UMA VIOLÊNCIA ARQUETÍPICA E A SOMBRA DE UMA HUMANIDADE FERIDA
A
vida dos homens é violenta porque suas almas foram violadas. – James Hollis
Muito
boa tarde, leitor...
Nossa,
há quanto tempo não faço minhas saudações com o senhor ou a senhora, ou se me permite:
você. Você que me acompanha nestes 11 anos de plataforma (dia 24 de setembro
último).
Diante
de tudo que está acontecendo, o mundo em chamas, acabamos por sair chamuscados
com tamanhas labaredas a acender nosso incensos clamando pela paz.
Nestes
últimos tempos que estive afastado, cheguei a pensar a limar de uma vez por
todas este nosso humilde e singelo blog sobre a perspectiva junguiana, mas
voltei atrás. Acredito que nossa interação merece um adendo, merece uma pausa,
mas não um stop para sempre.
Hoje
acordei com um imenso desejo de escrever aqui, como antes.
O
tema de hoje é espinhoso, pra não dizer cabeludo: violência. E eu vou mais
além, uma violência arquetípica, uma violência incrustada em todos nós.
E
claro, gera uma humanidade ferida.
Eu
já escrevi inúmeras vezes sobre esse tema, mas a “pegada” de hoje, vamos por
assim dizer será mais embasada em conceitos da psicologia profunda mesmo.
Tomei
por base algumas referências da psicologia analítica, de Carl Gustav Jung, e
também de um grande analista junguiano estadunidense chamado James Hollis e o
seu livro “Sob a sombra de saturno”.
Eu
estava afastado, mas sempre a manter as leituras em dia, é importante dizer
isso, sempre a buscar boas referências e a integrar sempre que possível os diversos
assuntos.
Essa
obra do James Hollis fala explicitamente sobre a temática de hoje, um tema que
a cada dia se torna mais insustentável e difícil de lidar.
Quanto
mais lidamos com uma sociedade patriarcalizada e machista, a sociedade irá
padecer cada vez mais. Isso é uma constatação. Não tem para onde escapar,
infelizmente.
Um
patriarcado vivo e pulsante, nos torna padecidos de enfermidades e chagas
letais: misoginia, racismo, estupro, feminicídio, homofobia e dentre outras
máculas.
Eu
vou me dar como exemplo.
Fui
criado por avós maternos, e nesse período que estive sob os cuidados deles, aí
se juntam tias e tios e bisavós, recebi uma criação graças a meu bom Deus
excelente.
Na
minha família, dominada pela presença de mulheres: mãe – tias – avó e bisavó –
ajudante do lar – babá (sim, eu tive babá), eu contei com a presença de
mulheres muito fortes como exemplo, todas elas.
Eu
sempre me espelhei no meu avô, tio e bisavô, mas principalmente nas mulheres
aguerridas da minha família. Acredito que isso foi de um impacto crucial na
minha formação como ser humano.
Perceber
essa manifestação do animus em todas
elas foi de uma vitalidade e da mais importância que você, caro leitor, nem
imagina como fui afetado positivamente diante de tudo isso.
Sabe
porquê que digo isso? Por causa da opressão que sofremos.
Nós
homens lidamos com muitos dirtúrbios emocionais: ansiedade, depressão, insônia,
vício em pornografia, vícios em álcool, drogas, comida, apostas e jogos
eletrônicos.
E
sofremos calados, sozinhos, não falamos com ninguém pelo que passamos, e tudo
isso por medo do não enfrentamento de uma realidade que mais oprime do que
compreende.
Uma
sociedade que já se habituou a conclamar que homem que é homem não chora, não
demonstra sentimentos e que não se dobra de forma alguma seja por que
intempéries passar.
Isso
é de uma crueldade absurda, que impomos a nós mesmos.
Toda vez que o patriarcado grita com a
sociedade, um tanto assim de violência sempre escapa pelas extremidades. –
Randerson Figueiredo
É justamente sobre essa sensação de abandono que estou a falar no texto de hoje também, um assunto vai puxando o outro, sempre a tentar chegar ao fio da meada.
Quando
estava a ler o texto do livro de Hollis, percebi muito que nós homens somos muito
chegados a disputar, a competir e a sempre mostrar ao outro o quanto aguentamos
os baques da vida.
E
como sempre temos uma queda por estatísticas, aí vai algumas:
83%
das mortes por homicídios e acidentes no Brasil são de homens; homens vivem 7
anos a menos que as mulheres; homens suicidam-se 4 vezes mais que as mulheres;
17% dos homens lidam com algum nível de dependência alcoólica; quando sofrem um
abuso sexual, demoram em média 20 anos até contar isso para alguém; 30%
enfrentam ejaculação precoce ou disfunção erétil; homens são 95% da população
prisional no Brasil; a maior parte dos encarcerados são jovens, periféricos e
com ausência de figura paterna. Desse grupo os homens negros e LGBT’s são mais
atingidos.
E
aí? O que será que essas estatísticas desejam revelar?
Para
mim elas dizem tudo e mais alguma coisa. Estou a digitar este texto aqui do meu
quarto na casa dos meus avós com a janela aberta e com um céu lindíssimo, de um
azul-que-te-quero-azul, com meus 33 anos nos couros eu nunca vi tanto aparato
de violência espalhados mundo afora, nunca.
Nós
homens buscamos um ideal, e esse ideal é estereotipado.
É
um ideal que já não se sustenta mais, ou melhor, nunca se sustentou. Essa obra
do James Hollis focaliza justamente as feridas masculinas que regem nosso
comportamento.
Para
Hollis carregamos 8 segredos milenares em nossos corações.
1) A vida dos homens é tão governada por
expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a
vida das mulheres. É algo que fica bem claro na obra.
Aqui pode-se mencionar que nós homens
somos tão influenciados quanto às mulheres no que diz respeito às nossas
participações sociais, nós temos que amputar nossas perspectivas e idealizações
na realidade, para atender a uma demanda cada vez mais restritiva e cruel
imposta por nós mesmos. Para corresponder a uma expectativa do machismo
cultural.
2) A vida dos homens é basicamente
governada pelo medo.
Nós temos medo do outro, num sentido
mais genérico, mas principalmente das mulheres em relação ao complexo materno,
por isso procuramos dominá-las a qualquer custo. Outro homem é visto como
material competitivo e não como irmão. E por fim, temos medo também do mundo
como um todo: difícil, impenetrável e inconstante.
3) O poder do feminino é imenso na
organização psíquica do homem.
Já puxando pro nosso coleguinha, o papai
Freud, na psicanálise, a mãe (complexo materno) exerce um poder preponderante
na vida de um homem, e nas mulheres também.
Por ser uma presença psíquica
inconsciente e confrontada pela estrutura social patriarcal, nós temos uma
relação distorcida com o feminino.
Se por um lado pode ser um amor
desenfreado, por outro pode ser um relacionamento tóxico; insegurança na
identidade sexual e tratar o sexo, eu digo o ato sexual, como um ato não só de
libertinagem, mas de libertação do complexo materno.
4) Os homens conluiam-se numa conspiração
de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional.
Esse a meu ver, é um dos pontos mais
delicados do texto de hoje. Nós homens temos uma espécie de aliança com outros
homens, uma espécie de pacto do silêncio, que se rompido pode gerar grandes
transtornos. Aquela falácia de que homem que é homem não chora, de que é
proibido demonstrar sentimentos, de que não pode ser frágil e vulnerável. Isso
não é só corroborado por nós homens, mas principalmente pelas mulheres. Muitas
mulheres estão embevecidas com a tragédia do patriarcado e estão extremamente
contaminadas, por uma masculinidade tóxica. Pagamos um alto preço por
demonstrar sentimentos.
5) O ferimento é necessário porque os
homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno.
Essa questão também é algo importante a
ser abordado no texto de hoje, de que nós homens necessitamos deixar a mãe,
para seguir a jornada.
Para amadurecer é necessário sofrimento.
6) A vida dos homens é violenta porque suas
almas foram violadas.
Essa obra do pesquisador Hollis é muito
instigante justamente porque ele exemplifica que nós deixamos de buscar e de
vivenciar uma vida simbólica, uma vida com significado e principalmente sem
ritos significativos de passagem.
Ritos significativos de passagem?
Sim, veja bem, os ritos são atos
simbólicos que atuam diretamente na nossa psique, são eles que podem ajudar a
transformar simbolicamente uma vida monótona em cheia de significado.
Nós homens, como já foi mencionado,
somos chamados a calar, independentemente do que sofremos.
Esses rituais, muitas das vezes
elaborados em tribos refletem uma vida mais pautada em experiências
vivificadoras e repletas de entusiasmo.
7) Todo homem carrega consigo profundo
anseio pelo seu pai e pelos seus pais tribais.
Quando pus o título do texto de hoje
sobre a questão de violência arquetípica estava a falar também sobre raízes,
histórias tribais e sobre a realidade transcendente. Resumindo tudo: estamos
perdidos, infantilizados e utilizando nosso expediente para o uso de artifícios
que fazem com que se tenha uma fuga da realidade, como o uso de drogas por
exemplo.
8) Para que os homens fiquem curados,
precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior.
A cura está dentro e não fora de nós.
Santo Agostinho já questionava sobre
esse assunto: passamos a vida inteira a admirar mares, oceanos, montanhas e não
admiramos o que há dentro de nós.
Temos que perceber que devemos nos
voltar para dentro, essa perspectiva é interior.
Há que ter uma tomada de consciência,
aliás, é um assunto que sempre, diuturnamente escrevo por aqui na plataforma
Saber Jung.
Todos
esses pontos citados me faz chegar a algumas conclusões. Vamos a elas.
A
violência (sombra coletiva) no seu mais amplo contexto me leva a crer que é um
arquétipo, acredito que de tanto fomentar esse assunto, e ir as vias de fato,
nossos antepassados incrustaram no nosso material genético marcas de violência.
Por
isso o nome do meu texto: uma violência arquetípica.
Quando
estaremos moralmente convictos de que uma mordaça colocada na boca de um será
sempre o calar na voz de todos? – Randerson Figueiredo
Mas
a violência pode e deve ser combatida, pela prática da gentileza, mas não é tão simples assim.
Há
tantas formas de não se deixar levar pela violência, vide Mahatma Gandhi que
pela sua luta e tantos outros pacifistas mostraram que é possível uma expansão
de consciência na busca pela paz.
Já
ficou claro e demonstrado por A + B que a nossa forma de organização social já
faliu faz tempo, muito tempo mesmo. O que nos resta é nos organizarmos numa
organização mais adequada e buscar, nada de receita pronta, suar a camisa
mesmo.
Essa
questão de, se você come do meu pirão prova do meu cinturão...
Isso
aí já está mais ultrapassado que não sei nem o quê. O patriarcado e seus
tentáculos já faliu faz tempo, já é algo ridiculamente em estado de putrefação,
mas que renasce a cada golpe violento, como uma fênix sombria.
E
por falar em atos violentos, o governo anterior foi o exemplo-mor a não ser
seguido: violento, misógino, machista, preconceituoso e mais brochável que tudo
nessa vida.
Graças a nosso bom e amado Deus que tem piedade de tudo e de todos o governo anterior perdeu e ainda está inelegível, uma desgraça a menos para nos preocuparmos.
Ou
será que não?
O
mais incrível de tudo é que ele deixou ervas daninhas no jardim do Getsêmani,
por incrível que possa parecer, não basta só ajudar a velhinha atravessar a
avenida movimentada, não basta dar um pirulito a crianças, e muito menos
segurar sacolas de supermercado e leva-las a casa de quem as comprou.
É
preciso mais, muito mais.
Extirpar
esses tentáculos que invadem nossos lares, as escolas, os cinemas e até nas
igrejas requer doses cavalares de coragem e vitalidade meu caro leitor. Requer AMOR! E muito amor.
Nós
sofremos de enfermidades na alma, e isso é muito perigoso.
O
nosso olhar pode ter uma violência tão grande, mas tão grande que pode ser
capaz de sufocar o irmão. Um olhar que condena muitas vezes é muito pior que
uma língua que fere.
A
questão é que nos acostumamos com ela, com nossa violência cotidiana, some-se a
isso um desejo incontrolável e sanguinário por ver sangue.
Já
abordamos o amigo, vizinho ou quem quer que seja com a notícia estampada nas
capas de jornal, que normalmente não é algo bom, principalmente advindas de uma
imprensa marrom.
Acredito
que a violência se não entrou já era para ter entrado também como um transtorno
psiquiátrico severo, grave mesmo no DSM-V. Ora! E porquê, não? Vamos colocar de
uma vez por todas os pingos nos i’s.
Às vezes, é necessário mexer na estrutura do edifício para que ele não caia, mas com cuidado obviamente. Se algo está enraizado, nada mais justo que comecemos pela raiz do problema, pela nossa psique. Ou acha que não?
Somos
e estamos extremamente feridos, numa busca desenfreada para quem dará o último
tiro, quem jogará a última granada e quem atirará a última flecha.
Num
verdadeiro jogo de gato e rato a não desertar das trincheiras, já que não
podemos demonstrar nossas fragilidades e ditas fraquezas, sempre numa pomposa
falsa superioridade.
Quem
de nós sobreviverá?
Até
a próxima, se Deus quiser.
REFERÊNCIA
BIBLIOGRÁFICA
HOLLIS,
James. Sob a Sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo:
Paulus, 1997.


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