JESUS CRISTO – UMA VIDA SIMBÓLICA | PEDAGOGIA DE DEUS ESPECIAL QUARESMA

março 19, 2025 Randerson Figueiredo 0 Comments

É da roseira que provêm os espinhos que sutilmente nos machuca, mas foi a partir das mãos dos homens a feitura de uma coroa que feriu a humanidade.

Randerson Figueiredo

 

Olá, leitor da plataforma Saber Jung, hoje com mais uma postagem da Série Pedagogia de Deus, como é sabido, a série de que mais gosto, pois consigo somente nela elencar a tríade que sustenta não somente este blog, mas a psicologia profunda como um todo: filosofia, espiritualidade e psicologia.

 

E no feriado de hoje, dia de São José, nada melhor do que retomar a série, faz mais de um ano que não pesquiso e escrevo sobre estas temáticas. Quero dizer, nunca deixei de pesquisar, mas escrever retomo hoje esta série.

 

Estamos no tempo quaresmal, hoje sobre JESUS CRISTO - UMA VIDA SIMBÓLICA, quais suas implicações simbólicas e perspectivas dentro da psicologia profunda?

 

É o que vamos trabalhar no texto de hoje, pelo menos um pouco.

 

Well... Quando se fala em Bíblia, exegese, hermenêutica e outras cositas más do universo canônico e perspectivas eclesiais é bom sempre parar para refletir e ter a convicção de que a Bíblia é um retrato psicológico, antropológico e sociológico de uma sociedade...

 

Mas com um adendo do tamanho do “bonde”: em aspectos simbólicos. Tudo isso que citei, mas em um retrato simbólico. A simbologia da cristandade ocidental é puramente enraizada e se apresenta nos aspectos primordiais da psique.

 

Em outras palavras: a psique se manifesta através de símbolos.

 

Às vezes eu sei que é difícil de entender e compreender isso, mas é necessário, e muito. Ah, mas muita gente diz assim: eu a partir de hoje serei igual a Cristo! Vou seguir todos os seus passos como Ele assim o fez.

 

Pura blasfêmia e tempo perdido.

 

Ora, se nem Jesus se achava perfeito, nós é que seremos? Falta uma séria vontade e desejo de tentar perpetrar uma melhora em nós mesmos, sendo bem sincero.

 

É como Jung disse: "é como tentar macaquear os traços do Mestre" (Psicologia e Religião – Obras Completas 11/1 – parágrafo 522). O sentido de Imitação de Cristo transcende, vai muito além de imitá-lo de forma sorrateira e rasteira, mas tentar encontrar nosso próprio EU individuado, encontrar nossa própria individuação.

 

A tentativa de imitar a Cristo de forma literal constitui um erro! E grave! Um erro concretista na compreensão de um símbolo. A vida de Cristo deve ser vista de forma simbólica e não puramente um arremedo servil de imitação barata. Pois jamais conseguiremos alcançar sua abnegação e concretude como ser humano.

 

Devemos tentar compreender Jesus Cristo do ponto de vista subjetivo e não objetivo. Se se tentarmos ir por esse caminho aí excelente, os ensinamentos de Jesus se tornam uma espécie de manual do processo de individuação. 


Quer um bom exemplo?

 

As Bem-Aventuranças em Mateus 5:3-10. A minha tradução é a Bíblia de Jerusalém, só para constar. Psicologicamente, essa passagem reflete a exaltação do Ego esvaziado ou não inflado.

 

Sabemos que à época de Jesus o clima não era dos melhores na sociedade que Ele estava inserido, então a melhor saída para ter um contato com a psique transpessoal é esvaziar o Ego de uma identificação inflada.

 

Para perceber como algo distinto de si.


As Bem-Aventuranças são um manual psicológico da individuação.

 

O próprio nome: Jesus Cristo é algo muito interessante de avaliarmos. O nome Jesus representa o Ego, o aspecto humano, o aspecto falível e do Ego ideal.

 

O Cristo já é a representação psicológica do Self (Si-mesmo).

 

Ou seja, Jesus Cristo é o aspecto duplo tanto do encontro do Ego quanto do Self, a imagem simbólica perfeita da totalidade, pois ele em aspectos humanos representa a nossa vivência terrena (menos no pecado), e em aspectos transcendentes a própria encarnação do Self, tudo junto ao mesmo tempo agora!

 

Tanto é que no livro O Arquétipo Cristão, o autor, Edward F. Edinger analisa de forma bastante profunda sobre essas questões exegéticas e teológicas. Numa visão bem ampla.

 

Uma delas é sobre o demônio.

 

Ele aparece cerca de 3 vezes no Antigo testamento, no Livro de Jó, e nada mais nada menos que 66 vezes no Novo Testamento. O que isso significa? Como Jesus é a representação da totalidade aqui na Terra, a Suprema Bondade, ele necessita de uma compensação, não esqueçamos: quanto mais luz mais sombra.

 

O demônio arrisco dizer: é a sombra de Deus. Como bem esclarece a terapeuta junguiana Françoise O'kane na sua excelente obra A Sombra de Deus, obra do ano de 1999.

 

Essas aparições demoníacas no NT reflete como disse uma compensação do aspecto luminoso de Jesus, a sombra, assim como na obra Interpretação psicológica do Dogma da Trindade nas Obras Completas – 11/2 – Jung aborda sobre o quatérnio e a Virgem Maria, um posicionamento puramente teológico, enquanto que ele, Jung desperta uma coerente abordagem: para formar a quaternidade não seria interessante a presença da sombra? Ou seja do demônio ao invés da Virgem Maria?


Concordo com Jung. Caso contrário, teríamos somente o aspecto luminoso.

 

A Igreja habilmente adicionou a presença da Virgem Maria para dar seguimento à Mariolatria, onde esta se uniria à Santíssima Trindade como forma proeminente do quatérnio ou quaternidade, símbolo da totalidade.

 

Sobre estes símbolos temos alguns bem legais:


- 4 Evangelistas

- 12 apóstolos

- Alfa e Ômega

- A cruz

 

É o que nós chamamos de fenomenologia do Si-mesmo.

 

Quando Jesus Cristo é confrontado com a Lei Mosaica, vide a passagem da mulher acusada de adultério, fica evidenciado os aspectos das leis terrenas.

 

Mas quando Ele passa seus ensinamentos, fica bem claro que ele se refere aos estados psíquicos interiores, através das passagens psicológicas.

 

É bem bacana afirmar que a projeção psicológica foi formulada por Jesus há mais de 2.000 anos, Ele sempre esteve bem à frente de questões puramente psicossociais.

 

Um exemplo claro é a passagem da trave e do argueiro (Mateus 7:3-5).

 

Outra questão também é o chamado Estado de identidade inconsciente, onde praticamente sempre os inimigos são os próprios familiares, há uma identificação inconsciente com os familiares, pois são as pessoas com as quais mais se convive, sabem as tuas dificuldades e pontos fracos.


Por isso um dos mandamentos é honrar pai e mãe. Justamente para sanar esse imbróglio de identificação inconsciente. Bacana, né?!


E sobre a cruz?

 

Ora, a cruz numa visão psicológica representa o destino de Cristo. Em outras palavras, representa um renascimento para o Ego, pois o Ego (Jesus) foi crucificado numa mandala (a cruz – representa a totalidade).

 

Faço questão de abordar sobre esses assuntos aqui no blog, pois percebo uma grande incidência, seja lendo ou ouvindo os noticiários de que muitas neuroses têm um condicionamento religioso.

 

O próprio Freud questiona sobre isso em O Futuro de uma Ilusão, salvo engano, obra de 1927.

 

Freud demonstra que a religião (“a neurose obsessiva universal da humanidade”) depende de sentimentos infantis não resolvidos e afirma ser ela, bem como seus dogmas, a culpada pela atrofia intelectual da maior parte dos seres humanos.

 

Então é isso, todos esses questionamentos trazidos pra cá hoje à luz da psicologia profunda, remetem ao fator abertura de consciência e interpretação simbólica das Sagradas Escrituras.

 

Reitero, não é possível humanamente, seguir a mensagem de Jesus sem antes entendê-lo simbolicamente. Sem esmiuçar os pormenores disso ou daquilo, dessa ou daquela passagem.

 

A Bíblia está aí como um manual a ser estudado de forma interdisciplinar, afinal, é um recorte histórico e antropológico bem específico, isso nos insere em contextos bem precisos.

 

Decorar passagens como alegorias de vida, não é o caminho.

 

A Bíblia é muito mais do que processos mnemônicos, do que vociferar versículos e dizer: ah mas a Bíblia diz, a Bíblia diz...

 

Acredito que o que ela realmente quer dizer ela não explicita, temos que procurar e ter a sensibilidade de trazer à lume suas prerrogativas e conceitos não só teológicos, mas da vida como um todo.

 

Vou encerrar por hoje, vou fazer de tudo para os textos ficarem cada vez mais objetivos, mais concisos e cheios de nuances, de indicações, só no texto de hoje indiquei várias obras e citações.

 

Espero que tenha gostado, até a próxima, se Deus permitir.

 

OBS.: 

É IMPORTANTE MENCIONAR QUE NÃO SOU...

PSICÓLOGO

PSICANALISTA

PSIQUIATRA

AS PESQUISAS ELABORADAS NESTA PLATAFORMA SÃO EVIDENCIADAS EM ESTUDO INDIVIDUAL (AUTODIDATA), DE FORMA CONCISA E INTERDISCIPLINAR BASEADA NAS OBRAS COMPLETAS DE CARL GUSTAV JUNG E OBRAS CORRELATAS DE ANALISTAS JUNGUIANOS.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

BÍBLIA DE JERUSALÉM – Editora Paulus

EDINGER, Edward F. – Ego e Arquétipo, uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung – Editora Cultrix – Ano: 2020

EDINGER, Edward F. – O arquétipo cristão, um comentário junguiano sobre a vida de Cristo – Editora Cultrix – Ano: 1988

FREUD, Sigmund – O futuro de uma ilusão – Editora Companhia das Letras (Obras Completas de Freud) – Ano: 2014

JUNG, Carl Gustav – O símbolo da transformação na missa (Obras Completas 11/3) – Editora Vozes – Ano: 2012

JUNG, Carl Gustav – Interpretação psicológica do dogma da trindade (Obras Completas 11/2) – Editora Vozes – Ano: 2013

O'KANE, Françoise - A sombra de Deus - Editora Axis Mundi - Ano: 1999

WHITMONT, Edward C. – A busca do símbolo, conceitos básicos de Psicologia Analítica – Editora Cultrix – Ano: 2002

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