BENDITA DESOBEDIÊNCIA - PEDAGOGIA DE DEUS
Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso.
Melanie Klein
Muito bem, caro leitor, a premissa de hoje para o desenvolvimento da série Pedagogia de Deus será sobre a abordagem bíblica de Adão e Eva.
Começarei o texto de hoje com um relato.
Quando participava das missas aqui na comunidade, em Fortaleza/Ceará o padre da paróquia já era um senhor bem idoso, inclusive o mesmo fez o meu batismo, muitos acreditavam que ele já estava senil, numa linguagem mais tupiniquim: esclerosado. Diante das inúmeras inserções que ele fazia na homilia, poderia até parecer isso mesmo, mas somente poderia...
O fato é que o padre em questão estava mais lúcido do que todos que participavam das suas missas sempre refesteladas com abordagens sobre Adão e Eva.
Quando passei a prestar verdadeiramente atenção no que ele dizia comecei a me entusiasmar a pesquisar ainda mais sobre a intrincada relação do Santo Evangelho e psicologia profunda.
A frase de Melanie Klein é bem assertiva quanto ao texto de hoje. Acredito que você, leitor, vai entender tudo direitinho, o que desejo exemplificar em cada parágrafo deste texto.
À medida que vou tecer o texto vou deixá-lo a par de tudo.
Pois muito bem, esse padre que muitos consideravam gagá era o mais lúcido de todos! Ele abordava de uma forma exegética sem igual sobre Adão e Eva. Quem estava atento conseguia entender tudo.
Sabe leitor, acredito que o paraíso só existe graças às lacunas que estão ao redor do paraíso, caso contrário não existiria a ideia, veja bem, eu disse a ideia de paraíso.
Quem está no paraíso não sabe, não se apercebe que está no paraíso, a não ser que seja retirado de lá. E foi o que aconteceu com o nosso casal de estudo de hoje: Adão e Eva.
Muitas são as insinuações a respeito de Adão e Eva. Muitas!
Mas poucas são capazes de esmiuçar o que de fato convém realmente saber. Adão significa aquele que vem da terra, homem=húmus.
Eva significa aquela que dá vida.
Então o quer dizer sobre Adão e Eva? Todo homem e toda mulher, e não somente um casal. Não necessariamente um casal com nomes próprios.
É notório que há uma sedução do mal dentro dessa perspectiva representada por alguns elementos simbólicos, são exteriorizações, são expressões dessa verdade:
- A árvore
- A maçã
- As folhas da figueira e a nudez
- A serpente
O que percebo é que diante de todos esses elementos é que há uma tomada de consciência diante de tudo que é apresentado, e claro, da decisão tomada.
E desta forma temos a nudez como um símbolo de tomada de consciência crucial diante de Deus. O esconder-se de Deus (Gn 3,8b.10) é o símbolo do homem que se reconhece pecador, culpado e consciente.
O homem estava nu e escondeu-se de Deus.
A serpente simboliza a inclinação que o homem tem para o mal. E utiliza a serpente porque era o símbolo da religião de Canaã. Um emblema fálico. E é símbolo do mal.
Portanto a origem do mal, teologicamente falando, está pelo fato do homem ter dado ouvidos à serpente e não a Deus, é um sentido etiológico.
Então a questão dessa desobediência a meu ver propiciou para que houvesse uma tomada plena de consciência, saber o verdadeiro motivo pelo qual lutamos.
É o homem quem constrói ou quem destrói o paraíso.
E a frase da grande psicanalista Melanie Klein reverbera isso. Quando se passa a ter uma tomada de consciência é possível trazer a lume a verdadeira essência, nos aproximamos do que por ventura tratamos como verdade.
Foi na Idade Média que houve a ideia-mor de paraíso, e Dante na sua Divina Comédia expandiu bastante.
Para não dizer que não falei das flores...
Voltando ao início do texto, quando fui a outra missa com outro padre, ele arrematou o que o padre mais idoso havia dito: Adão e Eva é uma mitologia impregnada na psique do homem. Disse.
Dentro dessa perspectiva desse padre mais subversivo, vamos dizer assim, o homem completo ou o sentimento de integridade psíquica corresponde ao paraíso das religiões judaico-cristãs.
Falei tudo isso para chegar a esse arremate. Foi necessário, acredito.
A expulsão do Jardim do Éden é um exemplo de como o homem deve sacrificar algo para obter a consciência em cujo centro está o Ego, argumento utilizado diversas vezes para explicar o surgimento da civilização e o sofrimento do homem.
Temos uma grande ignorância sobre o que é bom e/ou que é mal. É algo plenamente subjetivo segundo Jung.
Em poucas palavras houve nesse caso da experimentação da árvore uma consciência dos opostos. Edward Edinger, um dos meus analistas junguianos preferidos diz:
“É o fruto da árvore do conhecimento sobre o bem e o mal o qual trás a consciência dos opostos (…)”. (F.Edinger, 2020).
E esse ato poderia ser considerado um ato malvado por parte do casal.
Bem, querido leitor desta plataforma, escrevi tudo isso para chegar à conclusão de que o mito de Adão e Eva nada mais representa que o surgimento da consciência.
Já trabalhamos esse ponto aqui algumas vezes, o Ego é o oposto direto do Self que por sua vez controla a psique. O ego é o jardim do Éden e o Self a figura divina.
Esse crime cometido causa a separação da inconsciência paradisíaca e a consciência. E a culpa é o pecado original, que surge com o nascimento da consciência.
“Senhor Deus chamou o homem e lhe disse: “Onde estás”?”, ‘”Ele respondeu: “Ouvi a tua voz no jardim, tive medo porque estava nu, e me escondi” (Bíblia: Tradução Ecumênica, 1994).
O sofrimento anunciado por Deus, reflete ao trabalho, agora terão que se sustentar com o fruto do próprio trabalho e sofrer as dores do parto. Acredito que é por isso que a nudez é tão evidenciada, não a física, mas uma nudez moral.
“A aquisição da consciência é um crime, uma hybris contra os “poderes estabelecidos”; mas é um crime necessário, pois traz uma alienação necessária do estado natural de plenitude inconsciente” (F.Edinger, 2020).
Cada passo ao despertar é doloroso, cheio de culpa e sofrimento, mas o “Ser como Deus ao conhecer o Bem e o Mal” deixa bastante claro o fato de que no caminho há muito mais que o aparente.
Afinal, sempre com a tomada de consciência seremos expulsos de algum paraíso, parafraseando Melanie Klein.
Então por hoje é só.
Fiquei muito feliz por ter chegado a desenvolver essa análise que há muito tempo planejava. Espero que tenha gostado e se tiver algo a mais que me esqueci de elencar é só falar nos comentários.
Ou então se quiser pode me enviar um e-mail diretamente:
randersomfigueiredo@hotmail.com
Até a próxima.
Referências bibliográficas
Bíblia: Tradução Ecumênica. (1994). São Paulo: Edições Loyola.
F.Edinger, E. (2020). Ego e Arquétipo. São Paulo: Cultrix.
Jung, C. G. (2014). Volume 10: Civilização em Transição. RJ: Editora Vozes.


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