha nessa nossa guerra épica de não aniquilar os leões no campo
de batalha, mas fazer amizade com eles e quem sabe até tomar um drink.
Muito bem, hoje vamos dialogar
sobre a minha, a sua e a nossa fragilidade masculina, em relação a você que é
homem obviamente. E você, mulher que me acompanha por aqui sinta-se à vontade
para dar seus pitacos.
Hoje teremos como base de
nossa discussão quatro obras bem polidas no que tange a essas questões
sentimentais e arquetípicas, muitas vezes recalcadas e escondidas com vieses
nada nada positivos.
São
elas a saber:
- Sob a Sombra de Saturno –
a ferida e a cura dos homens, do renomado analista Junguiano James Hollis.
- A Busca do Símbolo –
conceitos básicos de psicologia analítica, de Edward C. Whitmont.
- Ego e Arquétipo – uma
síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung, de Edward
F. Edinger.
- O Segundo Sexo – da
autora da epígrafe do nosso texto de hoje: Simone de Beauvoir.
Os principais livros
trabalhados são os grifados.
Resolvi abrir o texto de hoje
com uma frase da filósofa Simone de Beauvoir de forma bem proposital pelo
contexto que iremos hoje tratar nesta plataforma.
Sua luta, digo sobre a agenda
feminista, é justificável.
A luta pela igualdade de
direitos, direitos esses cerceados e vilipendiados por uma gama de situações
deste sistema opressor, por um respiro, pela liberdade e principalmente pelo
direito de ter direitos é fundamental a qualquer ser humano, independente do
gênero.
Agora o que não vejo como saudável
é transformar uma pátria, no caso o Brasil, num processo efervescente de
discussões ideológicas e pautas identitárias cujo antagonista é sempre o homem.
Não vejo isso como saudável, é
adoecedor.
Dividir uma sociedade em um
antagonismo unilateral é de uma baixeza sem precedentes, mais do que isso, é
procurar varrer a sombra individual pra debaixo do tapete.
Não é que o homem é o grande
vilão do horário nobre e a mulher a eterna donzela que luta ferozmente para não
ser capturada pelo lobo mau, nada disso.
Acredito que esse viés tóxico
masculino parte de pressupostos nada ortodoxos e de matriz fálica, um
patriarcado que já chegou à exaustão e de uma sociedade que nunca discute
verdadeiramente o que deve ser feito para melhorar, mas que só reclama e
reclama.
Da mesma forma que o homem não
deve ser apontado como dínamo desta força motriz negativa, a mulher também não
deve ser vista como mero agente passivo do meio em que está inserida.
“Todo homem que é incapaz de
reconhecer conscientemente suas fragilidades, agirá de forma inconsciente com
força bruta a sempre atingir o sexo oposto.”
―RANDERSON
FIGUEIREDO
O que sei é que essa questão é
muito mais profunda do que parece.
Habita a zona abissal de um
comportamento infantil, baseado em complexos materno e por vezes paterno
negativos, insegurança e uma busca incessante para provar algo a alguém cujo
interesse não se sustenta.
É fato que as mulheres são bem
mais desenvolvidas emocionalmente que nós homens, bem mais articuladas, mais
empáticas (muitas vezes) e não só com sua feminilidade habitual, mas com seu
aporte psicológico masculino bem sedimentado na sua grande maioria, o chamado
ANIMUS.
O que estou a mencionar é uma
constatação e não invencionice.
Tanto é que as meninas são
apresentadas à sociedade aos 15 anos, o famoso baile de debutante, isso
significa que é aos 15 e não aos 18 no caso de nós homens, que a maturidade
funcional cerebral dá o seu start nestas respectivas idades (Fonte desta
informação: O paradoxo da sabedoria – Elkonon Goldberg – Editora Melhoramentos).
As mulheres estão mais
habituadas na sua convivência com a mãe, tias, avós, primas e por aí vai a
lidar melhor com a sua vivência e aporte sexual, no caso a menstruação, ao
marcar justamente um novo passo para a puberdade.
Nós homens somos diferentes,
somos encapsulados numa traumatizante celeuma de ordens e virilidade de
machos-alfa: homem não chora, não se chateia, esconde suas emoções e
principalmente, sempre quando possível parte para a agressividade.
O resultado não poderia ser
diferente: homens imaturos, infantis, inseguros e são os eternos bebês da
mamãe. Na sua grande maioria, agem em grupo, o que mostra em grande parte sua
predileção por estar junto de outros homens, um caráter fálico e homoafetivo
diga-se de passagem.
Grande parte de nós homens usamos a mulher como mero
objeto sexual, no qual ele se sente o detentor e provedor desta mulher. Esse domínio extenuante é algo aterrador e muito, mas muito cruel.
É aí que mora o perigo.
A sua relação altamente
doentia com sua ANIMA, o seu aspecto psicológico feminino, faz com que este
mesmo homem analise sua metodologia de macho-alfa com base na truculência da
pior forma possível.
Justamente o que corrobora a
minha citação logo acima.
Outro dado importante, as
mulheres tendem a ser mais bem articuladas do que nós, são mais independentes e
versáteis. A prova disso, é que muitas procuram logo casar e sair da casa dos
pais, o homem não, muitos de nós protelam e adiam a saída o quanto podem.
Isso é um indicativo crucial
de que do jeito que está, a sociedade tenderá a ruir cada vez mais, a colapsar
se deixarmos as principais diretrizes diante dessa fragilidade que venho a
elencar desde o início do texto.
Uma integralização com o
matriarcado é urgente. E antigamente, muito antigamente, segundo o pesquisador
em antropologia Mircea Eliade, a
sociedade era puramente matriarcal.
Essa nossa atualização no
software foi extremamente nociva para uma reação de adoecimento em cadeia, a
gerar o surgimento de violência dos mais variados tipos, uma fuga da realidade,
como no uso de substâncias entorpecentes e drogas no geral, o aparecimento de
uma sombra individual e coletiva não integralizada para um melhor
relacionamento com a nossa psique e um caos sem tamanho na humanidade com
guerras, fome, ódio, maldade e muita violência.
Muitos destes fatores são
causados justamente por um não saber lidar com a própria masculinidade, já que
tivemos e ainda temos muitos estadistas homens a capitanear seus países.
Por falar em estadista, há muitos estadistas com masculinidade tóxica, e isso é um ponto altamente negativo na sua administração como um todo. Essas falas ruidosas são desconcertantes para nós homens.
O que leva a crer que todo homem é um assassino em potencial, o que não é verdade. É uma falácia das mais graves. Aliás, uma minoria chega a cometer crimes desta natureza.
Outro ponto que desejo abordar
é a falta que nós homens temos de sensibilidade com o outro, uma
intersubjetividade tacanha e medonha.
O grande referencial de nós
homens é a figura do pai, se não tiver pai, que foi o meu caso, tem o avô, o
tio, um primo, seja lá quem for, mas o importante é ter um referencial.
O homem que não tem esse
referencial pode desenvolver traços, eu disse, traços mais sensíveis e menos
másculos digamos. Não falo aqui numa questão puramente sexual, mas emocional e
numa conjuntura global.
O que nós homens devemos notar
diante de tudo isso é que essa aproximação com o papel do complexo paterno deve
ser positiva e a do materno também. Uma identificação nos dois polos causará um
ser humano sem espinha dorsal e nada saudável do ponto de vista psíquico.
Essa identificação dos
complexos causa nuances aterradoras.
No caso, se você que é homem
viu seu pai bebendo, batendo na sua mãe, dizendo palavrões e tendo um
comportamento dito insalubre, você tenderá a replicar possivelmente com a sua
parceira, pois ficou lá no inconsciente marcas de um verão que jamais foi
esquecido.
Do mesmo jeito, que se você
tiver uma ligação parental muito ligada ao papel da mãe, tenderá a ser um
indivíduo tímido, introspecto (o que é diferente de introvertido segundo a
tipologia junguiana), com disfunções emocionais das mais severas e tendo a sua
mãe como eterna guardiã da sua vida. Um complexo materno negativo.
É justamente o que o complexo
edipiano dito por Sigmund Freud tenta nos revelar. Uma ligação mais do que
umbilical que o filho tem com a sua genitora e o ódio quase que Shakesperiano
que o filho tem pela figura do pai.
Outra questão também bem
incisiva no comportamento masculino é a falta de rituais. Como assim rituais?
Em muitas tribos indígenas, principalmente as Sioux, havia para um melhor
aproveitamento do guerreiro, a entrada do jovem iniciado se dava por meio de
rituais.
É o chamado rito de iniciação,
hoje nada mais se fala em relação a isso. Quando havia a presença do arquétipo
do Velho Sábio, onde poderíamos tirar nossas dúvidas e pedir conselhos,
no caso a figura do pajé contribui para esse amadurecer de ideias do
homem-guerreiro.
O que percebo na nossa atual
conjuntura, é um homem extremamente fragilizado porque não possui mais
experiências para trocas saudáveis e para o fortalecimento de uma masculinidade
salutar.
Isso é muito prejudicial, é o
modus-operandi de um tormento coletivo.
Essa falta toda de empatia, de
sensibilidade e de acolhimento de nossa parte, de nós homens, é o resultado
justamente do enfraquecimento e de uma crescente onda do feminismo, e não do feminino.
É importante salientar que
feminismo não é o contrário de machismo.
São pontos divergentes e nada atenuantes.
A meu ver o patriarcado mais cedo ou mais tarde irá ruir, assim como esse
sistema avassalador também.
Nós homens devemos perceber
que ao ativar a consciência, sim, porque eu sempre defendi que o despertar da
consciência é o que nos faz viver uma vida em plenitude e simbólica, pois o
símbolo se manifesta através da psique, não nos faz menos homens, muito pelo
contrário, fortalece nossa presença de forma sutil e despretensiosa.
Perceber isso, é libertador.
Nós homens, repetimos padrões, e muitos padrões tóxicos, é bom frisar. Padrões esses transmitidos pelo inconsciente coletivo como algo natural e válido. São esses padrões que merecem e devem ser quebrados.
Pedir ajuda não é feio ou vai
diminuir a testosterona, muito pelo contrário, procurar alguém técnico que
entenda psiquicamente o que acontece é vivificador.
Um terapeuta é uma saída para
esse imbróglio emocional que muitos de nós se encontra.
Procurar por terapia é uma
atitude das mais nobres. Salva vidas. Não procurar meramente uma figura
religiosa, como um padre ou pastor, mas um terapeuta, esse profissional sim é o
mais indicado.
Como já mencionei, tendemos a
nos fechar, a mascarar os acontecimentos frustrantes e a remediar o sintoma,
daí o crescimento da depressão e risco de suicídios. Eu por exemplo, faço terapia há 16 anos.
Como o próprio Jung disse: deve-se
focar na causa e não no sintoma.
E nada melhor a nos servir de
lição como o sofrimento, ah sim, o sofrimento é o catalisador para o verdadeiro
despertar da consciência, para o nosso processo de individuação.
É através dele que podemos
conseguir um aperfeiçoamento moral e emocional da sociedade como um todo, não
só de nós homens, mas uma reintegração com a ANIMA e um bom diálogo com o
ANIMUS presente na mulher.
Essa integração não se dá da
noite pro dia, óbvio que não.
Requer uma reeducação emocional
e moral do indivíduo. Como mencionei, um despertar urgente da consciência. Do
jeito que está, a sociedade apresenta um modelo insustentável, carente de boas
ações e boas reflexões.
O ressurgimento de um
matriarcado poderia ser um bom começo.
Reunir os dois, tanto a
presença masculina quanto a feminina, e perceber que a junção dos dois é uma
simbiose necessária para uma melhoria contínua e gradual de uma narrativa
global e cuja sanidade coletiva deve ser preservada.
Não acredito que essa
discrepância feminista possa salvaguardar os aspectos preponderantes do
feminino, o feminismo é um movimento político e não atende às demandas da
mulher, mas uma agenda política, também baseada em pressupostos nada ortodoxos
ao praticar muitas vezes uma misandria vexatória e excludente, um contraponto ao que muitos
de nós pratica com as mulheres: a misoginia.
Esse cabo-de-guerra é desumano
e incoerente.
Lutar verdadeiramente por
direitos não significa aterrar e soterrar os direitos de outrem só porque os
meus não foram atendidos, isso aí tem outro nome: cancelamento social.
“Se você quer que digam algo,
peça a um homem. Se você quer que façam algo, peça a uma mulher.”
―MARGARET
TATCHER
Como bem disse Freud: o ser
humano ainda está engatinhando no campo das emoções.
E para arrematar o texto de
hoje, não estou aqui para simplesmente apontar, mas para provocar reflexões e
trazer sugestões sobre o pensar e sobre comportamento e uma forma geral.
Refiro-me ao ator global
Juliano Cazarré, ele vem com uma proposta sobre masculinidade e o papel do
homem na sociedade contemporânea, um congresso chamado: O
Farol e a Forja.
O ator vem simplesmente sendo
cancelado de forma orgânica.
Muitos nem viram a proposta
dele, nem sequer leram o índice sobre os pontos do congresso e já foram sem
base nenhuma achincalhando o idealizador da proposta.
Ele ontem (12/05) participou
do programa da Globo News, com uma debatedora, uma psicanalista e um influencer
sobre essas questões de gênero.
Assisti hoje pela internet.
Algumas falas dele, principalmente sobre índices de violência de gênero foram
equivocadas, mas é bem verdade que a psicanalista, senhora Vera Iaconelli,
propositalmente o colocou contra a parede, quando disse: “nem
todo homem, mas sempre um homem...”.
Revela uma fala problemática
até da própria profissional psi, um preconceito velado e culpabilizante, transformando-nos
como disse no início em grandes vilões.
Sinceramente não vi nada demais
em relação a esse congresso ministrado pelo ator, acredito que deve ser uma
tentativa de ressurgimento dos rituais que já citei.
Não tem nada a ver dele ensinar
a ser homem, até mesmo porque isso se aprende com a vida, e não coçando o saco
escrotal e depois cuspindo no chão feito um “macho de verdade” (tsc tsc).
Infelizmente o mal de muitos
brasileiros é sofrer com a falta de habilidade em interpretar texto, de ter a
sua própria mentalidade, sua autenticidade e coerência.
A grande maioria segue a
boiada.
Eu, graças a Deus estou em
constante busca para melhorar como cidadão, uma das formas é não só escrever
estes textos aqui na plataforma, mas procurar me comportar de acordo com o que
acredito.
Fui criado com os meus avós, tive
um genitor ausente e graças a Deus, acredito que não teria sido metade do que
sou hoje se tivesse com a presença do meu pai biológico, meu avô muito me ensinou
e me ensina até hoje, tenho a presença de um tio também e padrinho que é muito
presente, consegui suprir a demanda de referências masculinas na minha jornada.
E uma saudável relação com a minha amada mãe, que já nos deixou vai fazer um ano,
mês que vem.
Toda essa trama é o retrato
revelador de uma sociedade que ainda padece de uma doença proveniente do “Homo
Acha Que Sapiens Sapiens”.
Para mim há valores que são
inegociáveis, principalmente sobre moralidade e ética, tecer valores diante do
que realmente merecemos e podemos ir em busca é o que nos garante nossas
melhorias.
É disso que temos que ir em
busca. Tentar fazer. Tentar agir.
E ao cantar duas músicas da
MPB que versam muito sobre o que falamos hoje, àquela do Gonzaguinha:
Um
Homem Também Chora (Guerreiro Menino)
Gonzaguinha
Um
homem também chora
Menina
morena
Também
deseja colo
Palavras
amenas
Precisa
de carinho
Precisa
de ternura
Precisa
de um abraço
Da própria candura
E a do grande guitarrista
Pepeu Gomes: Masculino e Feminino.
Masculino
e Feminino
Pepeu
Gomes
Ôu!
Ôu!
Ser um
homem feminino
Não
fere o meu lado masculino
Se
Deus é menina e menino
Sou
Masculino e Feminino...
Olhei
tudo que aprendi
E um belo dia eu vi...
E é justamente o que
Gonzaguinha e Pepeu Gomes cantaram com tanta precisão, um homem que chora, que
deseja colo, que carrega o feminino sem perder o masculino. Não é fraqueza. É
individuação. É o processo que Jung descreveu como o caminho do ser humano em
direção à sua totalidade.
Aquela integração entre ANIMA
e persona, entre sombra e consciência, que não se completa nunca de uma vez,
mas que exige que a gente continue andando. A masculinidade salutar não está no
silêncio da dor nem na brutalidade do macho-alfa, mas nessa disposição honesta
de olhar para dentro e perguntar: quem sou eu além do que me ensinaram a ser?
Esse é o verdadeiro rito de
iniciação disponível para nós hoje, não nas tribos Sioux, não nos rituais
perdidos, mas no consultório, no livro aberto, na conversa difícil, no choro
que a gente finalmente se permite. É um começo. E começos, como diria Jung, já são
tudo.
E assim encerro o texto de hoje, tentei caprichar ao ter como base algumas obras de analistas junguianos e da Simone de Beauvoir, e claro, a opinião deste que vos fala permeou todo o texto.
Espero que tenha gostado, vou
deixar as referências bibliográficas aqui embaixo, até a próxima, se Deus
permitir.
É IMPORTANTE DIZER: NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E MUITO MENOS PSIQUIATRA, OS ESTUDOS AQUI NESTA PLATAFORMA SÃO DIRECIONADOS PARA UM MELHOR APROVEITAMENTO DA VIDA COMO UM TODO, SOU AUTODIDATA EM ALGUNS ASSUNTOS, PSICOLOGIA PROFUNDA É UM DELES, ESTUDO DESDE 2009.
MUITO
OBRIGADO PELA VISITA E PARTICIPAÇÃO.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BEAUVOIR, Simone – O Segundo
Sexo. Nova Fronteira. Ano: 2020.
EDINGER, Edward F. – Ego e
Arquétipo. Editora Cultrix. Ano: 2020.
HOLLIS, James – Sob a Sombra
de Saturno. Editora Paulus. Ano: 2019.
WHITMONT, Edward C. – A Busca
do Símbolo. Editora Cultrix. Ano: 2002.


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