SOBRE FEMINICÍDIO, O FEMININO E A ANIMA – PERCEPÇÕES NA PSICOLOGIA PROFUNDA

junho 22, 2023 Randerson Figueiredo 0 Comments

 

Olá, muito bom dia nobre leitor desta plataforma.

 

Hoje iremos tratar de assuntos espinhosos: feminicídio e o lidar com a anima dentro de cada um de nós. Faz tempo que desejava trabalhar com essa temática de fundamental importância para todos nós.

 

Você que já deve me acompanhar aqui no blog já deve tem em mente sobre algumas especificidades da psicologia analítica como por exemplo: arquétipo.

 

Anima e animus são arquétipos dentro da perspectiva da psi profunda. São respectivamente o lado feminino e masculino que residem dentro do homem e da mulher.

 

São dimensões feminina e masculina da alma, mais precisamente as disposições psicológicas do homem e da mulher. A anima é a mestra pelas más disposições no homem e o animus na mulher, mas não só isso, cabe destacar.

 

Hoje teremos no texto de hoje, percepções sobre a anima em relação às dificuldades enfrentadas pelos homens no que diz respeito a prática do feminicídio, uma mácula que mancha de forma irreparável a nossa sociedade como um todo.

 

E o que o arquétipo anima tem com essa prática nefasta?

 

Tudo.

 

Vamos a alguns esclarecimentos importantes primeiro sobre feminicídio, algo realmente cruel e terrível que monta um verdadeiro cancro no seio do nosso meio em que vivemos.

 

Feminicídio é o assassinato de uma mulher resultante de violência doméstica ou discriminação de gênero. Em 2015, foi sancionada, no Brasil, a Lei do Feminicídio.

 

Trata-se da Lei nº 13.104/15, que altera o Código Penal brasileiro instituindo um novo agravante específico de homicídio: o feminicídio, que é, basicamente, o homicídio ocorrido contra uma mulher em decorrência de discriminação de gênero, ou seja, por sua condição social de mulher, podendo também ser motivado ou concomitante com violência doméstica.

 

A violência contra a mulher, que nos casos mais graves acarreta o feminicídio, é preocupante no Brasil. Dados levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que, a cada uma hora e meia, um feminicídio foi cometido em território brasileiro, entre os anos de 2007 e 2011, logo após a sanção da Lei 11.340/06, mais conhecida como Lei Maria da Penha, que visa a coibir a violência doméstica cometida contra mulheres.

 

Por isso, a necessidade de tratar o feminicídio com maior rigidez ainda existe hoje em dia, justificando a implementação da lei.

 

Acredito que essa prática está atrelada ao fato do papel da mulher, dela ser tratada não como sujeito, mas como objeto. Essa noção, junto com a impunidade, resulta em diversos crimes de natureza violenta e sexual contra as mulheres.

 

A ideia misógina de que o homem é portador da liberdade social e sexual da mulher ou a prática explícita da misoginia (ódio e discriminação contra a mulher e ao que remete ao feminino), quando acompanhados de homicídio, podem ser enquadrados no agravante feminicídio.

 

Algo que também está ligado ao patriarcado, de forma bem intensa.

 

A base da sociedade é justamente essa, a patriarcal, então uma coisa vai puxando a outra. É como se fosse puxando o fio da meada, quanto mais se puxa, mais vai aparecendo situações vexatórias.

 

Hoje vou tomar por base a excelente obra de John Sanford: Os parceiros invisíveis. Que fala de forma explícita sobre o arquétipo trabalhado no texto de hoje: a anima. E outras obras também, como a do James Hollis por exemplo, mas essa será a fonte principal.

 

Outro livro também muito bom é O Segredo da Flor de Ouro de Richard Wilhelm e do próprio Jung, Richard é um sinólogo e trata de forma sutil e delicada sobre as diversas facetas também desses arquétipos.

 

Mas vou me ater especificamente no livro do John Sanford.

 

Uma das grandes questões dos meus textos é de ser voltado não só aos estudiosos da psi analítica, mas principalmente ao público leigo, que assim como eu tem interesse nessa abordagem.

 

Todos nós somos complexados, isso é uma constatação. Aprendi com a professora Verena Kast, professora da Universidade de Zurich, no seu excelente livro sobre introdução à psi analítica pelo grupo editorial pensamento.

 

E dependendo de como tratamos esse complexo é o que vai determinar como trabalharemos nossas vidas no decorrer da jornada.

 

No caso da anima a chave está no relacionamento.

 

Nós homens que não sabemos lidar bem com um relacionamento afetivo, evitamos conversas profundas e discussões que levem a um melhor aprimoramento do nosso eu interior tendemos a ser dominados pelo complexo da Mãe.

 

Comportamo-nos como meninos mimados e evitamos o confronto.


Tendemos a ser garotos mimados e reizinhos mandões dentro da perspectiva da afetividade. Quando nós homens passamos a ter uma relação direta e dizer o que verdadeiramente nos aborrece ou entristece aí sim, passamos a compreender melhor quem somos e a dominar de alguma maneira as rédeas da nossa vida.

 

A grande questão é que ao percebermos um avanço não só do progresso antropológico, mas histórico do papel da mulher na sociedade, nós acabamos por desenvolver um outro complexo: o de inferioridade.

 

O homem diante dessa questão se sente inferiorizado diante de uma categoria que ele, nós, nos sentimos deixados para trás que ocupamos essa posição por milênios.

 

E qual é a alternativa que o homem encontra? A agressão física.

 

Diante de estudos antropológicos, o homem pratica feminicídio porque se sente desafiado, inferiorizado e até mesmo desautorizado pela postura adotada pela mulher.

 

A relação entre complexo de inferioridade e a sua anima é o que definem de forma crucial a relação que mantém com a mulher, a negação da anima é determinante, reitero.

 

O Complexo de Inferioridade foi um termo cunhado pelo médico e psicólogo Alfred Adler. Segundo Adler, todos têm um sentimento de inferioridade e que não necessariamente esse sentimento de inferioridade é negativo.

 

De acordo com Adler, sempre que vemos pessoas com temperamentos e paixões fortes, sempre podemos concluir que são pessoas com um grande sentimento de inferioridade. Uma pessoa que sabe que pode superar suas dificuldades não serão impacientes.

Pessoas, por exemplo, arrogantes e impertinentes também indicam um grande sentimento de inferioridade (ADLER, 1930, p. 72).


O afastamento da anima pode revelar grandes questões negativas ao homem. Impulsividade, raiva e desânimo são algumas das características nefastas decorrentes desse afastamento.

 

Manter a anima fora de ação tem uma relação importante com os atos de violência e agressões do homem contra a mulher. Pode começar pela raiva e, depois, espancamentos.

 

Consequentemente, o feminicídio é o provável próximo passo. Isso pode ser explicado por conta de existir um padrão de escalada e evolução dessa violência contra a mulher nos crimes de feminicídio.

 

Nós homens infelizmente temos muita dificuldade de lidar com o feminino, muita mesmo. É como se não tolerássemos como dito no início, o progresso da mulher na sociedade, o papel que ela tem direito, que a ela foi negado por milênios.

 

Nós homens temos muitas feridas e medos, o que facilita o apartamento da nossa anima. O nosso querido analista junguiano James Hollis disse certa feita: Os homens “associam sua vida de sentimentos, seus instintos, sua capacidade de sentir ternura e carinho, à natureza culturalmente definida da mulher e por conseguinte se afastam. Isto também os afasta da própria anima”

 

Nós não nos damos conta que apesar de termos uma severa dificuldade em lidar com o feminino, não percebemos que temos o feminino dentro de nós.

 

A maior tragédia de nós homens é perceber mais adiante que esse medo em lidar com o feminino nos aparta do nosso próprio lado psíquico feminino.

 

E a consequência disso é o trágico: o feminicídio.

 

James Hollis continua: os homens precisam se darem conta que estão traumatizados (o que dão origem aos complexos) e cruelmente feridos. A inconsciência do trauma faz com que nós possamos ferir tanto a nós mesmos como as mulheres.

 

Agora também não posso ser tão cruel com nós mesmos.

 

Sobre nós homens recaem uma forte opressão na sociedade: status, poder e tomada de decisões. Isso tudo impele uma forte carga emocional diante das vicissitudes da vida.

 

E como esse imbróglio pode ser resolvido? Com a tomada de consciência.

 

Respeitar a escuridão do outro é o melhor para caminho para iluminar pouco a pouco a sua – Randerson Figueiredo.

 

Essa violência que atinge níveis estratosféricos em todos os contextos sociais revela-se de modo puramente agressiva principalmente nas mulheres e crianças.

 

O que fere também pode destruir.

 

Todo tormento coletivo começa a partir de um prazer individual – Randerson Figueiredo

 

Agora leitor lembrei dos assassinos em série, quase todos eles sofreram abusos verbais e físicos na infância.

 

Quando violamos a alma de um homem, uma parte dele se torna violenta – James Hollis

 

Os homens precisam reconhecer sua raiva, raiva esta que se acumulou atingindo o nível da ira e para muitos homens, essa ira pode se voltar contra as mulheres e até crianças.

 

Nesse caso o complexo de inferioridade se contrapõe ao domínio da vontade atacando a personalidade consciente. Deu para perceber que a tomada de consciência é o melhor caminho? Quando passamos a conversar com nosso eu interior.

 

Tornando-os conscientes, podemos reduzir o impacto e a influência deles na nossa vida. Como consequência, novas ações e comportamentos mais conscientes poderão surgir.

 

Segundo Adler, a autoconfiança é o melhor caminho para tratarmos o complexo de inferioridade, dessa maneira podemos compreender que somos capazes de enfrentar e resolver problemas.

 

Ao aceitar e respeitar o feminino dentro de si e nas mulheres de sua vida, o homem poderá ter uma resposta emocional mais estruturada. Essa é uma das conclusões que desejava chegar no texto de hoje.

 

Outro ponto importante já para finalizar o texto de hoje é mencionar que...

 

O maior medo do homem é não ser aquilo que o patriarcado exige que ele seja – James Hollis

 

Desenvolver um grau de consciência maior é permitir que essas questões que afligem a nossa alma, alma do homem possam ser sanadas da melhor forma possível.

 

O primeiro passo é impedir que esse gatilho, da violência do homem contra a mulher seja acionado, gerando o feminicídio, abordagem trabalhada no texto de hoje.

 

Outro ponto também é que devemos trazer esses medos e material inconsciente para o consciente.

 

E de que forma essa conquista pode ser estabelecida?

 

Acredito que a terapia é o melhor escopo, quando comecei a minha terapia há mais de 10 anos pude perceber que houve uma melhora significativa em relação aos meus medos, traumas e complexos.

 

Quando você estabelece uma linha de confiança com o terapeuta começa a partir daí uma grande jornada rumo ao desconhecido, mas que pode se tornar conhecido, ou seja, partir do inconsciente para o consciente.

 

No nosso caso, homens, com a terapia não seremos marginalizado e nem humilhados diante de diversas questões que nos atormentam, e passamos a enxergar o que pode ser revelado face a uma vida mais ampla e cheia de significados.

 

Uma das metas desse processo terapêutico é justamente buscar um processo de lidar não só com o que foi mencionado acima, mas saber lidar com o feminino tão vilipendiado por nós, ajudar nós que estamos feridos e estabelecer uma relação equânime com nossa anima.

 

E, principalmente, para que nós homens possamos conseguir ser mais acolhedores, conectados e próximos das mulheres que fazem parte das nossas vidas.

 

Que possamos sempre buscar o amor, sincero, cordial e sem amarras. Um amor que não usa da violência para tecer suas conjecturas. Um amor que não faz uso do poder.

 

Para finalizar como bem disse o mestre Jung: “Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor” (JUNG)

 

Com esse pensamento de Carl Gustav Jung encerro as nossas percepções de hoje, sobre feminicídio, feminino e anima. Espero que tenha gostado e até a próxima.

 

É IMPORTANTE SALIENTAR QUE NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E NEM PSIQUIATRA. ESTUDO A PSICOLOGIA PROFUNDA HÁ MUITOS ANOS, HÁ MAIS DE 10 ANOS DE FORMA AUTODIDATA, MAS SEMPRE SUPERVISIONADO POR AMIGOS DA ÁREA PSI.

 

Agradeço a participação e oportunidade de escrever mais um texto aqui nesta plataforma que tenho tanto carinho.

 

Os meus sinceros agradecimentos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

HOLLIS, James. Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo: Paulus, 1997.

JUNG, Carl G. A natureza da Psique. A Dinâmica do Inconsciente. 10ª edição. Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 2019a.

______. Psicologia do Inconsciente. 2ª edição. Petrópolis: Rio de Janeiro, Vozes, 1980.

SANFORD, John A. Os parceiros invisíveis. São Paulo: Paulus, 1987.

Você também pode gostar de...

0 Comments: