UMA ALEGORIA DA CAVERNA PÓS-MODERNA – FILOSOFANDO

junho 07, 2020 Randerson Figueiredo 0 Comments


Imagem representativa do Mito da Caverna por Jan Sanraedam (1604)

Olá leitor do blog Saber Jung, mais uma vez por aqui para discutirmos assuntos relevantes e sempre que possível voltados para o amplo contexto social.

 

Certa feita estava cá com meus botões a analisar as redes sociais, e percebi que essas redes têm muito a nos ensinar, e por conseguinte são muito parecidas com o conceito que o filósofo Platão utilizou no seu livro VII de A República chamado Mito da Caverna, também conhecido como Alegoria da Caverna.

 

Para relembrar essa Alegoria da Caverna, vamos a um pequeno resumo:

 

Platão descreve que alguns homens, desde a infância, se encontram aprisionados em uma caverna. Nesse lugar, não conseguem se mover em virtude das correntes que os mantém imobilizados.

 

Virados de costas para a entrada da caverna, veem apenas o seu fundo. Atrás deles há uma parede pequena, onde uma fogueira permanece acesa.

 

Por ali passam homens transportando coisas, mas como a parede oculta o corpo dos homens, apenas as coisas que transportam são projetadas em sombras e vistas pelos prisioneiros.

 

Certo dia, um desses homens que estava acorrentado consegue escapar e é surpreendido com uma nova realidade. No entanto, a luz da fogueira, bem como a do exterior da caverna, agridem os seus olhos, já que ele nunca tinha visto a luz.

 

Esse homem tem a opção de voltar para a caverna e manter-se como havia se acostumado ou, por outro lado, pode se esforçar por se habituar à nova realidade.

 

Se esse homem quiser permanecer fora pode, ainda, voltar para libertar os companheiros dizendo o que havia descoberto no exterior da caverna.

 

Provavelmente, eles não acreditariam no seu testemunho, já que a verdade era o que conseguiam perceber da sua vivência na caverna.

 

Fica claro que com a Alegoria da Caverna, Platão nos mostra a importância da educação e da aquisição do conhecimento para driblar a ignorância e estar a par da verdade e ter um pensamento crítico.

 

O senso comum são as sombras. O conhecimento científico é a luz.

 

O que eu desejo salientar no texto de hoje é justamente esse viés que a sociedade quer nos moldar, quer oferecer a informação que bem entender. Tornamo-nos mercadorias e não individualidades.

 

Somos invadidos por uma avalanche de mentiras, as Fake News, e isso é estar numa alegoria da caverna pós-moderna, é procurar estar preso aos grilhões das sombras, já que procuramos aceitar aquilo que nos convém.

 

Outra coisa também que observei, já que é um assunto a puxar o outro, esses aplicativos de conversa, por exemplo, como o Whatsapp, tendemos ao não confrontar com a realidade, procuramos nos fechar em nós mesmos, sem conversa, sem diálogo e sem debate. Simples assim.

 

O diálogo está sendo extirpado do mundo pós-moderno.

 

Não há mais diálogo, observo constantemente o declínio de uma boa conversa, desejamos, ansiamos por um estratagema vernacular cada vez mais rápido, ágil e sem emoção.

 

Ao invés de um abraço mandamos emojis sem graça e cafonas. Enviamos coraçõezinhos e carinhas sem a menor emoção, como se aquilo fosse algo altamente inovador e que pudesse substituir o que realmente importa: a sinergia corporal.

 

Isso a meu ver é estar preso às sombras, é estar na caverna.

 

Outro dia observava uma amiga conversar com uma pessoa por esse app, em certo momento da conversa ela mandou um “kkkkkkk”, mas sem esboçar a menor emoção, a menor reação na realidade a qual estamos inseridos. Não me contive, indaguei porque havia mandado os variados K’s se a mesma não estava a rir.

 

Ela disse que era para quebrar o gelo. Ali não era um gelo comum a ser quebrado, era um verdadeiro iceberg em forma de riso não ofertado. Uma enganação sem tirar nem por.

 

Além das Fake News como já citei como estou a falar de redes sociais, o Facebook, por exemplo, não coloca o botão dislike por uma razão muito óbvia.

 

Essa mesma Alegoria da Caverna pós-moderna puxa outro viés, a sociedade positiva. Não procuramos o confronto, não procuramos nos ater ao que é real, pois o fake nos agrada, nos é cômodo e nos mantém embriagados. Onde? Na nossa caverna.

 

Colocar um botão de dislike é um tiro no pé. Isso não agrega valor numa sociedade onde o “me agrada” é moeda constante de troca entre botões de like e emojis ditos carismáticos.

 

É ou não é uma forma de manter todos presos em suas cavernas, aconchegantes e quentinhas? Sem confronto, sem estresse e principalmente sem pânico.

 

As redes sociais representam hoje, sim, uma imensa caverna repleta de imagens e brinquedinhos para nos alegrar, para nos manter longe do que é real, para nos aproximar do que achamos que é importante para cada um de nós e para nos iludir.

 

A alegoria da caverna de Platão a meu ver continua cada vez mais viva e cada vez mais instigante. Cabe a cada um procurar sair da própria caverna e buscar atingir o que de fato importa, buscar encontrar a verdade e a totalidade do real.

 

Até a próxima.

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