BENDITA DESOBEDIÊNCIA - PEDAGOGIA DE DEUS

junho 20, 2021 Randerson Figueiredo 0 Comments

 

Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso.

Melanie Klein

 

Muito bem, caro leitor, a premissa de hoje para o desenvolvimento da série Pedagogia de Deus será sobre a abordagem bíblica de Adão e Eva.

 

Começarei o texto de hoje com um relato.

 

Quando participava das missas aqui na comunidade, em Fortaleza/Ceará o padre da paróquia já era um senhor bem idoso, inclusive o mesmo fez o meu batismo, muitos acreditavam que ele já estava senil, numa linguagem mais tupiniquim: esclerosado. Diante das inúmeras inserções que ele fazia na homilia, poderia até parecer isso mesmo, mas somente poderia...

 

O fato é que o padre em questão estava mais lúcido do que todos que participavam das suas missas sempre refesteladas com abordagens sobre Adão e Eva.

 

Quando passei a prestar verdadeiramente atenção no que ele dizia comecei a me entusiasmar a pesquisar ainda mais sobre a intrincada relação do Santo Evangelho e psicologia profunda.

 

A frase de Melanie Klein é bem assertiva quanto ao texto de hoje. Acredito que você, leitor, vai entender tudo direitinho, o que desejo exemplificar em cada parágrafo deste texto.

 

À medida que vou tecer o texto vou deixá-lo a par de tudo.

 

Pois muito bem, esse padre que muitos consideravam gagá era o mais lúcido de todos! Ele abordava de uma forma exegética sem igual sobre Adão e Eva. Quem estava atento conseguia entender tudo.

 

Sabe leitor, acredito que o paraíso só existe graças às lacunas que estão ao redor do paraíso, caso contrário não existiria a ideia, veja bem, eu disse a ideia de paraíso.

 

Quem está no paraíso não sabe, não se apercebe que está no paraíso, a não ser que seja retirado de lá. E foi o que aconteceu com o nosso casal de estudo de hoje: Adão e Eva.

 

Muitas são as insinuações a respeito de Adão e Eva. Muitas!

 

Mas poucas são capazes de esmiuçar o que de fato convém realmente saber. Adão significa aquele que vem da terra, homem=húmus.

 

Eva significa aquela que dá vida.

 

Então o quer dizer sobre Adão e Eva? Todo homem e toda mulher, e não somente um casal. Não necessariamente um casal com nomes próprios.

 

É notório que há uma sedução do mal dentro dessa perspectiva representada por alguns elementos simbólicos, são exteriorizações, são expressões dessa verdade:


- A árvore

- A maçã

- As folhas da figueira e a nudez

- A serpente

 

O que percebo é que diante de todos esses elementos é que há uma tomada de consciência diante de tudo que é apresentado, e claro, da decisão tomada.

 

E desta forma temos a nudez como um símbolo de tomada de consciência crucial diante de Deus. O esconder-se de Deus (Gn 3,8b.10) é o símbolo do homem que se reconhece pecador, culpado e consciente.

 

O homem estava nu e escondeu-se de Deus.

 

A serpente simboliza a inclinação que o homem tem para o mal. E utiliza a serpente porque era o símbolo da religião de Canaã. Um emblema fálico. E é símbolo do mal.

 

Portanto a origem do mal, teologicamente falando, está pelo fato do homem ter dado ouvidos à serpente e não a Deus, é um sentido etiológico.

 

Então a questão dessa desobediência a meu ver propiciou para que houvesse uma tomada plena de consciência, saber o verdadeiro motivo pelo qual lutamos.

 

É o homem quem constrói ou quem destrói o paraíso.

 

E a frase da grande psicanalista Melanie Klein reverbera isso. Quando se passa a ter uma tomada de consciência é possível trazer a lume a verdadeira essência, nos aproximamos do que por ventura tratamos como verdade.

 

Foi na Idade Média que houve a ideia-mor de paraíso, e Dante na sua Divina Comédia expandiu bastante.

 

Para não dizer que não falei das flores...

 

Voltando ao início do texto, quando fui a outra missa com outro padre, ele arrematou o que o padre mais idoso havia dito: Adão e Eva é uma mitologia impregnada na psique do homem. Disse.

 

Dentro dessa perspectiva desse padre mais subversivo, vamos dizer assim, o homem completo ou o sentimento de integridade psíquica corresponde ao paraíso das religiões judaico-cristãs.

 

Falei tudo isso para chegar a esse arremate. Foi necessário, acredito.

 

A expulsão do Jardim do Éden é um exemplo de como o homem deve sacrificar algo para obter a consciência em cujo centro está o Ego, argumento utilizado diversas vezes para explicar o surgimento da civilização e o sofrimento do homem.

 

Temos uma grande ignorância sobre o que é bom e/ou que é mal. É algo plenamente subjetivo segundo Jung.

 

Em poucas palavras houve nesse caso da experimentação da árvore uma consciência dos opostos. Edward Edinger, um dos meus analistas junguianos preferidos diz:

 

“É o fruto da árvore do conhecimento sobre o bem e o mal o qual trás a consciência dos opostos (…)”. (F.Edinger, 2020).

 

E esse ato poderia ser considerado um ato malvado por parte do casal.

 

Bem, querido leitor desta plataforma, escrevi tudo isso para chegar à conclusão de que o mito de Adão e Eva nada mais representa que o surgimento da consciência.

 

Já trabalhamos esse ponto aqui algumas vezes, o Ego é o oposto direto do Self que por sua vez controla a psique. O ego é o jardim do Éden e o Self a figura divina.

 

Esse crime cometido causa a separação da inconsciência paradisíaca e a consciência. E a culpa é o pecado original, que surge com o nascimento da consciência.

 

“Senhor Deus chamou o homem e lhe disse: “Onde estás”?”, ‘”Ele respondeu: “Ouvi a tua voz no jardim, tive medo porque estava nu, e me escondi” (Bíblia: Tradução Ecumênica, 1994).

 

O sofrimento anunciado por Deus, reflete ao trabalho, agora terão que se sustentar com o fruto do próprio trabalho e sofrer as dores do parto. Acredito que é por isso que a nudez é tão evidenciada, não a física, mas uma nudez moral.

 

“A aquisição da consciência é um crime, uma hybris contra os “poderes estabelecidos”; mas é um crime necessário, pois traz uma alienação necessária do estado natural de plenitude inconsciente” (F.Edinger, 2020).

 

Cada passo ao despertar é doloroso, cheio de culpa e sofrimento, mas o “Ser como Deus ao conhecer o Bem e o Mal” deixa bastante claro o fato de que no caminho há muito mais que o aparente.

 

Afinal, sempre com a tomada de consciência seremos expulsos de algum paraíso, parafraseando Melanie Klein.

 

Então por hoje é só.

 

Fiquei muito feliz por ter chegado a desenvolver essa análise que há muito tempo planejava. Espero que tenha gostado e se tiver algo a mais que me esqueci de elencar é só falar nos comentários.

 

Ou então se quiser pode me enviar um e-mail diretamente:

 

randersomfigueiredo@hotmail.com

 

Até a próxima.

Referências bibliográficas

 

Bíblia: Tradução Ecumênica. (1994). São Paulo: Edições Loyola.

F.Edinger, E. (2020). Ego e Arquétipo. São Paulo: Cultrix.

Jung, C. G. (2014). Volume 10: Civilização em Transição. RJ: Editora Vozes.

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