O LIVRO DE JÓ À LUZ DA PSICOLOGIA ANALÍTICA

abril 06, 2018 Randerson Figueiredo 4 Comments




Olá leitor! Hoje vamos debater sobre um dos livros da bíblia: o livro de Jó. Mas à luz da psicologia analítica.

Quando escrevi sobre o Deus de Jung estava de certa forma preparando você e também me preparando para escrever sobre alguns temas abordados em relação a essa postagem.

Jung escreveu um livro intitulado Resposta a Jó e segundo ele anos mais tarde depois de ter escrito, Jung disse que esse seria um livro que ele não mexeria, que estava pronto.

Como falei na postagem anterior sobre o Deus de Jung, Deus representa uma imagem arquetípica dentro de nossa psique, justamente o Self, Si-mesmo ou Imago Dei (Imagem de Deus). Como queira chamar.

Para os teólogos isso era inconcebível. O Deus retratado na bíblia era o Deus criador do universo, o grande ser numinoso que só espalha o bem por onde quer que ande.

Mas no Antigo Testamento o Deus todo poderoso era injusto e irascível, pelo menos é o que percebemos em relação a inúmeras passagens.

Jung acredita que o livro de Jó é um livro pivô na bíblia. Por isso foi uma grande polêmica quando foi lançado.

A tese de Jung é que Deus sofreu uma evolução após sua discussão com Jó: foi obrigado a encarnar em Cristo e veio ao mundo para aumentar seu nível de consciência.

Javé, o Deus do Antigo Testamento é completo, incorpora o bem e o mal. Para Jung Ele incorpora sua sombra. Quando encarna em Jesus, um Deus exclusivamente bom ele projeta o demônio, tanto é que a prova disso é bem evidente: o demônio aparece 4 vezes no AT e 66 vezes no Novo Testamento.

Um dos primeiros Padres da Igreja, Clemente de Roma, é citado como tendo dito que Deus dirige o mundo com Cristo na sua mão direita e Satanás em sua esquerda.

Claro que os teólogos iriam relutar essa visão de um Deus inconsciente, pois para eles o mal viria exclusivamente de nós, seres humanos.

Antes de adentrarmos no universo do livro de Jó quero aqui deixar bem claro que Jung não poderia dizer nada a respeito de Deus, pois como já mencionei o Deus de Jung era arquetípico e não incognoscível como esse Deus que se apresenta aos teólogos.

Jung não era um teólogo, mas um cientista empírico! É bom frisar.

Provavelmente apenas os místicos poderiam ter um contato direto com essa grande força, mas não poderiam descrevê-la com as limitadas palavras da linguagem humana.

A Bíblia, composta por seres humanos, só poderia falar sobre essa imagem de Deus (Imago Dei)/Self e nunca sobre o Deus Maior. Nossa capacidade é limitada para adentrar o vasto caminho das veredas.

Agora sim, vamos falar um pouco sobre o referido livro: o livro de Jó.

No seu livro Bíblia e Psique, Edward F. Edinger, importante discípulo de Jung, nos informa que a “individuação é o processo do encontro e da progressiva relação do ego com o si-mesmo” (Edinger, 1990, p. 30). Ele diz também que “o Antigo Testamento documenta um diálogo contínuo entre Deus e o homem, tal como se expressa na história sagrada de Israel”.

Na visão do psicólogo junguiano, a Bíblia é como um compêndio de encontros com o numinoso. Esses encontros são compreendidos “como representações do encontro entre o ego e si-mesmo, que é o aspecto mais importante da individuação” (Edinger, 1990, p. 32-33).

Edinger comenta também a respeito da seqüência dos livros do Antigo Testamento da Bíblia, dizendo que é uma seqüência significativa que “enfatiza um processo de desenvolvimento linear compatível com a qualidade histórica da psique ocidental” (Edinger, 1990, p. 33). É uma sequência que forma um arranjo, um todo equilibrado, constituindo-se de três blocos de livros: os históricos, os sapienciais e poéticos, os proféticos.

Nos livros chamados históricos, Israel é tomado coletivamente como nação. 

“As imagens da individuação têm como portador a nação como um todo, o povo escolhido.” (EDINGER, 1990, p. 33) Do outro lado há os livros chamados proféticos, sendo “cada um deles intitulado com o nome de um indivíduo importante que teve encontro pessoal com Iahweh e foi destinado a ser portador individual da consciência de Deus” (Edinger, 1990, p. 34).

Entre os livros históricos e os livros proféticos temos os livros chamados sapienciais e os poéticos, que são encabeçados pelo livro de Jó.

Jó é o pivô da história do Antigo Testamento. (...) Aqui, pela primeira vez, um homem se encontra com Iahweh como indivíduo e não como uma função do coletivo. Da mesma forma, Iahweh não trata Jó como se ele fosse representante de Israel, e sim como um homem individual. Este livro, portanto, marca a transição da psicologia coletiva para a psicologia individual. (Edinger, 1990, p. 34)

Esse é o objeto da nossa reflexão a partir da psicologia junguiana: o indivíduo Jó do livro de mesmo nome na Bíblia.

Tomaremos como base a Bíblia de Jerusalém (2004), para a utilização do texto bíblico, e as obras do psicólogo junguiano Edward F. Edinger, quais sejam Bíblia e Psique, simbolismo da individuação no Antigo Testamento (1990); Ego e Arquétipo, uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung (1989); A Criação da Consciência, o mito de Jung para o homem moderno (1996) e O Encontro com o Self, um comentário junguiano sobre as “Ilustrações do Livro de Jó” de William Blake (1991). Com base nestas obras, faremos uma reflexão sobre o processo psicológico da individuação vivenciado por Jó.

A visão que Edinger tem do livro de Jó, baseando-se no livro de Jung Resposta a Jó, é a de que a história toda do livro de Jó “é uma imagem arquetípica que retrata um certo tipo de embate entre o ego e o Self.” (Edinger, 1991, p. 13) Aí estão presentes o ego individual e o Si-mesmo (Self) que é a Personalidade Maior (Deus).

É importante dizer que o “Livro de Jó é um relato da experiência real de um indivíduo” (Edinger, 1989, p. 133).

Em Jó 1,1 lê-se que Jó temia a Deus, o que para Edinger é a estrutura religiosa estabelecida. Ou seja, Jó e sua mulher têm valores transpessoais, têm religião.

Em Jó 1,14-19 mensageiros vão à casa de Jó para dar más notícias.

O primeiro diz que tribos nômades que praticavam a pilhagem mataram os servos de Jó e roubaram todos os bois e todas as mulas do seu rebanho; o segundo conta que um raio atingiu as ovelhas e os pastores do rebanho de Jó; um terceiro conta que outro grupo de nômades roubou todos os camelos e matou os servos de Jó e um quarto mensageiro conta que os filhos e as filhas de Jó estavam na casa do irmão mais velho e foram todos mortos quando um furacão desabou a casa sobre eles.

O que tudo isso até agora quer dizer?

A chegada de todas estas más notícias tem um importante significado psicológico, ou seja, de que os valores transpessoais vivenciados por Jó e sua mulher “estão sendo destruídos pela energia que rompe do inconsciente” (Edinger, 1991, p. 31).

O sacrifício de Jó é, portanto, a demonstração do que ocorre em seu processo de individuação, no qual:

As imagens e atributos do Si-mesmo são agora experimentados como coisas distintas do ego e situados acima dele. Essa experiência traz consigo a percepção de que não se é dono da própria casa. A pessoa toma consciência de que há uma orientação interna autônoma, distinta do ego e, com freqüência, antagônica a ele (Edinger, 1989, pp. 143-144)

Jó passou por inúmeros sofrimentos, mas o ego reconheceu que era menor que o Self, que a imagem de Deus e assim pode reconstruir sua vida.

Ao lermos os últimos versículos do livro, ou seja, os versículos de 10 a 17 do capítulo 42, somos informados de que Javé mudou a sorte de Jó, ou seja, o encontro com o numinoso possibilitou a Jó uma nova sorte.

Jó recebe a visita dos irmãos, que almoçam com ele e lhe oferecem uma soma em dinheiro e anel de ouro. Jó voltou a possuir rebanhos, teve sete filhos e três filhas e sua riqueza era tamanha, a ponto de ele repartir a herança entre os filhos e as filhas, o que não era costume em Israel, sendo que a herança se repartia entre as filhas somente no caso de ausência de filhos varões (cf. Bíblia de Jerusalém, 2004, p. 857).

Jó viveu cento e quarenta anos, número bíblico que se refere à soma de setenta com mais setenta, ou seja, resgatando o número sete, que quer dizer no contexto bíblico que ele viveu uma quantidade de anos perfeita para realizar seu processo de individuação.

E quanto a Jó, podemos concluir a respeito de seu processo de individuação dizendo que para encontrar-se com o Si-mesmo/Self, Jó teve de enfrentar seu ego inflado.

Para isto, foi necessária a queda (seu sofrimento) que provocou o contato com o conteúdo do seu inconsciente e, portanto, com a sombra, que ele não conseguia reconhecer.

Ao reconhecer as imagens monstruosas que estavam na sua sombra, Jó pôde reconhecer que o Si-mesmo é maior que ele. Assim foi possível a Jó encontrar-se com Javé, pois passou a reconhecer a sua realidade psíquica, composta do ego, da sombra, da persona e do Si-mesmo (Self).

Neste processo de individuação, Jó pôde lançar mão da matéria- prima da psique. Ao fazer o contato com a matéria-prima do inconsciente, Jó experienciou a criatividade, refazendo sua família, reconstituindo suas posses, vivendo cento e quarenta anos.

Ou seja a pergunta que muitas vezes paira no ar é a seguinte: porque Deus permitiu a um homem tão bom passar por todas essas provações?

A resposta vem como uma flecha: para que ele pudesse experimentar o que de melhor estivesse ao seu alcance. Para que ele pudesse extrair o melhor dentro de si e encontrar no seu processo de individuação o seu verdadeiro caminho de luz interior.

Jung afirmou que o livro reflete sua reação subjetiva, dando expressão à "emoção devastadora que o espetáculo de selvageria nua e crua de divina crueldade produz em nós."

A estimativa comum é que o livro de Jung é um ataque apaixonado e implacável ao Deus do Antigo Testamento. Isso não é verdade. Psicologicamente falando, é uma tentativa de se chegar a um acordo com a imagem luminosa do Self e sua realidade dramática.

Essa foi a pesquisa de hoje, espero que tenha gostado.

Até a próxima se Deus quiser.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bíblia de Jerusalém. Nova Edição, Revista e Ampliada. São Paulo: Paulus, 2004.

EDINGER, Edward F. A Criação da Consciência, o mito de Jung para o homem moderno. São Paulo: Cultrix, 1996.

_______ Bíblia e Psique, simbolismo da individuação no Antigo Testamento. São Paulo: Edições Paulinas, 1990.

_______ Ego e Arquétipo, uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. São Paulo: Cultrix, 1989.

_______ O Encontro com o Self, um comentário junguiano sobre as “Ilustrações do Livro de Jó” de William Blake. São Paulo: Cultrix, 1991.

JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Rio de Janeiro: Vozes, 2011.

Você também pode gostar de...

4 comentários:

  1. Oi Melissa muito boa tarde!
    Não, não tenho o PDF da obra de Edinger. Consegui emprestado de um amigo para fazer a postagem. Realmente o livro está a preços absurdos no site Estante Virtual, o que é uma pena.
    Se possível retorne ao blog. Sua presença é importante.
    Fraternal abraço.

    ResponderExcluir
  2. Clara, agradeço muito a sua participação, que bom que gostou da postagem. Sou eu que agradeço a sua visita ao blog, muito obrigado de verdade. Espero que se você puder possa visitar o blog sempre, tenho muito carinho pelos leitores.

    Um grande e fraternal abraço.

    ResponderExcluir
  3. Olá Melissa. Sobre o livro que procuras eu achei ele em pdf, num site de compartilhamento de ebooks, chamado Docero. Vou deixar o link aqui pra tu baixar. As vezes o site fica meio fora do ar, se clicar no link e nao aparecer nada é por isso. Mas tenha paciencia que uma hora vai. Importante qd conseguires entrar no site vc tem que fazer um cadastro ou usar sua conta do google. Aqui o link:
    https://docero.com.br/doc/sc01115

    ResponderExcluir
  4. Olá, agradeço a indicação da obra de Edward Edinger. Excelente!

    ResponderExcluir