UM FOGO DIVINO! - PEDAGOGIA DE DEUS
O tema do Pedagogia de Deus de hoje será sobre a questão do fogo numa análise psicológica e porque não dizer também teológica e alquímica.
Iremos estudar hoje sobre a calcinatio(calcinação).
Esse processo químico envolve um intenso aquecimento de um sólido, destinado a retirar dele a água e todos os demais elementos passíveis de volatização.
O processo de calcinação envolve a geração de calor.
Os alquimistas acreditavam que era o próprio fogo.
Santo Agostinho, por exemplo, é um dos que descrevem sobre a cal no seu livro Cidade de Deus.
Cada um dos 4 elementos tem a sua própria operação particular, a calcinatio é a operação do fogo, solutio – água, coagulatio – terra e sublimatio – ar.
Toda essa minha introdução nos leva a uma rica, complicada e extensa explicação sobre o simbolismo do fogo. Jung demonstrou que o fogo simboliza a libido, mas vai muito mais além.
E para exemplificar sobre essa questão da calcinatio vou utilizar o Santo Evangelho como prova de que o fogo foi deveras utilizado em diversos textos bíblicos.
Aquele que demonstra invulnerabilidade ao fogo indica uma imunidade com uma identificação ao afeto. Esse fogo, da calcinatio é purgador, embranquecedor.
Ou seja, o seu simbolismo vincula a questão do purgatório. A doutrina do purgatório é a versão teológica da calcinatio projetada na vida depois da morte.
Interessante não é? Mas o mais interessante está por vir...
A principal fonte escritural da doutrina está em I Coríntios 3:11-15.
Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.
E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha,
A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um.
Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão.
Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo.
1 Coríntios 3:11-15
E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha,
A obra de cada um se manifestará; na verdade o dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um.
Se a obra que alguém edificou nessa parte permanecer, esse receberá galardão.
Se a obra de alguém se queimar, sofrerá detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo.
1 Coríntios 3:11-15
Santo Agostinho comenta essa passagem, mais uma vez em Cidade de Deus, 21:26. É importante que se diga caro leitor, que a doutrina do purgatório não havia se estabelecido à época de seus escritos.
Todavia essas observações seriam aplicadas ao fogo do purgatório.
Santo Agostinho faz duas importantes afirmações de cunho psicológico.
Em primeiro lugar o fogo do purgatório é causado pelas frustrações da luxúria, do desejo, do amor possessivo, ou seja, pela concupiscência.
Em segundo, podemos sobreviver a esse fogo caso tenhamos um forte fundamento em Cristo. Mas e o que quer dizer isso psicologicamente?
Bem, segundo minhas pesquisas, o desenvolvimento psicológico será promovido pela frustração dos desejos de prazer e de poder, obviamente desde que a pessoa tenha uma relação viável com o Si-mesmo/Self/Imago Dei, simbolizado por Cristo.
A questão do fogo é muito alusiva à punição. A ideia do fogo eterno punitivo. Uma calcinatio perpétua. Da mesma forma no Budismo, o Avichi, o mais baixo dos “infernos quentes”, é um lugar de tortura pelo fogo como punição dos pecados.
Sabemos perfeitamente que essa imagem é mais bem desenvolvida na doutrina cristã do inferno.
Uma dessas fontes é Mateus 25:41-43.
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos;
Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
Mateus 25:41-43
Orígenes, compara o fogo com as paixões do homem. Ele faz uma interpretação psicológica do inferno, ao dizer que o próprio homem ateia ele mesmo seu próprio fogo, cita o profeta Isaías que o fogo que cada homem é punido pertence a ele mesmo.
Em Isaías 50:11 - Eis que todos vós, que acendeis fogo, e vos cingis com faíscas, andai entre as labaredas do vosso fogo, e entre as faíscas, que acendestes. Isto vos sobrevirá da minha mão, e em tormentos jazereis.
O que isso quer dizer? Que para os primeiros padres da igreja as realidades teológica e psicológica eram uma só.
O fogo do inferno é a condenação final àqueles que foram julgados no juízo final, que são pesados na balança e julgados culpados. É o destino dos aspectos transpessoais do ego que tem que passar pela calcinatio.
Existem muitas simbologias expressas do fogo do juízo final.
Por exemplo, em Apocalipse 20:13-15 temos:
E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras.
E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte.
E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.
Apocalipse 20:13-15
O fogo punitivo do juízo final é considerado a ira de Deus.
Algumas passagens para elucidar os fatos.
Há inúmeras passagens do Antigo Testamento que usam metáforas metalúrgicas para descrever os testes que Iahweh submete seu povo eleito.
E voltarei contra ti a minha mão, e purificarei inteiramente as tuas escórias no cadinho; e tirar-te-ei toda a impureza.
Isaías 1:25
Eis que já te purifiquei, mas não como a prata; escolhi-te na fornalha da aflição.
Por amor de mim, por amor de mim o farei, porque, como seria profanado o meu nome? E a minha glória não a darei a outrem.
Isaías 48:10,11
E farei passar esta terceira parte pelo fogo, e a purificarei, como se purifica a prata, e a provarei, como se prova o ouro. Ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: É meu povo; e ela dirá: O Senhor é o meu Deus.
Zacarias 13:9
E Deus no AT continua a falar dos purificados dos que passaram pela calcinatio:
Mas agora, assim diz o SENHOR que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te remi; chamei-te pelo teu nome, tu és meu.
Quando passares pelas águas estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti.
Porque eu sou o Senhor teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador; dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e a Seba em teu lugar.
Isaías 43:1-3
Essa passagem faz alusão de que na morte as almas passam por um rio ou mar de fogo, que atinge os ímpios, mas não os justos. Aos justos é como leite quente e aos ímpios como metal derretido.
As observações a respeito do fogo a que Iahweh faz a respeito que dá ao uso do fogo podem ser comparadas com as afirmações de Paracelso, acerca dos efeitos alquímicos do fogo:
Pelo elemento fogo, tudo que há de impuro é destruído e retirado.
Na ausência de teste pelo fogo, não há como provar uma substância.
O fogo separa aquilo que é constante ou fixo, daquilo que é fugidio ou volátil.
Paracelso, The Hermetic and Alchemical Writings of Paracelsus, 1:4.
Jesus Cristo também suportou o fogo da ira divina naquela passagem no Monte das Oliveiras e também na Cruz, quando ele questiona a Deus, de tê-lo abandonado na Cruz, mas também sabemos que essa passagem é para confirmar o salmo davídico (Salmo 22) no AT:
Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido?
Salmos 22:1
Na Grécia encontramos o fogo como purificador e separador da alma. Em Ilíada temos essa presença marcante, quando se diz que somente pelo fogo as almas dos mortos são apaziguadas (Ilíada, VII, 410). Para a alma de o morto ser dirigido ao Hades o corpo antes tinha que ser queimado.
Em toda parte associamos o fogo com Deus, são experiências numinosas.
Cristo também é associado com o fogo. Vamos a outra passagem:
Vim lançar fogo na terra; e que mais quero, se já está aceso?
Lucas 12:49
Os estóicos por exemplo percebiam dois tipos de fogo: terrestre e etéreo (Espírito Santo). A palavra de Deus é descrita como um fogo:
Portanto assim diz o Senhor Deus dos Exércitos: Porquanto disseste tal palavra, eis que converterei as minhas palavras na tua boca em fogo, e a este povo em lenha, eles serão consumidos.
Jeremias 5:14
Porventura a minha palavra não é como o fogo, diz o Senhor, e como um martelo que esmiúça a pedra?
Jeremias 23:29
Outro ponto diz que a língua do homem é inflamada pelo inferno:
A língua também é um fogo; como mundo de iniquidade, a língua está posta entre os nossos membros, e contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, e é inflamada pelo inferno.
Tiago 3:6
Outro ponto também que posso destacar é o milagre de Pentecostes, em Atos 2:3, o Espírito Santo vem como línguas de fogo. Pronto! Um exemplo do fogo como Espírito Santo.
Então o que dá para perceber é que a simbologia do fogo é altamente representativa, elucidativa e porque não dizer psicológica e teológica.
Porque sabemos também, mais uma informação importante, que nos tempos primitivos o fogo ele era utilizado como método de sacrifício dos deuses, o que era sacrificado pela combustão, de certa forma era sagrado.
Aquilo que queima, sobe aos deuses como fumaça.
Esta é a base do sacrifício dos gregos e dos judeus.
Resumindo: por meio do fogo pode cooperar com os deuses.
Agora para finalizar, um exemplo clássico da calcinatio, é a lenda de São João Evangelista...
Conta-se que depois que se separaram, os apóstolos, João Evangelista ele foi para a Ásia e lá fundou várias igrejas, o imperador Domiciano sabendo de sua fama o chamou e o jogou numa bacia de óleo fervente na chamada Porta Latina.
Pasmem! Ele sobreviveu ileso é bom que se diga, e depois não satisfeito o mesmo imperador Domiciano o exilou na ilha de Patmos, vivendo sozinho escreveu o Apocalipse.
O cruel imperador foi assassinado naquele mesmo ano.
Deu para perceber a importância do fogo na história? Hoje me alonguei bastante, mais até do que deveria, mas para mim foi muito importante esclarecer esse debate sobre a calcinatio.
Resumo da ópera: o fogo tem mais do que uma importância meramente de utilidade para nós, mas simbolicamente ele representa purificação, o Espírito Santo, Deus...
Sua simbologia é enorme, deu para perceber não é? E de tão importante teologicamente, empiricamente e psicologicamente ele se tornou uma forma de poder.
Sei que hoje dei uma exagerada no texto, reitero, mas foi necessário. Espero que tenha gostado. Até a próxima.


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