JESUS CRISTO – UMA VIDA SIMBÓLICA | PEDAGOGIA DE DEUS ESPECIAL QUARESMA
É da roseira que provêm
os espinhos que sutilmente nos machuca, mas foi a partir das mãos dos homens a feitura de uma coroa
que feriu a humanidade.
Randerson Figueiredo
Olá, leitor da
plataforma Saber Jung, hoje com mais uma postagem da Série Pedagogia de Deus,
como é sabido, a série de que mais gosto, pois consigo somente nela elencar a
tríade que sustenta não somente este blog, mas a psicologia profunda como um
todo: filosofia, espiritualidade e psicologia.
E no feriado de hoje,
dia de São José, nada melhor do que retomar a série, faz mais de um ano que não
pesquiso e escrevo sobre estas temáticas. Quero dizer, nunca deixei de pesquisar, mas escrever retomo hoje esta série.
Estamos no tempo
quaresmal, hoje sobre JESUS CRISTO - UMA VIDA SIMBÓLICA, quais suas implicações
simbólicas e perspectivas dentro da psicologia profunda?
É o que vamos trabalhar
no texto de hoje, pelo menos um pouco.
Well... Quando se fala
em Bíblia, exegese, hermenêutica e outras cositas más do universo canônico e
perspectivas eclesiais é bom sempre parar para refletir e ter a convicção de
que a Bíblia é um retrato psicológico, antropológico e sociológico de uma
sociedade...
Mas com um adendo do
tamanho do “bonde”: em aspectos simbólicos. Tudo isso que citei, mas em um
retrato simbólico. A simbologia da cristandade ocidental é puramente enraizada
e se apresenta nos aspectos primordiais da psique.
Em outras palavras: a
psique se manifesta através de símbolos.
Às vezes eu sei que é difícil de entender e compreender isso, mas é necessário, e muito. Ah, mas muita gente diz assim: eu a partir de hoje serei igual a Cristo! Vou seguir todos os seus passos como Ele assim o fez.
Pura blasfêmia e tempo
perdido.
Ora, se nem Jesus se
achava perfeito, nós é que seremos? Falta uma séria vontade e desejo de tentar
perpetrar uma melhora em nós mesmos, sendo bem sincero.
É como Jung disse: "é
como tentar macaquear os traços do Mestre" (Psicologia e Religião – Obras
Completas 11/1 – parágrafo 522). O sentido de Imitação de Cristo transcende,
vai muito além de imitá-lo de forma sorrateira e rasteira, mas tentar encontrar
nosso próprio EU individuado, encontrar nossa própria individuação.
A tentativa de imitar a
Cristo de forma literal constitui um erro! E grave! Um erro concretista na
compreensão de um símbolo. A vida de Cristo deve ser vista de forma simbólica e
não puramente um arremedo servil de imitação barata. Pois jamais conseguiremos
alcançar sua abnegação e concretude como ser humano.
Devemos tentar compreender Jesus Cristo do ponto de vista subjetivo e não objetivo. Se se tentarmos ir por esse caminho aí excelente, os ensinamentos de Jesus se tornam uma espécie de manual do processo de individuação.
Quer um bom exemplo?
As Bem-Aventuranças em
Mateus 5:3-10. A minha tradução é a Bíblia de Jerusalém, só para constar.
Psicologicamente, essa passagem reflete a exaltação do Ego esvaziado ou não
inflado.
Sabemos que à época de
Jesus o clima não era dos melhores na sociedade que Ele estava inserido, então
a melhor saída para ter um contato com a psique transpessoal é esvaziar o Ego
de uma identificação inflada.
Para perceber como algo
distinto de si.
As Bem-Aventuranças são
um manual psicológico da individuação.
O próprio nome: Jesus
Cristo é algo muito interessante de avaliarmos. O nome Jesus representa o Ego,
o aspecto humano, o aspecto falível e do Ego ideal.
O Cristo já é a
representação psicológica do Self (Si-mesmo).
Ou seja, Jesus Cristo é
o aspecto duplo tanto do encontro do Ego quanto do Self, a imagem simbólica
perfeita da totalidade, pois ele em aspectos humanos representa a nossa
vivência terrena (menos no pecado), e em aspectos transcendentes a própria encarnação
do Self, tudo junto ao mesmo tempo agora!
Tanto é que no livro O
Arquétipo Cristão, o autor, Edward F. Edinger analisa de forma bastante
profunda sobre essas questões exegéticas e teológicas. Numa visão bem ampla.
Uma delas é sobre o
demônio.
Ele aparece cerca de 3
vezes no Antigo testamento, no Livro de Jó, e nada mais nada menos que 66 vezes
no Novo Testamento. O que isso significa? Como Jesus é a representação da
totalidade aqui na Terra, a Suprema Bondade, ele necessita de uma compensação,
não esqueçamos: quanto mais luz mais sombra.
O demônio arrisco dizer: é a sombra de Deus. Como bem esclarece a terapeuta junguiana Françoise O'kane na sua excelente obra A Sombra de Deus, obra do ano de 1999.
Essas aparições
demoníacas no NT reflete como disse uma compensação do aspecto luminoso de
Jesus, a sombra, assim como na obra Interpretação psicológica do Dogma da
Trindade nas Obras Completas – 11/2 – Jung aborda sobre o quatérnio e a Virgem
Maria, um posicionamento puramente teológico, enquanto que ele, Jung desperta
uma coerente abordagem: para formar a quaternidade não seria interessante a
presença da sombra? Ou seja do demônio ao invés da Virgem Maria?
Concordo com Jung. Caso contrário, teríamos somente o aspecto luminoso.
A Igreja habilmente
adicionou a presença da Virgem Maria para dar seguimento à Mariolatria, onde
esta se uniria à Santíssima Trindade como forma proeminente do quatérnio ou
quaternidade, símbolo da totalidade.
Sobre estes símbolos
temos alguns bem legais:
- 4 Evangelistas
- 12 apóstolos
- Alfa e Ômega
- A cruz
É o que nós chamamos de
fenomenologia do Si-mesmo.
Quando Jesus Cristo é
confrontado com a Lei Mosaica, vide a passagem da mulher acusada de adultério,
fica evidenciado os aspectos das leis terrenas.
Mas quando Ele passa
seus ensinamentos, fica bem claro que ele se refere aos estados psíquicos
interiores, através das passagens psicológicas.
É bem bacana afirmar
que a projeção psicológica foi formulada por Jesus há mais de 2.000 anos, Ele
sempre esteve bem à frente de questões puramente psicossociais.
Um exemplo claro é a
passagem da trave e do argueiro (Mateus 7:3-5).
Outra questão também é
o chamado Estado de identidade inconsciente, onde praticamente sempre os
inimigos são os próprios familiares, há uma identificação inconsciente com os
familiares, pois são as pessoas com as quais mais se convive, sabem as tuas
dificuldades e pontos fracos.
Por isso um dos
mandamentos é honrar pai e mãe. Justamente para sanar esse imbróglio de
identificação inconsciente. Bacana, né?!
E sobre a cruz?
Ora, a cruz numa visão
psicológica representa o destino de Cristo. Em outras palavras, representa um
renascimento para o Ego, pois o Ego (Jesus) foi crucificado numa mandala (a
cruz – representa a totalidade).
Faço questão de abordar
sobre esses assuntos aqui no blog, pois percebo uma grande incidência, seja
lendo ou ouvindo os noticiários de que muitas neuroses têm um condicionamento
religioso.
O próprio Freud
questiona sobre isso em O Futuro de uma Ilusão, salvo engano, obra de 1927.
Freud demonstra que a
religião (“a neurose obsessiva universal da humanidade”) depende de sentimentos
infantis não resolvidos e afirma ser ela, bem como seus dogmas, a culpada pela
atrofia intelectual da maior parte dos seres humanos.
Então é isso, todos
esses questionamentos trazidos pra cá hoje à luz da psicologia profunda,
remetem ao fator abertura de consciência e interpretação simbólica das Sagradas
Escrituras.
Reitero, não é possível
humanamente, seguir a mensagem de Jesus sem antes entendê-lo simbolicamente.
Sem esmiuçar os pormenores disso ou daquilo, dessa ou daquela passagem.
A Bíblia está aí como
um manual a ser estudado de forma interdisciplinar, afinal, é um recorte
histórico e antropológico bem específico, isso nos insere em contextos bem
precisos.
Decorar passagens como
alegorias de vida, não é o caminho.
A Bíblia é muito mais
do que processos mnemônicos, do que vociferar versículos e dizer: ah mas a
Bíblia diz, a Bíblia diz...
Acredito que o que ela
realmente quer dizer ela não explicita, temos que procurar e ter a
sensibilidade de trazer à lume suas prerrogativas e conceitos não só
teológicos, mas da vida como um todo.
Vou encerrar por hoje,
vou fazer de tudo para os textos ficarem cada vez mais objetivos, mais concisos
e cheios de nuances, de indicações, só no texto de hoje indiquei várias obras e
citações.
Espero que tenha
gostado, até a próxima, se Deus permitir.
OBS.:
É IMPORTANTE MENCIONAR QUE NÃO SOU...
PSICÓLOGO
PSICANALISTA
PSIQUIATRA
AS PESQUISAS ELABORADAS NESTA PLATAFORMA SÃO EVIDENCIADAS EM ESTUDO INDIVIDUAL (AUTODIDATA), DE FORMA CONCISA E INTERDISCIPLINAR BASEADA NAS OBRAS COMPLETAS DE CARL GUSTAV JUNG E OBRAS CORRELATAS DE ANALISTAS JUNGUIANOS.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BÍBLIA DE JERUSALÉM –
Editora Paulus
EDINGER, Edward F. –
Ego e Arquétipo, uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais
de Jung – Editora Cultrix – Ano: 2020
EDINGER, Edward F. – O arquétipo cristão, um comentário junguiano sobre a vida de Cristo – Editora Cultrix – Ano: 1988
FREUD, Sigmund – O
futuro de uma ilusão – Editora Companhia das Letras (Obras Completas de Freud)
– Ano: 2014
JUNG, Carl Gustav – O
símbolo da transformação na missa (Obras Completas 11/3) – Editora Vozes – Ano:
2012
JUNG, Carl Gustav –
Interpretação psicológica do dogma da trindade (Obras Completas 11/2) – Editora
Vozes – Ano: 2013
O'KANE, Françoise - A sombra de Deus - Editora Axis Mundi - Ano: 1999
WHITMONT, Edward C. – A
busca do símbolo, conceitos básicos de Psicologia Analítica – Editora Cultrix –
Ano: 2002


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