A PRIVATIO BONI E AS MANIFESTAÇÕES DA SOMBRA – POSTAGEM ESPECIAL
“Só
alcançaremos à luz quando definitivamente aceitarmos que seu ponto de partida é
a escuridão”.
Randerson
Figueiredo
Mais
uma vez desejo marcar presença aqui na plataforma Saber Jung em relação a um
assunto espinhoso, intrincado e muito, mas muito delicado.
Ao
observar tudo o que vem ocorrendo nos últimos dias, pude constatar algumas
percepções a respeito de um dos arquétipos da psicologia analítica/profunda do
psiquiatra suíço Carl Gustav Jung.
Estou
a falar da SOMBRA COLETIVA.
Os
casos que ocorreram em escolas nos últimos dias, demonstram a meu ver as
manifestações da sombra coletiva, e não casos isolados de surtos psicóticos que
vitimaram uma professora de 71 anos e 4 crianças numa creche.
Eu
pesquisei bastante antes de tecer estas malfadadas e curtas linhas aqui no blog
e pude perceber que não podemos simplesmente tratar com leviandade sobre a
questão da neurose e/ou psicose dentro da perspectiva psiquiátrica, mas numa
abordagem mais ampla e complexa.
E
eu falo isso dentro da minha própria perspectiva, eu sou paciente psiquiátrico
há mais de 10 anos, e dentro do transtorno no qual estou inserido não podemos
ser levianos diante nem dos neuróticos (somos todos neuróticos diga-se de passagem)
e nem dos psicóticos, sinceramente caro leitor, isso para mim é uma afronta e
das mais graves.
Jamais
podemos levantar tamanho acinte dentro desta perspectiva.
E
porque não podemos simplesmente dizer que fulano de tal é um mero “doido”,
louco varrido ou um doidivano capaz de provocar as piores sensações ou
situações vexatórias? Até mesmo de matar alguém?
Primeiro,
porque cairíamos num determinismo dos mais nocivos.
Segundo,
não teríamos condições suficientes de tecer quaisquer comentários sobre uma
anormalidade social tendo em vista perpassar por um rigoroso esquema de
pesquisa social, cultural e psicológica como um todo.
Terceiro,
indicar crimes destas naturezas como manifestações psiquiátricas até onde sei
configuram uma forma de varrer para debaixo do tapete algo muito mais sério.
Quarto,
pessoas psicóticas ou que entram em surto psicótico quando ameaçam alguém normalmente
estão tentando se defender e não atacar ou ferir o outro.
Quinto,
é vil tratar manifestações da sombra como um aspecto puramente psicótico, haja
vista que a sombra coletiva costuma agir sorrateiramente e quando se mantém
presa costuma se manifestar pelos sentidos, costuma escapar pelas extremidades.
Depois
de elencar estas situações podemos prosseguir com cautela até onde desejo
chegar com o texto de hoje.
Essa
semana estava a ler sobre um dos maiores filósofos da cristandade ocidental,
estou a falar de Santo Agostinho. A teologia Agostiniana foi de fundamental
importância para a manutenção da ortodoxia cristã vigente e para fixar as bases
de uma religiosidade e não espiritualidade capaz de moldar o cristianismo.
Santa
Mônica, a mãe de Santo Agostinho lutou muito com ele, para sua conversão. Seu
pai não era afeito às questões religiosas e coube a sua mãe tentar levar a
Agostinho uma vida longe de profanações e bem perto de Deus.
Aos
32 anos Santa Mônica conseguiu seu intento, Agostinho se converteu, após isso
sua mãe veio a falecer, com a sensação acredito eu de dever cumprido.
Agostinho
lutava com sua compulsão sexual e seu lado religioso.
Em
Confissões ele narra sua experiência de conversão
à Cristandade. Era estudioso do neoplatonismo, provavelmente por estudar
Plotino e obviamente Platão.
Mas
e o que tem a ver Santo Agostinho, sombra coletiva e tudo o que aconteceu no
Brasil nos últimos dias? Com calma chegarei lá, acredito que você entenderá a
mensagem.
Em
termos da psicologia moderna, a conversão é uma dissociação definitiva. Nesse
caso, o Self age como poder agente, o poder do Self dá razão a todos os atos
movidos por Agostinho.
Mais
adiante, até mesmo o pai pagão foi convertido é bom que se diga.
Três
vertentes de pensamentos perpassam a sua obra: neoplatonismo, maniqueísmo e
religião relativa às escrituras do Antigo e Novo Testamento.
Aos
67 anos ele escreveu um manual importantíssimo com suas 7 doutrinas básicas.
Não vou me ater exatamente às 7 uma por uma por razões de facilitar a leitura e
ir ao que interessa.
Eu
vou pular 6 doutrinas e vou direto na quinta chamada de Privatio Boni (Privação do Bem). O que diz a quinta doutrina agostiniana
a qual me refiro no texto de hoje?
A
doutrina da Privatio
Boni é a doutrina lógica
da dissociação psíquica.
E
eu, Randerson Figueiredo, sou contra essa doutrina agostiniana da Privatio Boni
(Privação do Bem), ela pode ser muito perigosa, pois algumas pessoas podem
usá-la como desculpa para viver alguns aspectos justamente da sombra.
E
digo mais, com certo entendimento dos opostos, não se pode postular um oposto e
eliminar o outro. Não podemos esquecer
que quanto mais luz, mais sombra é recalcada no inconsciente.
Nada mais perigoso que uma pessoa capaz de fazer um bem consciente.
– John Sanford.
Obviamente
caro leitor, é bom salientar que dirijo estas conclusões a um domínio empírico
(psicológico) e não teológico. A metafísica com a metafísica, a psicologia com
a psicologia.
A
psicologia profunda de Jung nos mostra que um Deus psicológico, o Self, carrega
consigo o bem e o mal, os dois opostos lado a lado. Essa questão se torna
problemática quando tocado por um ego consciente que faz aflorar um dos dois
lados.
E
no nosso caso, na grande maioria das vezes aflora a sombra.
Jesus
Cristo é a representação fiel do que estou a falar, Ele é a suprema encarnação
do bem, mas tem um oposto que o enfrenta diversas vezes: o demônio (a sombra).
No
Antigo Testamento, Deus encarnava os dois, tanto é que o demônio aparece
somente umas 3 ou 4 vezes quando é desafiado por ele em relação a Jó. Lembra
desse detalhe?
Eu
acredito que já cheguei a dizer aqui no blog que se tivéssemos uma sombra
diluída, um mal diluído ou um demônio fragmentado poderíamos viver melhor e não
transformar essa entidade maledicente e/ou malevolente num bode expiatório dos
mais graves.
É
bom frisar que sempre falo num aspecto psicológico. Sempre.
Tendemos
sempre a terceirizar nossas frustrações e ações das mais cruéis e insanas.
Quase sempre a colocar a culpa no morador da fornalha que se situa logo abaixo
de nós, intitulado satanás.
Nós
temos que parar com a cáustica ideia de que a culpa é sempre a melhor saída,
seja culpando o demônio, ou quem quer que seja.
Outro
ponto também que atrapalha e muito sobre uma análise acurada a respeito do que
vem a ocorrer não só no Brasil, mas no mundo como um todo é a interpretação do
dogma da trindade.
Até
onde iremos chegar com essa interpretação?!
É
sabido que há muito tempo é mais do que necessário um quarto elemento junto à
trindade, um quarto elemento, algo que possa embasar e transformar o triângulo
equilátero num quadrado ou num círculo, aparando as arestas...
A
sombra é esse elemento meu caro leitor.
Não
adianta nada ter Pai, Filho e Espírito Santo numa união familiar e rechaçar o
elemento formador da quaternidade, a sombra coletiva, o nosso lado sombrio,
nosso lado mais vil e nebuloso.
Discordo
do posicionamento da igreja, quando faz ser Nossa Senhora o quarto elemento que
junto à trindade irá compor o quatérnio.
Quer
dizer que somos somente luz?! E a sombra?! E o nosso lado negativo?! Por onde
anda?! Temos que incorporar com urgência a sombra com a trindade.
O
que aconteceu nas escolas nada mais é que a manifestação no sentido mais cruel
da sombra coletiva, esse lado que tanto queremos esconder e fazer esmaecer
diante do sol.
Somos
bombardeados diuturnamente com mensagens de péssimos átimos astral, ruins
mesmo, com notícias das mais devastadoras e péssimas, isso também é um atraso
em nossas vidas, no café da manhã, no almoço e no jantar. Isso faz incutir em nosso inconsciente uma carnificina sempre à espreita.
O
mundo se transformou no principal palco onde reina a tragédia da sombra.
Infelizmente. Eu sei que a bondade age na surdina, e que torcemos para que um
certo espírito vampiresco domine a cena, mas já está demais, não acha?
Outra
coisa que desejo abordar no texto de hoje:
Jamais
devemos culpabilizar governo A ou B por ações impensadas ou até mesmo pensadas
e repensadas conscientemente em ações como estas, jamais.
Mas
o governo anterior promoveu o acesso às armas, promoveu a violência com
discursos de ódio, promoveu a leviandade diante de Fakes News. Certo, pode até
ter promovido tudo isso, mas jamais devemos culpar por crueldades como essas.
Isso
seria recair no bode expiatório do demônio, demonizar alguém é tão terrível
quanto praticar tal ação, eu penso desta maneira e estou aqui para que possamos
chegar num consenso.
O
que podemos fazer é transformar a culpa em responsabilidade e assumir nossos
atos, acredito que desta forma poderemos transformar uma sociedade mais justa e
mais tranquila para se viver, tendo sempre em mente que o diálogo sincero e
honesto com nosso lado mais sombrio pode aquecer nosso coração e arrefecer os
ânimos mais bravios.
Espero
que você nobre leitor desta plataforma tenha gostado do texto de hoje, que eu tenha elucidado um pouquinho sobre o ocorrido, humildemente falando. Deixarei
logo abaixo as referências bibliográficas dentro da perspectiva junguiana.
É IMPORTANTE DIZER QUE NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E MUITO MENOS PSIQUIATRA, MINHAS OPINIÕES SÃO ELABORADAS COM BASE EM PESQUISA DENTRO DA TEMÁTICA DA PSICOLOGIA PROFUNDA DO PSIQUIATRA SUÍÇO CARL GUSTAV JUNG. SOU AUTODIDATA NO ASSUNTO, SEMPRE A PROCURA DE APRENDER MAIS E MAIS.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
A
PSIQUE NA ANTIGUIDADE – LIVRO DOIS – GNOSTICISMO E PRIMÓRDIOS DA CRISTANDADE.
Editora:
Cultrix
Edição:
10ª
Ano:
2006
Páginas:
224
EGO
E ARQUÉTIPO – UMA SÍNTESE FASCINANTE DOS CONCEITOS PSICOLÓGICOS FUNDAMENTAIS DE
JUNG
Editora:
Cultrix
Edição:
2ª
Ano:
2020
Páginas:
344
INTERPRETAÇÃO
PSICOLÓGICA DO DOGMA DA TRINDADE (11/2 – PSICOLOGIA E RELIGIÃO OCIDENTAL E
ORIENTAL)
Editora:
Vozes
Edição:
10ª
Ano:
2013
Páginas:
128
MAL
– O LADO SOMBRIO DA REALIDADE
Editora:
Paulus
Edição:
1ª
Ano:
1998
Páginas:
200






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