A PRIVATIO BONI E AS MANIFESTAÇÕES DA SOMBRA – POSTAGEM ESPECIAL

abril 07, 2023 Randerson Figueiredo 0 Comments

 

“Só alcançaremos à luz quando definitivamente aceitarmos que seu ponto de partida é a escuridão”.

Randerson Figueiredo

 

Mais uma vez desejo marcar presença aqui na plataforma Saber Jung em relação a um assunto espinhoso, intrincado e muito, mas muito delicado.

 

Ao observar tudo o que vem ocorrendo nos últimos dias, pude constatar algumas percepções a respeito de um dos arquétipos da psicologia analítica/profunda do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung.

 

Estou a falar da SOMBRA COLETIVA.

 

Os casos que ocorreram em escolas nos últimos dias, demonstram a meu ver as manifestações da sombra coletiva, e não casos isolados de surtos psicóticos que vitimaram uma professora de 71 anos e 4 crianças numa creche.

 

Eu pesquisei bastante antes de tecer estas malfadadas e curtas linhas aqui no blog e pude perceber que não podemos simplesmente tratar com leviandade sobre a questão da neurose e/ou psicose dentro da perspectiva psiquiátrica, mas numa abordagem mais ampla e complexa.

 

E eu falo isso dentro da minha própria perspectiva, eu sou paciente psiquiátrico há mais de 10 anos, e dentro do transtorno no qual estou inserido não podemos ser levianos diante nem dos neuróticos (somos todos neuróticos diga-se de passagem) e nem dos psicóticos, sinceramente caro leitor, isso para mim é uma afronta e das mais graves.

 

Jamais podemos levantar tamanho acinte dentro desta perspectiva.

 

E porque não podemos simplesmente dizer que fulano de tal é um mero “doido”, louco varrido ou um doidivano capaz de provocar as piores sensações ou situações vexatórias? Até mesmo de matar alguém?

 

Primeiro, porque cairíamos num determinismo dos mais nocivos.

 

Segundo, não teríamos condições suficientes de tecer quaisquer comentários sobre uma anormalidade social tendo em vista perpassar por um rigoroso esquema de pesquisa social, cultural e psicológica como um todo.

 

Terceiro, indicar crimes destas naturezas como manifestações psiquiátricas até onde sei configuram uma forma de varrer para debaixo do tapete algo muito mais sério.

 

Quarto, pessoas psicóticas ou que entram em surto psicótico quando ameaçam alguém normalmente estão tentando se defender e não atacar ou ferir o outro.

 

Quinto, é vil tratar manifestações da sombra como um aspecto puramente psicótico, haja vista que a sombra coletiva costuma agir sorrateiramente e quando se mantém presa costuma se manifestar pelos sentidos, costuma escapar pelas extremidades.

 

Depois de elencar estas situações podemos prosseguir com cautela até onde desejo chegar com o texto de hoje.

 

Essa semana estava a ler sobre um dos maiores filósofos da cristandade ocidental, estou a falar de Santo Agostinho. A teologia Agostiniana foi de fundamental importância para a manutenção da ortodoxia cristã vigente e para fixar as bases de uma religiosidade e não espiritualidade capaz de moldar o cristianismo.


Santa Mônica, a mãe de Santo Agostinho lutou muito com ele, para sua conversão. Seu pai não era afeito às questões religiosas e coube a sua mãe tentar levar a Agostinho uma vida longe de profanações e bem perto de Deus.

 

Aos 32 anos Santa Mônica conseguiu seu intento, Agostinho se converteu, após isso sua mãe veio a falecer, com a sensação acredito eu de dever cumprido.

 

Agostinho lutava com sua compulsão sexual e seu lado religioso.

 

Em Confissões ele narra sua experiência de conversão à Cristandade. Era estudioso do neoplatonismo, provavelmente por estudar Plotino e obviamente Platão.

 

Mas e o que tem a ver Santo Agostinho, sombra coletiva e tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos dias? Com calma chegarei lá, acredito que você entenderá a mensagem.

 

Em termos da psicologia moderna, a conversão é uma dissociação definitiva. Nesse caso, o Self age como poder agente, o poder do Self dá razão a todos os atos movidos por Agostinho.

 

Mais adiante, até mesmo o pai pagão foi convertido é bom que se diga.

 

Três vertentes de pensamentos perpassam a sua obra: neoplatonismo, maniqueísmo e religião relativa às escrituras do Antigo e Novo Testamento.

 

Aos 67 anos ele escreveu um manual importantíssimo com suas 7 doutrinas básicas. Não vou me ater exatamente às 7 uma por uma por razões de facilitar a leitura e ir ao que interessa.

 

Eu vou pular 6 doutrinas e vou direto na quinta chamada de Privatio Boni (Privação do Bem). O que diz a quinta doutrina agostiniana a qual me refiro no texto de hoje?

 

A doutrina da Privatio Boni é a doutrina lógica da dissociação psíquica.

 

E eu, Randerson Figueiredo, sou contra essa doutrina agostiniana da Privatio Boni (Privação do Bem), ela pode ser muito perigosa, pois algumas pessoas podem usá-la como desculpa para viver alguns aspectos justamente da sombra.

 

E digo mais, com certo entendimento dos opostos, não se pode postular um oposto e eliminar o outro.  Não podemos esquecer que quanto mais luz, mais sombra é recalcada no inconsciente.

 

Nada mais perigoso que uma pessoa capaz de fazer um bem consciente. 

– John Sanford.

 

Obviamente caro leitor, é bom salientar que dirijo estas conclusões a um domínio empírico (psicológico) e não teológico. A metafísica com a metafísica, a psicologia com a psicologia.

 

A psicologia profunda de Jung nos mostra que um Deus psicológico, o Self, carrega consigo o bem e o mal, os dois opostos lado a lado. Essa questão se torna problemática quando tocado por um ego consciente que faz aflorar um dos dois lados.

 

E no nosso caso, na grande maioria das vezes aflora a sombra.

 

Jesus Cristo é a representação fiel do que estou a falar, Ele é a suprema encarnação do bem, mas tem um oposto que o enfrenta diversas vezes: o demônio (a sombra).

 

No Antigo Testamento, Deus encarnava os dois, tanto é que o demônio aparece somente umas 3 ou 4 vezes quando é desafiado por ele em relação a Jó. Lembra desse detalhe?

 

Eu acredito que já cheguei a dizer aqui no blog que se tivéssemos uma sombra diluída, um mal diluído ou um demônio fragmentado poderíamos viver melhor e não transformar essa entidade maledicente e/ou malevolente num bode expiatório dos mais graves.

 

É bom frisar que sempre falo num aspecto psicológico. Sempre.

 

Tendemos sempre a terceirizar nossas frustrações e ações das mais cruéis e insanas. Quase sempre a colocar a culpa no morador da fornalha que se situa logo abaixo de nós, intitulado satanás.

 

Nós temos que parar com a cáustica ideia de que a culpa é sempre a melhor saída, seja culpando o demônio, ou quem quer que seja.

 

Outro ponto também que atrapalha e muito sobre uma análise acurada a respeito do que vem a ocorrer não só no Brasil, mas no mundo como um todo é a interpretação do dogma da trindade.

 

Até onde iremos chegar com essa interpretação?!

 

É sabido que há muito tempo é mais do que necessário um quarto elemento junto à trindade, um quarto elemento, algo que possa embasar e transformar o triângulo equilátero num quadrado ou num círculo, aparando as arestas...

 

A sombra é esse elemento meu caro leitor.

 

Não adianta nada ter Pai, Filho e Espírito Santo numa união familiar e rechaçar o elemento formador da quaternidade, a sombra coletiva, o nosso lado sombrio, nosso lado mais vil e nebuloso.

 

Discordo do posicionamento da igreja, quando faz ser Nossa Senhora o quarto elemento que junto à trindade irá compor o quatérnio.

 

Quer dizer que somos somente luz?! E a sombra?! E o nosso lado negativo?! Por onde anda?! Temos que incorporar com urgência a sombra com a trindade.

 

O que aconteceu nas escolas nada mais é que a manifestação no sentido mais cruel da sombra coletiva, esse lado que tanto queremos esconder e fazer esmaecer diante do sol.

 

Somos bombardeados diuturnamente com mensagens de péssimos átimos astral, ruins mesmo, com notícias das mais devastadoras e péssimas, isso também é um atraso em nossas vidas, no café da manhã, no almoço e no jantar. Isso faz incutir em nosso inconsciente uma carnificina sempre à espreita.

 

O mundo se transformou no principal palco onde reina a tragédia da sombra. Infelizmente. Eu sei que a bondade age na surdina, e que torcemos para que um certo espírito vampiresco domine a cena, mas já está demais, não acha?

 

Outra coisa que desejo abordar no texto de hoje:

 

Jamais devemos culpabilizar governo A ou B por ações impensadas ou até mesmo pensadas e repensadas conscientemente em ações como estas, jamais.

 

Mas o governo anterior promoveu o acesso às armas, promoveu a violência com discursos de ódio, promoveu a leviandade diante de Fakes News. Certo, pode até ter promovido tudo isso, mas jamais devemos culpar por crueldades como essas.

 

Isso seria recair no bode expiatório do demônio, demonizar alguém é tão terrível quanto praticar tal ação, eu penso desta maneira e estou aqui para que possamos chegar num consenso.

 

O que podemos fazer é transformar a culpa em responsabilidade e assumir nossos atos, acredito que desta forma poderemos transformar uma sociedade mais justa e mais tranquila para se viver, tendo sempre em mente que o diálogo sincero e honesto com nosso lado mais sombrio pode aquecer nosso coração e arrefecer os ânimos mais bravios.

 

Espero que você nobre leitor desta plataforma tenha gostado do texto de hoje, que eu tenha elucidado um pouquinho sobre o ocorrido, humildemente falando. Deixarei logo abaixo as referências bibliográficas dentro da perspectiva junguiana.

 

É IMPORTANTE DIZER QUE NÃO SOU PSICÓLOGO, PSICANALISTA E MUITO MENOS PSIQUIATRA, MINHAS OPINIÕES SÃO ELABORADAS COM BASE EM PESQUISA DENTRO DA TEMÁTICA DA PSICOLOGIA PROFUNDA DO PSIQUIATRA SUÍÇO CARL GUSTAV JUNG. SOU AUTODIDATA NO ASSUNTO, SEMPRE A PROCURA DE APRENDER MAIS E MAIS.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

A PSIQUE NA ANTIGUIDADE – LIVRO DOIS – GNOSTICISMO E PRIMÓRDIOS DA CRISTANDADE.


Autor: Edward F. Edinger

Editora: Cultrix

Edição: 10ª

Ano: 2006

Páginas: 224

 

EGO E ARQUÉTIPO – UMA SÍNTESE FASCINANTE DOS CONCEITOS PSICOLÓGICOS FUNDAMENTAIS DE JUNG

Autor: Edward F. Edinger

Editora: Cultrix

Edição: 2ª

Ano: 2020

Páginas: 344

 


INTERPRETAÇÃO PSICOLÓGICA DO DOGMA DA TRINDADE (11/2 – PSICOLOGIA E RELIGIÃO OCIDENTAL E ORIENTAL)


Autor: Carl Gustav Jung

Editora: Vozes

Edição: 10ª

Ano: 2013

Páginas: 128

 

MAL – O LADO SOMBRIO DA REALIDADE

Autor: John A. Sanford

Editora: Paulus

Edição: 1ª

Ano: 1998

Páginas: 200

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