O ARQUÉTIPO DA VIRGEM MARIA, FEMINISMO, EVA E O INSTINTO MATERNO – POSTAGEM ESPECIAL DIA DAS MÃES
Olá leitor desta plataforma. Hoje com mais uma postagem especial. Especial Dia das Mães.
O tema de hoje é “O arquétipo da Virgem Maria, Eva, feminismo e o instinto materno”. Resolvi unir estes quatro assuntos para dialogarmos com calma e chegarmos a uma conclusão.
Primeiro resolvi abrir a postagem de hoje de forma diferente, com uma música de Chico Buarque, Mulheres de Atenas, ao falar sobre a questão do patriarcado e da repressão ao feminino. Casa perfeitamente com o nosso tema (sei que a canção também aborda questões políticas, mas vamos nos deter aos pontos abordados no texto, tudo bem?).
Se for possível peço que, por favor, escute a canção.
A Virgem Maria, também conhecida como Nossa Senhora como sabemos é a mãe de Jesus e também modelo central de mulher para a sociedade ocidental.
Mulher imaculada, “submissa” e acolhedora. E principalmente participativa, dentro do contexto do Evangelho a Virgem Maria assume ares de participação ativa.
Acompanhe comigo. À época do Evangelho, no caso no Novo Testamento a sociedade exalava patriarcalismo, São José, esposo casto de Nossa Senhora quase não tem participação dentro desse contexto do patriarcado, o que eu percebo é que Nossa Senhora surge como um contraponto dessa sociedade marcada pelo excesso de comando patriarcal.
Um exemplo clássico são as Bodas de Caná na Galileia.
Por intermédio da Virgem Maria foi que Jesus realizou seu primeiro milagre. Não vou dizer que ela induziu-o, mas que ela foi crucial a isso foi para que o milagre se concretizasse.
Quando Jesus sumiu por três dias quando criança, foi ela que tomou à dianteira em procurá-lo. Não é que José não fizesse nada, é porque era a missão de Maria agir desta forma para executar uma quebra de paradigmas. E que quebra. Sigamos...
Suas primeiras aparições se deram nos Evangelhos de Lucas e de Mateus, que apontaram a revelação do anjo Gabriel acerca de sua concepção do Filho de Deus.
Depois, seu nome foi citado em ocasiões especiais quando visitou sua prima Isabel, o nascimento, a pregação de Jesus no Templo, as bodas de Caná, a crucificação e morte na cruz de seu filho e, por fim a hierofania de Pentecostes.
Em História do Cristianismo de Ambrógio Domini, defende que a compilação e difusão tardia dos Evangelhos, permitiram que a tradição oral se encarregasse de preencher determinadas lacunas acerca de Jesus e, naturalmente, de Maria.
A Virgem Maria é o feminino mais próximo da comunhão. Abaixo de Jesus está o nome de Maria.
E sua atuação dentro do círculo do Evangelho está intimamente ligada à questão do discurso.
Pierre Bourdieu ao estudar a estrutura dos discursos aponta que muitos deles, institucionalizados, tornam-se ordenativos, estabelecem normas e impõem restrições porque “os discursos não são apenas, a não ser excepcionalmente, signos a serem compreendidos, decifrados; são também signos de riqueza a serem avaliados, apreciados e signos de autoridade a serem acreditados e obedecidos”.
Citei o Bourdieu porque principalmente no medievo, a mulher era vista como um ser perigoso, pois fazia parte em comum com Eva, uma mulher que é pecadora. Já Maria representa isenção do pecado.
Depois do pecado original, Maria transformou-se num ideal de feminino a ser seguido. Eva é menosprezada no discurso eclesiástico, mas Maria é enaltecida como a encarnação da redenção.
Deu para compreender onde estou querendo chegar?
Uma necessita da outra em matéria de existência. E essa existência durante mais de 2.000 anos foi estigmatizada de forma acachapante na cabeça das mulheres.
As mulheres foram socializadas para ser Maria. Ela apesar de sua participação ativa, jamais perdeu ares dos epítetos citados no início do texto.
A serem expostas às contrariedades da sociedade e reagirem de forma oportuna com um silêncio avassalador e a redimir os pecados de quem quer que seja.
O patriarcado foi e continua sendo o responsável por todo esse imbróglio religioso que tanto dilapida e dilacera famílias mundo afora.
A Santíssima Trindade é um exemplo claro disso: Pai, Filho e Espírito Santo. São figuras masculinas por assim dizer. E Maria é considerada uma deusa oculta nesse cenário divinizado. Uma auxiliar.
O feminismo surge com outro viés. Um viés mais libertador.
A mulher foi ensinada desde cedo a se comportar como Maria, a não se rebelar como Maria, a acolher a todos como Nossa Senhora.
Esse movimento feminista tem justamente como critério estabelecer este aspecto de não só oposição, mas de reivindicação como um dos principais pontos.
Matéria divulgada pelo jornal O Globo revela que a cada três horas uma mulher é estuprada no Brasil, e esse dado provém apenas das denúncias realizadas no telefone 180, o que significa dizer que é um dado ínfimo considerando a numerosidade de casos não denunciados.
Nós homens fomos ensinados a esperar acolhimento ininterrupto por parte das mulheres, e se elas assim não o fazem é porque são transgressoras ou tresloucadas.
Existe uma imensidão de tantas situações e lacunas a serem preenchidas: capitalismo, patriarcado, universidade, teorias modernosas. E os casos falocêntricos que predominam nas rodas de conversa.
Mulheres e movimento feminista são condenados à mesma sina porque foram ensinadas desde meninas a aceitar que devem tomar conta de todos num chamado ‘instinto maternal’.
E como Maria, devem salvaguardar a todos.
O patriarcado exige isso do feminismo. E de forma muito cruel.
Acredito que o feminismo é necessário e fundamental, pois faz não só que mulheres, mas que nós homens aprendamos a respeitar o espaço que pertence ao feminino.
A luta feminista é pra tirar mulheres das estatísticas de miséria, estupro, pedofilia, violência doméstica, casamento infantil, infanticídio.
O Feminismo é pra revolucionar o mundo para mulheres. Mas em contrapartida, como disse, fazer com que os homens enxerguem também o seu papel na sociedade.
Não olhar as mulheres como meras reprodutoras, mas como cidadãs participativas e engajadas numa sociedade plena e mais igualitária de se viver.
O feminismo é para colocar verdadeiramente os pingos nos i’s.
Salvar as mulheres da posição que a sociedade patriarcal as colocou. Essa misoginia reforça o paralelo que tanto nos embrutece e tanto nos afasta uns dos outros.
Mais uma vez as mulheres são engolidas pelo arquétipo da Virgem Maria, para que a compreensão e doçura sejam maiores que a vontade de agir.
E claro, as que resistem são queimadas na fogueira de uma inquisição excludente e nada, nada misericordiosa. Pois elas são consideradas egoístas.
Como já mencionei, 2.000 anos se passaram e as mulheres continuam a serem vistas como a imagem da procriação abnegada, presas a estereótipos as quais lutam para quebrar.
A meu ver, não há nenhum problema em não desejar ser mãe, nem todas as mulheres nasceram com o instinto materno. E abster-se desse complexo é procurar viver melhor.
Há uma culpabilidade histórica em todas as mulheres, com Eva diante do fruto proibido e que depois foi amenizado por Maria, mas que continuou com Nossa Senhora, pois todas as mulheres ao seu modo jamais chegariam ao seu modelo de abnegação, doçura e sem mácula.
Estariam todas relegadas a não encontrar o objetivo.
O feminismo veio para quebrar verdadeiramente paradigmas e procurar instituir não só um novo modelo para as mulheres, mas correlacionar o falido patriarcado que tanto assombra e colocar pra longe o massacre que tentam impor para manter as mulheres caladas.
Mudei muito meus pensamentos de uns tempos pra cá, mas sempre é hora de reconhecer que é necessário tomar outros posicionamentos. Dedico esta postagem não somente a todas as mulheres que são mães, mas principalmente as que não são e que lutam por um mundo mais justo e igualitário para se viver.
Até a próxima.


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